Nunca fomos ao cinema juntos, não é?

— Sabe, nunca fomos juntos ao cinema — soltei, sem pensar, enquanto olhava para o reflexo das luzes da cidade no rio Tietê. Camila riu, aquele riso meio triste, meio esperançoso, que só ela sabia dar.

— E você sempre fala disso quando não sabe o que dizer, Lucas — ela respondeu, apertando minha mão gelada. O vento da noite cortava a pele, mas ali, sentados na mureta da marginal, parecia que o tempo parava só pra gente.

A gente sonhava alto. Eu queria passar em Engenharia na USP. Ela queria ser psicóloga. Falávamos de sair da periferia, de comprar um apartamento na Vila Mariana, de ter um carro importado — um Gol rebaixado já seria luxo pra mim, mas ela sonhava com um Honda Civic preto. Tudo parecia possível naquela noite.

— Você acha mesmo que a gente vai conseguir? — ela perguntou, olhando pro céu poluído, onde quase não dava pra ver estrela nenhuma.

— A gente tem que conseguir. Não quero passar a vida vendo minha mãe se matando de trabalhar na faxina pra patroa dela — respondi, sentindo um nó na garganta. Meu pai tinha sumido quando eu era pequeno. Só restava eu e minha mãe, e agora Camila.

Ela encostou a cabeça no meu ombro. — Minha mãe acha que eu devia arrumar um emprego logo. Diz que faculdade é coisa de rico.

— E você acredita nisso?

Ela ficou em silêncio. O barulho dos carros na marginal parecia aumentar. Eu sabia que ela estava pensando no irmão mais velho, o Rafael, que tinha largado a escola pra trabalhar no mercadinho do bairro. Ele vivia dizendo que estudar era perda de tempo.

— Não sei — ela disse baixinho. — Às vezes acho que não vou conseguir sair daqui nunca.

Peguei o rosto dela entre as mãos. — Olha pra mim. A gente vai sair sim. Nem que seja só pra ir ao cinema juntos.

Ela sorriu de novo, mas os olhos estavam marejados.

No dia seguinte, acordei cedo pra estudar antes do trabalho no depósito. Minha mãe já estava de saída.

— Lucas, vê se não chega tarde hoje. Tem reunião na escola da sua irmã — ela avisou.

— Pode deixar, mãe.

No caminho pro trabalho, encontrei o Rafael encostado no muro da padaria.

— E aí, gênio — ele debochou. — Vai salvar o mundo hoje?

— Só tentando sobreviver mesmo.

Ele riu e acendeu um cigarro. — Você devia parar com essa história de faculdade. Isso aí não dá futuro pra ninguém daqui.

Ignorei e segui meu caminho. No depósito, o chefe me deu bronca porque cheguei dois minutos atrasado. Passei o dia carregando caixas e pensando em Camila, nos nossos sonhos e nos medos dela.

À noite, fui até a casa dela. Dona Sônia abriu a porta com cara fechada.

— Camila tá estudando. Não vai sair hoje.

— Só queria falar com ela rapidinho…

Ela suspirou e me deixou entrar. Camila estava sentada na mesa da cozinha, cercada de livros e cadernos rabiscados.

— Oi — ela disse, sem levantar os olhos.

— Tá tudo bem?

Ela balançou a cabeça negativamente. — Minha mãe quer que eu largue o cursinho e comece a trabalhar com ela na limpeza.

Senti uma raiva crescer dentro de mim. — Você não pode desistir agora! Falta pouco pro vestibular…

Dona Sônia apareceu na porta da cozinha. — Vocês acham que dinheiro nasce em árvore? Quem vai pagar as contas aqui? Sonhar é bonito, mas não enche barriga!

Camila começou a chorar baixinho. Fiquei ali parado, sem saber o que dizer ou fazer.

Naquela noite, mandei uma mensagem pra ela: “Não desiste dos nossos sonhos. Por favor.” Ela só respondeu horas depois: “Tô tentando.” Dormi mal, pensando em tudo que podia dar errado.

Os dias foram passando e Camila foi se afastando. Parou de responder minhas mensagens, faltou ao nosso ponto de encontro no rio Tietê. Fiquei sabendo pelo Rafael que ela tinha começado a trabalhar com a mãe.

Fui atrás dela no prédio onde limpava apartamentos de luxo nos Jardins. Esperei do lado de fora até vê-la saindo com uniforme azul e luvas nas mãos.

— Camila! — gritei.

Ela olhou surpresa, mas não sorriu.

— O que você tá fazendo aqui?

— Vim te buscar pra gente estudar juntos…

Ela balançou a cabeça. — Não dá mais, Lucas. Eu preciso ajudar minha mãe. Não posso ficar sonhando enquanto ela se mata sozinha.

— E nossos planos? O cinema? A faculdade?

Ela desviou o olhar. — Talvez isso não seja pra gente…

Senti uma dor tão forte no peito que quase não consegui respirar. Fiquei ali parado enquanto ela entrava no ônibus lotado e sumia entre os rostos cansados da cidade.

Passei semanas tentando falar com ela, mas ela me evitava. Me joguei nos estudos como nunca antes, como se pudesse compensar a ausência dela com cada página lida, cada exercício resolvido.

O dia do vestibular chegou e fui sozinho. Sentei na carteira fria da escola pública do centro e pensei nela o tempo todo. Será que ela ainda pensava em mim? Será que algum dia conseguiríamos sair dali?

Meses depois saiu o resultado: passei em Engenharia na USP. Minha mãe chorou de orgulho, mas eu só pensava em Camila.

Fui até a casa dela contar a novidade. Dona Sônia abriu a porta com cara cansada.

— Camila não tá mais aqui, Lucas. Arrumou um emprego fixo num escritório no centro e foi morar com uma amiga perto do trabalho.

Fiquei parado na calçada por um tempo que pareceu uma eternidade. Peguei o celular e escrevi uma mensagem: “Consegui passar na USP. Queria dividir isso com você.” Ela visualizou, mas não respondeu.

Os anos passaram rápido depois disso. Consegui uma bolsa pra morar perto da faculdade, terminei o curso com dificuldade, trabalhando à noite como entregador pra pagar as contas. Minha mãe ficou doente e precisei voltar várias vezes pra cuidar dela e da minha irmã mais nova.

Nunca esqueci Camila. Às vezes via fotos dela nas redes sociais: sorrindo num churrasco com colegas do trabalho, viajando pra praia com amigas… Mas nunca mais nos falamos direito.

Hoje trabalho numa empresa grande na Avenida Paulista. Tenho meu próprio apartamento pequeno na Vila Mariana e até comprei um carro usado — não é importado nem rebaixado, mas me leva onde preciso ir.

Às vezes passo pelo cinema perto de casa e lembro daquela noite à beira do Tietê, dos sonhos que pareciam tão possíveis quando éramos só dois jovens apaixonados tentando fugir do destino traçado pra quem nasce na periferia.

Será que valeu a pena tudo isso? Será que nossos sonhos eram grandes demais ou só diferentes dos sonhos dos nossos pais? E você aí do outro lado: já abriu mão de alguém ou de algum sonho por causa das dificuldades da vida?