Quero Outra Família: O Grito Silencioso de Zuleika

— Você não entende nada, mãe! — gritei, sentindo minha garganta arranhar, mas sem conseguir segurar as lágrimas. O cheiro do feijão queimado invadia a casa, misturado ao barulho da TV alta na sala, onde meu pai dormia de chinelo e camisa regata, indiferente ao caos ao redor. Minha mãe largou a colher na pia com força, respingando água e raiva.

— Não me fala assim, Zuleika! Eu faço tudo por vocês! — ela rebateu, a voz trêmula de cansaço. Mas eu já estava subindo as escadas, batendo os pés com força só pra ela ouvir. No quarto, joguei a mochila no chão e me joguei na cama, abraçando o travesseiro como se ele pudesse me proteger do mundo.

Lá fora, o barulho dos vizinhos misturava-se ao som de funk vindo da rua. Eu queria sumir. Queria ser outra pessoa. Queria outra família.

Na escola, tudo parecia mais fácil. Hoje mesmo, na aula de português, a professora Sandra pediu pra gente escrever uma redação sobre “O que é felicidade pra você?”. Eu olhei pro lado e vi a Camila sorrindo, contando pra Ana Paula sobre a viagem que ia fazer com os pais pra praia. Meu peito apertou. Felicidade? Pra mim era só um intervalo entre as brigas lá em casa.

No recreio, sentei sozinha perto da quadra. O sol batia forte e eu fingia que estava tudo bem. Mas aí o Rafael chegou, sentou do meu lado e ficou em silêncio por uns minutos. Ele sempre fazia isso — parecia que entendia quando eu não queria falar.

— Tá tudo certo aí? — ele perguntou baixinho.

— Tá — menti, olhando pro chão.

Ele não insistiu. Só ficou ali, dividindo o silêncio comigo. Às vezes penso que amizade é isso: alguém que fica do seu lado mesmo quando você não tem nada pra dizer.

Quando voltei pra casa naquele dia, encontrei minha mãe chorando baixinho na cozinha. Meu pai tinha saído pra beber com os amigos do boteco da esquina. Minha irmã mais nova, Bianca, brincava com uma boneca velha no chão da sala. Senti uma raiva tão grande dele — por nunca estar presente, por nunca perguntar como eu estava na escola, por nunca ligar se eu tinha medo à noite.

— Mãe… — comecei, mas ela enxugou as lágrimas rápido e forçou um sorriso.

— Oi, filha. Quer jantar?

Neguei com a cabeça e fui pro quarto. Peguei o celular e comecei a pesquisar: “Como mudar de família?” “Como ser adotada?” “Como fugir de casa?” As respostas eram sempre as mesmas: não era tão fácil assim.

No grupo da sala no WhatsApp, as meninas falavam sobre o presente da professora. A Camila sugeriu rosas vermelhas. O Rafael mandou um áudio dizendo que ia levar brigadeiro feito pela avó dele. Senti inveja — queria ter uma avó assim, que fizesse brigadeiro e perguntasse como foi meu dia.

Naquela noite, ouvi meus pais brigando de novo. Palavras pesadas voando pela casa como facas invisíveis: “Você não faz nada direito!”, “Só sabe reclamar!”, “Vai embora então!” Tapei os ouvidos com o travesseiro e chorei baixinho pra Bianca não ouvir.

No dia seguinte, acordei com o rosto inchado. Na escola, tentei sorrir pras amigas, mas elas perceberam que algo estava errado.

— Zuleika, você tá diferente — disse Ana Paula.

— É só sono — menti de novo.

No fim da aula, a professora Sandra me chamou:

— Zuleika, posso conversar com você um minutinho?

Meu coração disparou. Será que ela sabia? Será que alguém tinha contado?

— Eu percebi que você anda meio triste… Se quiser conversar, tô aqui, viu?

Assenti sem coragem de dizer nada. Mas aquele gesto ficou martelando na minha cabeça o dia inteiro.

Em casa, minha mãe estava mais calma. Bianca veio me mostrar um desenho: era a nossa família de mãos dadas num parque colorido. Olhei praquele papel e senti um nó na garganta.

— Por que você desenhou a gente assim? — perguntei.

— Porque eu queria que a gente fosse feliz igual no desenho — ela respondeu com a inocência de quem ainda acredita em finais felizes.

Naquela noite, tomei coragem e escrevi uma carta pra minha mãe:

“Mãe,
Eu sei que a senhora faz tudo o que pode. Mas às vezes eu queria que as coisas fossem diferentes aqui em casa. Queria que o pai ficasse mais com a gente, que a senhora sorrisse mais. Eu sinto falta disso. Me desculpa se eu sou difícil às vezes. Eu só queria ser feliz aqui também.”

Deixei a carta embaixo do travesseiro dela e fui dormir com o coração apertado.

No dia seguinte, acordei com minha mãe sentada na beira da minha cama. Ela chorava baixinho e me abraçou forte.

— Me perdoa também, filha… Às vezes eu esqueço que você também sofre com tudo isso.

Aquele abraço foi diferente de todos os outros. Pela primeira vez em muito tempo, senti que talvez ainda houvesse esperança pra gente.

Meu pai continuou ausente, mas eu e minha mãe começamos a conversar mais. Bianca continuava desenhando famílias felizes e eu comecei a acreditar que talvez um dia a gente pudesse ser uma delas.

Na escola, contei pro Rafael sobre tudo. Ele só me abraçou e disse:

— Você é forte demais pra desistir agora.

Às vezes ainda penso em fugir, em ter outra família. Mas aprendi que fugir não resolve nada — só adia a dor.

Hoje olho pra minha mãe e vejo uma mulher cansada, mas cheia de amor do jeito dela. Olho pra Bianca e vejo esperança. Olho pra mim mesma e vejo alguém tentando ser melhor todos os dias.

Será que todo mundo já quis outra família alguma vez? Ou será que aprender a amar quem está do nosso lado é o maior desafio de todos?