O Último Suspiro de Ontem
— Você não entende, mãe! — gritei, com a voz embargada, enquanto segurava o telefone com tanta força que meus dedos doíam. — Eu só queria te mostrar o vestido azul que comprei pro meu aniversário.
Do outro lado da linha, minha mãe, Dona Lourdes, suspirou fundo, aquele suspiro carregado de julgamento que só ela sabia dar.
— Catarina, você sabe que azul não combina com você. Por que não escolheu um vestido mais discreto? — Ela nunca perdia a chance de me lembrar que, pra ela, eu sempre fazia tudo errado.
Fechei os olhos e tentei conter as lágrimas. Dois anos atrás, eu teria rido desse comentário. Dois anos atrás, antes de tudo desmoronar.
Naquele tempo, eu ainda tinha uma família. Meu marido, Paulo, ainda dormia ao meu lado sem virar o rosto. Minha filha, Amanda, ainda me abraçava sem pressa. Mas tudo mudou numa noite abafada de março, quando Paulo chegou em casa com o cheiro de perfume barato e um olhar que eu não reconhecia.
— Catarina, precisamos conversar — ele disse, sem nem tirar os sapatos.
Eu sabia. No fundo, sempre soube. Mas ouvir da boca dele foi como levar um soco no estômago.
— Me apaixonei por outra pessoa. Não posso mais viver essa mentira.
O chão sumiu sob meus pés. Amanda ouviu a discussão e desceu as escadas correndo, olhos arregalados.
— Pai? Mãe? O que tá acontecendo?
Paulo não olhou pra ela. Só pegou as chaves e saiu. O silêncio que ficou foi ensurdecedor.
Desde então, minha vida virou um mosaico de cacos. Dona Lourdes vinha quase todo dia “ajudar”, mas cada visita era uma tortura.
— Você devia ter percebido antes. Homem não trai do nada — ela dizia, enquanto passava pano na pia como se limpasse meus pecados.
Amanda se fechou num mundo próprio. Passava horas no quarto, fones no ouvido, ignorando minhas tentativas de conversa. Eu tentava cozinhar suas comidas favoritas — arroz doce, bolo de cenoura — mas ela só empurrava o prato e dizia:
— Não tô com fome.
No trabalho, virei sombra. Meus colegas cochichavam quando eu passava. A chefe me chamou na sala dela:
— Catarina, você precisa se recompor. Não pode trazer seus problemas pessoais pra cá.
Como se fosse fácil separar as dores. Como se eu pudesse pendurar meu coração na porta do escritório e fingir que nada aconteceu.
Ontem, ao encontrar aquele vestido azul na vitrine da loja do centro, senti algo diferente. Uma vontade de me ver bonita de novo, de celebrar meu aniversário apesar de tudo. Liguei pra minha mãe querendo compartilhar esse pequeno raio de esperança.
Mas ela só soube criticar.
— Você devia pensar mais na Amanda do que em comprar roupa nova — ela disse.
Senti raiva. Muita raiva. Por que tudo que faço é errado? Por que nunca posso ser suficiente?
À noite, coloquei o vestido mesmo assim. Me olhei no espelho: cabelos grisalhos começando a aparecer, olheiras profundas, mas havia algo ali — talvez uma faísca do que fui um dia.
Amanda apareceu na porta do quarto.
— Vai sair?
— Não… Só queria me sentir bonita hoje.
Ela ficou me olhando por alguns segundos. Achei que fosse rir ou virar os olhos como sempre fazia ultimamente. Mas ela entrou no quarto e sentou na cama.
— Mãe… Eu sinto falta do pai também. Mas não sei como falar sobre isso com você.
Meu coração apertou. Sentei ao lado dela e segurei sua mão.
— Eu também sinto falta dele, filha. Mas a gente ainda tem uma à outra.
Ela encostou a cabeça no meu ombro e chorou baixinho. Pela primeira vez em dois anos, chorei junto sem vergonha.
No meio da madrugada, ouvi meu celular vibrar: mensagem da minha mãe.
“Desculpa pelo jeito duro hoje. Só quero te proteger.”
Respondi apenas: “Eu sei.”
Hoje acordei com o rosto inchado de tanto chorar, mas com o peito um pouco mais leve. Fui até a cozinha preparar café e Amanda apareceu com um sorriso tímido.
— Feliz aniversário atrasado, mãe — disse ela, me entregando um bilhete desenhado à mão: um coração azul.
Olhei para aquele desenho e pensei em tudo que perdi… e no pouco que ainda tenho. Será que algum dia vou me sentir inteira de novo? Será que existe perdão para quem se sente culpada até pelo próprio sofrimento?
E você? Já sentiu como se tudo tivesse desmoronado e mesmo assim precisasse seguir em frente?