Só Ele Me Entende: Entre Cães, Silêncios e Famílias Quebradas
— O que tem pra janta? — perguntou Marcos, já entrando na cozinha com aquele jeito apressado de quem só quer respostas rápidas. Ele nem olhou pra mim. Só puxou o ar pelo nariz, tentando adivinhar o cheiro que saía do forno.
— Tô fazendo biscoitos pro Lorde — respondi, tentando esconder o orgulho na voz enquanto tirava a assadeira quente. — Com peito de frango e aveia. Ele tá numa fase difícil, sabe? Troca de pelo, anda meio irritado… Resolvi mimar um pouco.
Marcos bufou. — Pra cachorro? Você tá brincando, né, Kinga? Eu chego do trabalho morto de fome e você faz comida pro cachorro?
A vergonha queimou meu rosto. Olhei pro chão, sentindo aquela velha sensação de ser invisível dentro da própria casa. Lorde, meu vira-lata preto e branco, abanou o rabo e encostou o focinho na minha perna. Só ele parecia perceber quando eu estava prestes a desabar.
— Eu faço um arroz rapidinho pra você — tentei apaziguar, mas Marcos já tinha ido embora, resmungando alguma coisa sobre prioridades.
Fiquei ali parada, ouvindo o silêncio pesado da casa. O cheiro dos biscoitos se misturava ao cheiro do desânimo. Lorde me olhava com aqueles olhos castanhos tão compreensivos que parecia até gente.
Desde que perdi minha mãe no ano passado, tudo ficou mais difícil. Meu pai se fechou num mundo só dele lá em Contagem, minha irmã sumiu nos próprios problemas e eu fiquei aqui, tentando manter uma família que só existe no papel. Marcos trabalha demais, chega tarde e mal fala comigo. Nosso filho, Lucas, tem 12 anos e vive trancado no quarto jogando Free Fire no celular. Às vezes penso que só Lorde me escuta de verdade.
Naquela noite, sentei no chão da cozinha com Lorde ao meu lado. Ele lambeu minha mão devagar enquanto eu chorava baixinho pra ninguém ouvir. — Você é o único que me entende, né? — sussurrei. Ele respondeu com um olhar doce e um suspiro pesado.
No dia seguinte, tentei conversar com Marcos antes dele sair pro trabalho.
— A gente precisa conversar — falei, trêmula.
Ele nem tirou os olhos do celular. — Agora não dá, Kinga. Tô atrasado.
— Mas é importante… — insisti.
Ele levantou a mão como quem pede silêncio. — Depois a gente fala disso.
Fiquei ali parada vendo ele sair sem nem olhar pra trás. Senti uma raiva misturada com tristeza. Peguei a coleira do Lorde e saí pra caminhar pelo bairro. O céu estava nublado e o ar cheirava a chuva.
No caminho encontrei Dona Cida, vizinha antiga.
— Ô Kinga, você tá tão abatida… Tá tudo bem em casa?
Quase desabei ali mesmo. Mas sorri amarelo. — É só cansaço mesmo, Dona Cida.
Ela olhou pra mim com aquele olhar de quem sabe das coisas. — Se cuida, viu? Às vezes a gente precisa falar o que sente. Nem que seja pro cachorro.
Sorri de verdade dessa vez. Lorde puxou a guia querendo correr atrás de um passarinho e eu deixei. Pelo menos ele ainda tinha energia pra sonhar.
Quando voltei pra casa, Lucas estava na sala jogando videogame.
— Filho, vamos almoçar juntos hoje?
Ele nem tirou os olhos da tela. — Depois, mãe. Tô quase passando de fase.
Sentei no sofá ao lado dele. — Sabe… quando eu era pequena, minha mãe sempre fazia almoço especial nos domingos. A gente sentava junto e conversava sobre tudo.
Lucas deu de ombros. — Mas hoje é terça-feira…
Suspirei fundo. — Eu só queria passar um tempo com você.
