Corações Partidos e Segredos Escondidos: O Feitiço de Amor de Verônica
— Lucas, você vai me ouvir sim! — gritei, batendo a porta do quarto dele com força. O barulho ecoou pela casa pequena, abafando até o som da novela que minha mãe assistia na sala. Ele me olhou com aquele olhar de adolescente cansado, os fones pendurados no pescoço, e eu senti uma mistura de raiva e tristeza. — Mãe, já chega. Todo dia é a mesma coisa! — ele rebateu, a voz embargada de quem queria chorar, mas não podia se permitir.
Eu respirei fundo, tentando não desabar ali mesmo. A reunião na escola tinha sido um desastre. Dona Sônia, a coordenadora, me olhou com pena quando falou das notas baixas do Lucas e dos bilhetes que ele passava para a menina nova da sala. “Ele está distraído, Verônica. Parece que tem outra coisa ocupando a cabeça dele”, ela disse. E eu sabia exatamente o que era: o vazio que ficou depois que o pai dele foi embora.
Minha mãe apareceu na porta, enxugando as mãos no avental. — Deixa o menino respirar, Verônica. Você também era assim na idade dele.
— Não era não, mãe! Eu nunca dei trabalho desse jeito! — rebati, mas sabia que era mentira. Eu também tinha meus segredos, meus amores proibidos e minhas noites chorando no travesseiro.
Lucas se jogou na cama e virou o rosto para a parede. — Você não entende nada, mãe. Ninguém entende.
Fiquei parada ali, sentindo o peso de tudo o que eu queria dizer e não conseguia. Naquela noite, depois que todos dormiram, sentei na varanda com uma xícara de café frio e deixei as lembranças me invadirem. Lembrei do dia em que conheci o pai do Lucas, Rafael, na quermesse da igreja. Ele era bonito demais pra mim, eu pensava. Mas ele me escolheu. Ou pelo menos foi o que eu achei.
O que ninguém sabia — nem minha mãe, nem Lucas — era que naquela época eu tinha feito uma simpatia pra conquistar o Rafael. Fui até a Dona Zefa, rezadeira da vila, e pedi ajuda. Ela me deu um fio vermelho e mandou amarrar no tornozelo enquanto fazia uma oração. “O amor vai vir forte, mas cuidado: tudo que é forçado pode quebrar”, ela avisou.
E quebrou mesmo. Rafael ficou comigo por três anos, mas nunca me amou de verdade. Um dia fez as malas e sumiu sem olhar pra trás. Desde então, carrego essa culpa como um segredo sujo.
Na manhã seguinte, Lucas saiu cedo sem tomar café. Minha mãe me olhou com reprovação. — Você precisa conversar com ele de verdade, não só brigar.
— E se eu não souber como? — perguntei baixinho.
Ela suspirou. — O amor não se força, filha. Nem entre homem e mulher, nem entre mãe e filho.
Essas palavras ficaram martelando na minha cabeça o dia inteiro. No trabalho, mal consegui atender os clientes na padaria direito. Dona Cida percebeu meu desânimo e puxou assunto:
— Tá com cara de quem brigou em casa…
— É o Lucas… Não sei mais o que fazer.
Ela sorriu triste. — Adolescente é assim mesmo. Mas olha… você já pensou se não tá tentando controlar demais? Às vezes a gente tem que soltar um pouco.
Voltei pra casa decidida a tentar diferente. Esperei Lucas chegar da escola e chamei ele pra conversar na cozinha.
— Filho… Eu sei que tenho pegado pesado com você. É que eu tenho medo de te perder também.
Ele ficou em silêncio por um tempo, mexendo no celular.
— Mãe… Eu só queria que você confiasse em mim. Eu tô tentando achar meu caminho.
Senti as lágrimas escorrendo sem controle. — Eu confio, filho. Só tenho medo de errar como errei com seu pai.
Ele me olhou surpreso. — Você não errou sozinha.
Naquela noite contei pra ele sobre a simpatia, sobre como tentei forçar um amor que não era pra ser. Ele ficou quieto por um tempo e depois disse:
— Mãe… Eu gosto da Júlia da minha sala. Mas ela nem olha pra mim. Eu pensei em fazer uma simpatia também… Vi na internet…
Meu coração gelou. — Não faz isso, filho. Não vale a pena.
Ele sorriu triste. — Acho que agora eu entendo.
Os dias passaram devagar depois disso. Eu e Lucas começamos a conversar mais, sem gritos nem acusações. Minha mãe parecia aliviada por ver a paz voltando à casa.
Mas nem tudo se resolveu fácil assim. Uma tarde, encontrei Dona Zefa na feira e contei pra ela do meu arrependimento.
— Filha… O feitiço só pega em quem acredita demais no impossível. O resto é vida seguindo seu rumo.
Voltei pra casa pensando nisso tudo. Será que algum dia vou conseguir perdoar meus próprios erros? Será que Lucas vai aprender com os dele sem precisar se machucar tanto?
Às vezes penso: quantas mães por aí tentam segurar os filhos à força? Quantas mulheres ainda acreditam em simpatias pra prender quem devia ser livre?
No fim das contas, só queria saber: será que o amor verdadeiro precisa mesmo de magia? Ou será que a maior magia é deixar ir?