O Último Andar: Entre o Teto e o Coração
— Tomás, se esse seu cachorro fizer mais barulho, eu juro que vou chamar a síndica! — gritou seu Osvaldo do andar de baixo, batendo o cabo da vassoura no teto pela terceira vez naquela noite.
Eu estava ajoelhado no chão do pequeno apartamento em Osasco, esfregando com força as marcas de lama que o Biscoito, meu vira-lata caramelo, tinha deixado no linóleo. O suor escorria pelo meu rosto, mesmo com a brisa fria que entrava pela janela. Biscoito me olhava com aqueles olhos pidões, mastigando sua velha galinha de borracha, como se dissesse: “Desculpa aí, chefe”.
— Mãe, por favor, segura o Biscoito! — pedi, quase implorando.
Minha mãe, Dona Lúcia, estava sentada no sofá, com a TV ligada no volume máximo para abafar os gritos do vizinho. Ela nem se mexeu.
— Deixa o cachorro em paz, Tomás. Ele só tá sendo cachorro. O problema é esse velho ranzinza aí embaixo! — respondeu ela, sem tirar os olhos da novela.
Eu respirei fundo. O cheiro de desinfetante misturado com o suor e a ansiedade me embrulhava o estômago. Desde que meu pai morreu, há dois anos, tudo parecia mais difícil. O apartamento ficou pequeno demais para tanta mágoa e silêncio. Minha mãe se fechou no mundo dela, e eu virei o responsável por tudo: contas, comida, até as brigas com os vizinhos.
Naquela noite, depois de limpar o chão e dar comida ao Biscoito, sentei na varanda minúscula para fumar um cigarro escondido. Olhei para as luzes dos prédios ao redor e pensei em como a vida tinha mudado. Antes, eu sonhava em ser músico. Agora, mal conseguia dormir direito.
O celular vibrou. Era uma mensagem da minha irmã mais nova, Camila:
“Tomás, preciso falar com você. É urgente.”
Meu coração disparou. Camila morava em Campinas desde que casou com aquele advogado metido a besta, o Rafael. Ela quase nunca ligava.
Liguei de volta na hora.
— Camila? O que aconteceu?
Do outro lado da linha, ouvi um soluço abafado.
— Tomás… eu… eu não aguento mais. O Rafael me traiu. Eu tô voltando pra casa amanhã.
Fiquei mudo por alguns segundos. Minha cabeça girava.
— Mas… mãe sabe?
— Não. E por favor, não conta pra ela ainda. Eu só preciso de um tempo. Posso ficar aí uns dias?
Olhei para dentro do apartamento apertado e imaginei minha mãe, eu, Camila e Biscoito dividindo aquele espaço minúsculo. Mas não hesitei:
— Claro que pode. Vem sim.
Desliguei o telefone e fiquei olhando para o céu escuro. Senti uma mistura de raiva e tristeza. Por que tudo tinha que ser tão difícil?
No dia seguinte, acordei cedo para arrumar o quarto de Camila. Troquei os lençóis velhos e tirei as caixas de papelão que estavam empilhadas desde a última mudança. Minha mãe percebeu a movimentação.
— Que bagunça é essa logo cedo?
— A Camila vai vir passar uns dias aqui — respondi sem olhar pra ela.
Dona Lúcia ficou em silêncio por um tempo.
— Ela brigou com o marido?
Assenti com a cabeça.
Ela suspirou fundo e voltou pra cozinha. Era sempre assim: tudo era guardado em silêncio naquela casa.
Quando Camila chegou à noite, estava irreconhecível: olheiras fundas, cabelo preso de qualquer jeito e uma mala pequena na mão.
Biscoito foi o primeiro a recebê-la, pulando nela e lambendo seu rosto até ela rir pela primeira vez em meses.
Sentamos todos na sala apertada. O clima era tenso. Minha mãe tentava fingir normalidade, mas seus olhos estavam vermelhos.
— Fica tranquila, filha. Aqui é sua casa — disse ela finalmente, abraçando Camila com força.
Nos dias seguintes, a rotina ficou ainda mais pesada. Camila chorava à noite no quarto; minha mãe fingia não ouvir; eu tentava manter tudo funcionando: trabalho remoto durante o dia, supermercado à noite, brigas com seu Osvaldo quase toda semana por causa do cachorro.
Uma noite dessas, depois de mais uma discussão com o vizinho — dessa vez ele ameaçou chamar a polícia por causa do latido do Biscoito — explodi na frente da minha mãe e da Camila:
— Eu não aguento mais! Todo mundo joga tudo nas minhas costas! Eu sou só um!
Minha mãe ficou em silêncio por um instante e depois começou a chorar baixinho. Camila veio até mim e segurou minha mão:
— Desculpa, Tomás… Eu sei que você tá sobrecarregado. Mas eu não tinha pra onde ir…
Senti uma culpa enorme me invadir. Abracei minha irmã forte.
Naquela noite, sentei na varanda com minha mãe. Ela olhou pra mim com olhos cansados:
— Eu sei que você carrega muita coisa sozinho desde que seu pai se foi… Mas você não precisa ser forte o tempo todo.
Ficamos ali em silêncio por um tempo. Pela primeira vez em anos senti que podia respirar sem peso no peito.
No fim de semana seguinte, decidi fazer um bolo de cenoura — receita do meu pai — pra tentar animar a casa. Enquanto mexia a massa na cozinha apertada, Camila apareceu sorrindo tímido:
— Lembra quando a gente brigava pra raspar a tigela?
Rimos juntos pela primeira vez em muito tempo.
Quando o bolo ficou pronto, chamei minha mãe e Camila pra mesa. Biscoito sentou ao lado esperando um pedaço cair no chão.
Comemos juntos em silêncio confortável. Pela janela aberta dava pra ouvir as vozes dos vizinhos e até mesmo o som do rádio do seu Osvaldo lá embaixo — dessa vez sem batidas no teto.
Naquele momento percebi: apesar das rachaduras nas paredes e nos nossos corações, ainda éramos uma família tentando se reconstruir.
Olhei para minha mãe e minha irmã e perguntei:
— Será que algum dia a gente vai conseguir ser feliz de novo? Ou será que felicidade é só isso aqui: pequenos pedaços de paz entre uma tempestade e outra?