Ele pausou o jogo por um segundo e me olhou como se estivesse vendo uma estranha. — Tá tudo bem com você?
Quase respondi que não estava nada bem. Que me sentia sozinha mesmo rodeada de gente. Mas só sorri e disse:
— Tô sim, filho.
Naquela noite, depois que todos dormiram, sentei na varanda com Lorde no colo. Olhei pro céu escuro e pensei em tudo que perdi: minha mãe, minha alegria, meu casamento que parecia desmoronar aos poucos.
No fim de semana seguinte, tentei mais uma vez reunir a família pra um almoço. Fiz feijão tropeiro igual minha mãe fazia e chamei todo mundo pra mesa.
— Vem comer, Lucas! Chama seu pai também!
Marcos apareceu na porta da cozinha com cara fechada.
— Não posso demorar muito não, tenho reunião online daqui a pouco.
Lucas sentou à mesa sem largar o celular.
Tentei puxar assunto:
— Lembram daquela viagem pra Ouro Preto? Quando o Lucas caiu na lama e ficou todo sujo?
Ninguém respondeu. O silêncio era tão alto que doía nos ouvidos.
Lorde deitou aos meus pés e soltou um gemido baixinho, como se sentisse minha dor.
Depois do almoço fracassado, fui lavar a louça chorando baixinho. Senti uma raiva imensa de tudo: da indiferença do Marcos, do distanciamento do Lucas, da ausência da minha mãe… Até pensei em ir embora dali com Lorde só pra ver se alguém sentiria falta.
Na segunda-feira seguinte acordei decidida a mudar alguma coisa. Liguei pro trabalho e pedi folga. Levei Lorde ao parque municipal e sentei num banco olhando as crianças brincarem com seus pais.
Uma senhora sentou ao meu lado com um poodle no colo.
— Seu cachorro é lindo! Como chama?
— Lorde — respondi sorrindo pela primeira vez em dias.
Ela sorriu de volta. — Eles são nossos melhores amigos mesmo… Quando perdi meu marido foi esse aqui que me salvou da tristeza.
Contei pra ela um pouco da minha história e percebi que não era a única perdida no mundo dos adultos cansados e solitários.
Voltei pra casa mais leve e decidi tentar conversar com Marcos mais uma vez.
— Eu preciso falar sério com você — disse assim que ele chegou do trabalho.
Dessa vez ele me olhou nos olhos pela primeira vez em meses.
— O que foi?
Respirei fundo:
— Eu tô infeliz, Marcos. Me sinto sozinha nessa casa mesmo com vocês aqui. Sinto falta de carinho, de conversa… Parece que só o Lorde me entende ultimamente.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos longos demais.
— Eu também tô cansado, Kinga… Trabalho demais, pressão demais… Às vezes acho que ninguém me entende também.
Sentei ao lado dele no sofá e começamos a conversar como não fazíamos há anos. Falamos sobre saudade da minha mãe, sobre as dificuldades do Lucas na escola, sobre nossos medos e sonhos esquecidos.
Naquela noite dormi abraçada ao Marcos pela primeira vez desde o enterro da minha mãe. Lorde subiu na cama e se enroscou nos nossos pés como se dissesse: “Finalmente vocês se ouviram”.
No dia seguinte preparei biscoitos para Lorde e arroz para Marcos sem culpa ou vergonha. Sentei à mesa com Lucas e pedi pra ele me ensinar a jogar Free Fire. Rimos juntos pela primeira vez em muito tempo.
A vida não ficou perfeita de repente. Ainda sinto saudade da minha mãe todos os dias e ainda tem silêncios difíceis aqui em casa. Mas agora sei que posso falar sobre isso sem medo de não ser ouvida.
Às vezes penso: será que todo mundo tem um Lorde na vida? Alguém ou algo que entende nossos silêncios quando ninguém mais escuta? E você aí… quem te entende quando ninguém mais parece se importar?