O Riso Que Se Calou: Uma Tarde na Sala de Espera
— Dona Lourdes, a senhora pode vir comigo, por favor? — chamou a enfermeira com voz cansada, sem sequer olhar para ela.
Eu estava ali, sentada há quase uma hora, esperando minha vez para ser atendida. O ar-condicionado fazia um barulho irritante, e o cheiro de desinfetante misturado com café velho impregnava tudo. Olhei para o lado e vi Dona Lourdes, uma senhora de cabelos brancos bem penteados, segurando uma bolsa florida no colo. Ela sorria para todos que passavam, tentando puxar conversa, mas ninguém parecia disposto a responder. Alguns desviavam o olhar, outros fingiam estar ocupados no celular.
De repente, ela soltou uma risada alta ao comentar com um senhor ao lado:
— Menino, esse hospital parece rodoviária em véspera de feriado! Só falta o vendedor de pipoca!
O senhor sorriu sem graça, mas logo voltou a olhar para o chão. Eu ri baixinho, mas percebi que a maioria das pessoas ficou incomodada com a espontaneidade dela. Uma mulher mais jovem, com cara de poucos amigos, murmurou:
— Tem gente que não tem noção mesmo…
Dona Lourdes percebeu o desconforto e seu sorriso se desfez num instante. Ela ajeitou a bolsa no colo e ficou olhando para as próprias mãos trêmulas. O silêncio tomou conta da sala de espera. Até as enfermeiras pareciam andar mais devagar, como se algo pesado tivesse caído ali.
Enquanto esperava, comecei a pensar em minha própria avó, que morava sozinha em um bairro afastado. Quantas vezes eu mesma não tinha ignorado suas tentativas de conversa porque estava ocupada demais? Quantas vezes deixei de ligar ou visitar porque achava que ela estaria bem?
A porta da sala de triagem se abriu e uma médica jovem chamou:
— Maria Aparecida dos Santos!
Levantei a cabeça, mas era outra senhora quem se levantava. Ela caminhou devagar até a porta, apoiando-se na bengala. O relógio marcava quase três da tarde e a sala parecia cada vez mais sufocante.
Dona Lourdes continuava ali, agora calada. Seus olhos vagavam pela sala como se procurassem alguém conhecido. Ninguém retribuía o olhar. O tempo parecia não passar.
De repente, um homem entrou apressado na sala. Era alto, vestia camisa social amarrotada e carregava uma pasta cheia de papéis.
— Mãe! — ele exclamou, indo direto até Dona Lourdes. — Por que a senhora não me esperou lá fora? Eu disse que vinha te buscar!
Ela sorriu aliviada:
— Achei que você estava ocupado, meu filho. Não queria atrapalhar…
Ele suspirou impaciente:
— Atrapalhar nada! A senhora sabe que não pode ficar sozinha muito tempo. E se passa mal?
As pessoas na sala fingiram não ouvir, mas eu percebi olhares curiosos. Dona Lourdes abaixou a cabeça.
— Desculpa, filho… Eu só queria conversar um pouco. Aqui é tão parado…
Ele se sentou ao lado dela e começou a mexer no celular.
— Agora fica quietinha aí até te chamarem. Tenho que resolver umas coisas do trabalho.
O silêncio voltou a reinar. Eu sentia um nó na garganta. Era como se todos ali tivessem esquecido que Dona Lourdes era mais do que uma paciente esperando atendimento; era uma pessoa cheia de histórias, de vontade de viver.
A enfermeira voltou e chamou:
— Lourdes da Silva!
Ela se levantou devagar e olhou para o filho:
— Você vem comigo?
Ele nem levantou os olhos do celular:
— Vai lá, mãe. Eu te espero aqui.
Ela caminhou sozinha até a porta da triagem. Antes de entrar, olhou para trás e nossos olhares se cruzaram. Senti vontade de levantar e ir até ela, dizer alguma coisa, mas fiquei paralisada.
Quando finalmente fui chamada para ser atendida, já não conseguia pensar em outra coisa além daquela cena. O riso espontâneo de Dona Lourdes tinha sumido tão rápido quanto apareceu. Saí do hospital com um peso no peito.
No caminho para casa, liguei para minha avó.
— Oi, vó! Tudo bem? — perguntei tentando soar animada.
Ela respondeu surpresa:
— Que bom ouvir sua voz! Achei que você tinha esquecido de mim…
Conversamos por quase meia hora sobre coisas simples: o tempo, as plantas do quintal, as novelas. Senti que aquele gesto pequeno fez diferença no dia dela — e no meu também.
À noite, não consegui dormir direito. Fiquei pensando em quantas Donas Lourdes existem por aí: pessoas cheias de vida e histórias que são silenciadas pela pressa ou indiferença dos outros. Será que estamos realmente ouvindo nossos idosos? Ou estamos apenas esperando que eles fiquem quietos?
No fundo, todos nós vamos envelhecer um dia. Será que queremos ser tratados assim? Será que um simples sorriso ou uma conversa não pode mudar tudo?
Às vezes me pergunto: quantos risos já deixamos calar por falta de atenção? E você aí do outro lado: quando foi a última vez que ouviu — de verdade — alguém mais velho na sua família?