O Primeiro Dia de Inverno de Mariana
— Mariana, você vai mesmo sair nesse tempo? — perguntou minha mãe, encostada no batente da porta, com aquele olhar que mistura preocupação e julgamento. O relógio marcava 6h10 da manhã, e a chuva fina misturada com vento gelado batia forte na janela do nosso pequeno apartamento na Zona Leste de São Paulo. Eu já estava de pé, vestindo minha velha jaqueta acolchoada e tentando calçar as botas que herdei da minha irmã mais velha.
— Não tenho escolha, mãe. É meu primeiro dia depois da licença — respondi, tentando esconder o tremor na voz. O cheiro de café recém-passado se misturava ao cheiro de mofo do corredor. Meu filho, Lucas, ainda dormia no quarto ao lado, enrolado no cobertor do Corinthians que o pai dele deixou antes de ir embora.
A verdade é que eu não dormi nada naquela noite. Fiquei pensando em como seria voltar para o escritório depois de quase seis meses afastada. No verão, eu estava tão apaixonada pelo André que achei que nada mais importava. Mas ele foi embora, dizendo que precisava “de um tempo pra pensar”. E eu fiquei com as contas, o filho e a saudade.
Desci as escadas do prédio com pressa, sentindo o vento gelado cortar meu rosto. O ônibus demorou quase quarenta minutos para passar, e quando finalmente consegui entrar, já estava lotado. Uma senhora me empurrou para conseguir segurar no ferro. Eu só pensava em como tudo parecia mais difícil naquele dia.
No trabalho, a recepção foi morna. Dona Sônia, minha chefe, me olhou por cima dos óculos e disse:
— Espero que esteja pronta pra correr atrás do prejuízo, Mariana. Muita coisa mudou por aqui.
Senti o peso das palavras dela como um soco no estômago. Sentei na minha mesa e tentei me concentrar nos relatórios acumulados. Mas minha cabeça estava longe dali: pensava em Lucas, na escola nova que ele começou há duas semanas; pensava na minha mãe, cansada de tanto trabalhar como diarista; pensava em mim mesma, perdida entre sonhos interrompidos e boletos vencidos.
No almoço, sentei sozinha no refeitório. As colegas cochichavam sobre mim:
— Dizem que ela voltou porque o marido largou dela — ouvi uma voz sussurrar.
Fingi não ouvir, mas aquilo doeu mais do que eu gostaria de admitir. Peguei meu celular e vi uma mensagem do André: “Espero que esteja bem”. Só isso. Nenhuma pergunta sobre o Lucas, nenhuma oferta de ajuda.
Quando voltei pra casa à noite, encontrei minha mãe sentada à mesa com Lucas no colo.
— Ele chorou o dia todo — ela disse, cansada. — Sente sua falta.
Sentei ao lado deles e abracei meu filho forte. Ele me olhou com aqueles olhos grandes e perguntou:
— Mamãe, por que o papai não mora mais aqui?
Engoli seco. Não sabia como explicar para uma criança de cinco anos que às vezes as pessoas vão embora sem motivo aparente.
— O papai precisou viajar, meu amor. Mas a mamãe tá aqui com você — respondi, tentando sorrir.
Naquela noite, depois que Lucas dormiu, sentei na varanda com minha mãe. Ela acendeu um cigarro e ficou olhando para o céu escuro.
— Você precisa ser forte por ele — disse ela, sem me olhar nos olhos.
— Eu sei, mãe. Mas às vezes parece impossível — confessei.
Ela deu uma tragada longa e soltou a fumaça devagar.
— Quando seu pai foi embora, eu também achei que não ia dar conta. Mas a gente sempre dá um jeito. Mulher é bicho forte.
Fiquei pensando nisso enquanto olhava as luzes dos prédios ao longe. Lembrei dos sonhos que tive quando era adolescente: queria ser professora, viajar pelo Brasil, dar uma vida melhor para minha família. Agora tudo parecia tão distante.
No dia seguinte, acordei antes do despertador tocar. Preparei o café da manhã para Lucas e deixei um bilhete carinhoso para minha mãe. No caminho para o trabalho, vi uma senhora vendendo flores na esquina da avenida Sapopemba. Ela sorria para cada cliente mesmo com o frio cortante.
Parei por um instante e comprei uma rosa amarela.
— Pra quem é? — perguntou a senhora.
— Pra mim mesma — respondi.
Ela sorriu e disse:
— Isso aí, moça. A gente tem que se dar flores de vez em quando.
Cheguei no trabalho com a rosa na mão e coloquei na minha mesa. Dona Sônia passou por mim e olhou surpresa.
— Ganhou flor de quem?
— De mim mesma — respondi firme.
Ela sorriu de canto e seguiu seu caminho. Pela primeira vez em meses senti um pequeno orgulho de mim mesma.
Ao longo das semanas seguintes, as coisas não ficaram mais fáceis. Lucas continuava sentindo falta do pai; minha mãe reclamava do cansaço; no trabalho, a pressão só aumentava. Mas comecei a perceber pequenas vitórias: consegui pagar duas contas atrasadas; Lucas fez um novo amigo na escola; minha mãe sorriu ao ver uma novela antiga na TV.
Numa sexta-feira à noite, sentei com Lucas na cama e contei uma história inventada sobre uma princesa guerreira chamada Mariana que enfrentava dragões todos os dias para proteger seu castelo.
— Igual você faz comigo? — ele perguntou.
Sorri emocionada e beijei sua testa.
No fundo, percebi que todos nós temos nossos invernos: dias frios em que parece impossível sair da cama; momentos em que tudo desaba ao nosso redor; pessoas que vão embora sem explicação. Mas também temos nossos verões: pequenos gestos de carinho, flores compradas para si mesma, histórias contadas antes de dormir.
Hoje entendo que recomeçar dói, mas também ensina. E talvez seja isso que nos faz seguir em frente: a esperança de que depois do inverno sempre vem um novo verão.
Será que todo mundo sente esse medo de recomeçar? Ou sou só eu tentando ser forte quando tudo parece desabar?