Esperando Zuleide: O Verão em Que Aprendi a Me Despedir
— Romeu, já sabe o que vai fazer nas férias? — A voz da Zosia cortou o silêncio da sala como uma faca afiada. Ela se sentou na beirada da mesa, cruzou as pernas e abraçou o joelho coberto pelo jeans surrado. Eu nem levantei os olhos do notebook. — Tá ouvindo o que eu tô falando?
— Uhum — murmurei, mas a verdade é que eu não ouvia nada além do zumbido do ventilador e o eco da ausência de Zuleide.
Zuleide. Era nela que eu pensava todos os dias desde o começo daquele verão sufocante em Belo Horizonte. Ela sempre chegava antes de mim na pracinha, sentava no balanço e ficava me esperando com aquele sorriso torto. Mas naquele ano, ela não apareceu nem uma vez. No começo, achei que era só atraso. Depois, comecei a inventar desculpas: talvez tivesse viajado com a mãe para Governador Valadares, ou quem sabe estava doente. Mas os dias foram passando e nada dela.
Zosia percebeu meu incômodo. — Você tá estranho, Romeu. Desde que as aulas acabaram, parece que você tá em outro planeta.
— Não é nada — menti, fechando o notebook com força demais.
Ela me olhou de lado, desconfiada. — É por causa da Zuleide, né? Ela sumiu mesmo…
A frase ficou pairando no ar, pesada como tempestade de verão. Eu queria gritar com ela, dizer pra não falar da Zuleide daquele jeito, mas só consegui engolir seco.
Minha mãe entrou na sala naquele momento, trazendo um prato de pão de queijo. — Vocês vão sair hoje ou vão ficar trancados nesse calor?
— A gente vai na praça depois — respondeu Zosia por mim. — O Romeu tá esperando alguém.
Minha mãe me lançou um olhar triste, como se soubesse exatamente quem era esse alguém.
Naquela noite, sentei na varanda com meu avô, seu Geraldo. Ele sempre dizia que a vida era feita de esperas: pelo ônibus, pelo amor, pela chuva que nunca vinha quando a gente precisava. Fiquei olhando as luzes da cidade lá embaixo e perguntei:
— Vô, por que as pessoas vão embora sem avisar?
Ele coçou a barba branca e pensou um pouco antes de responder:
— Às vezes elas não conseguem dizer adeus, Romeuzinho. E às vezes a gente é que não quer enxergar que já foi.
No dia seguinte, fui sozinho à pracinha. Sentei no balanço onde Zuleide costumava ficar e fiquei olhando as crianças brincando. Uma senhora passou vendendo picolé e me ofereceu um de limão. Recusei com um aceno de cabeça. O sol queimava minha pele e eu sentia um vazio no peito.
Foi quando vi Dona Cida, mãe da Zuleide, atravessando a rua com uma sacola de supermercado. Corri até ela:
— Dona Cida! A Zuleide tá bem? Ela vai voltar?
Ela parou, surpresa com minha abordagem. Os olhos dela estavam vermelhos, como se tivesse chorado muito.
— Romeu… Meu filho… — Ela hesitou, respirou fundo. — A Zuleide foi morar com o pai dela em São Paulo. Foi tudo muito rápido… Eu devia ter avisado vocês…
Senti o chão sumir sob meus pés. — Mas… ela não vai voltar?
Dona Cida balançou a cabeça devagar. — Não sei, Romeu. Às vezes a vida separa a gente das pessoas que a gente mais gosta.
Voltei pra casa arrastando os chinelos pela calçada quente. Zosia me esperava sentada no portão.
— E aí? Descobriu alguma coisa?
Sentei ao lado dela e contei tudo. Pela primeira vez naquele verão, chorei sem vergonha nenhuma.
— Eu devia ter percebido antes — falei entre soluços. — Fiquei esperando por ela todos os dias…
Zosia colocou a mão no meu ombro. — Você não tem culpa de nada, Romeu.
Mas eu sentia como se tivesse. Como se minha espera tivesse sido inútil, como se eu tivesse desperdiçado o verão inteiro preso numa ilusão.
Os dias seguintes foram estranhos. Tentei ocupar minha cabeça: ajudei minha mãe na feira, joguei futebol com meu primo Lucas, até tentei aprender violão com o tio Beto. Mas tudo parecia sem graça sem a Zuleide pra rir das minhas piadas ruins ou dividir um pastel de queijo na praça.
Uma tarde, encontrei uma carta dela no fundo da minha mochila escolar. Era curta:
“Romeu,
Se eu sumir de repente, não fica bravo comigo. Às vezes a vida muda tudo sem avisar. Mas eu nunca vou esquecer das nossas tardes juntos.
Beijo,
Zuleide”
Li aquela carta umas dez vezes seguidas até as letras ficarem borradas pelas minhas lágrimas.
No último domingo antes das aulas voltarem, sentei na varanda com meu avô de novo.
— Sabe o que eu aprendi esse verão, vô? Que esperar dói mais do que perder.
Ele sorriu triste e me abraçou forte.
Hoje já faz meses desde que Zuleide foi embora. Ainda passo pela pracinha de vez em quando e olho pro balanço vazio. Às vezes penso em mandar mensagem pra ela, mas nunca tenho coragem.
A vida seguiu: Zosia virou minha melhor amiga e até começamos a namorar depois de um tempo. Mas sempre que sinto aquele aperto no peito, lembro do verão em que precisei aprender a me despedir.
Será que algum dia a gente realmente aprende a deixar alguém ir? Ou será que sempre fica um pedaço da gente esperando no mesmo lugar?