A Mulher Invisível: Entre as Paredes do Silêncio
— Dona Lúcia, a senhora vai descer? — a voz do cobrador ecoou no ônibus lotado, mas não era comigo. Nunca era. Eu estava ali, espremida entre uma moça de fone de ouvido e um rapaz com mochila, mas ninguém me olhava. Era como se eu fosse parte do banco, da janela suja, do cheiro de suor e desespero que pairava no ar das seis da manhã.
Meu nome é Lúcia Helena da Silva. Tenho cinquenta e oito anos e moro no mesmo apartamento em Osasco desde que minha filha nasceu. E, ultimamente, tenho a sensação de que estou sumindo. Não fisicamente — ainda acordo todo dia com dor nas costas e o joanete latejando — mas como se eu fosse ficando transparente. As pessoas passam por mim sem notar. Nem bom dia, nem licença. No elevador, os vizinhos olham para o celular ou para o teto mofado. Na farmácia, a atendente chama a próxima senha antes mesmo de eu abrir a boca.
Em casa, não é diferente. Minha filha, Camila, chega do trabalho exausta, joga a bolsa no sofá e vai direto pro quarto. — Mãe, não precisa me esperar acordada — ela diz, sem olhar nos meus olhos. Meu neto, Gabriel, só fala comigo quando quer dinheiro pra comprar skin no joguinho do celular.
Meu marido, Paulo, morreu faz dez anos. Desde então, a casa ficou grande demais pra mim. O silêncio pesa. Às vezes ligo a TV só pra ouvir vozes. Mas até as novelas parecem falar com todo mundo, menos comigo.
Outro dia tentei conversar com Camila sobre o barulho do vizinho de cima. — Mãe, deixa disso — ela respondeu impaciente. — Você reclama de tudo! — Não reclamei mais. Fui pro quarto e chorei baixinho, pra ninguém ouvir.
No grupo de WhatsApp da família, só mandam bom dia com florzinha e versículo bíblico. Quando mando mensagem perguntando se alguém quer vir almoçar domingo, ninguém responde. Nem um emoji.
No mercadinho da esquina, seu Antônio nem pergunta mais se quero fiado. Só passa as compras e olha pro relógio. Sinto falta de quando ele me chamava de “minha filha” e perguntava do Paulo.
Uma vez tentei ser vista. Fui na reunião de condomínio reclamar da infiltração na parede da garagem. Falei, expliquei, mostrei foto. O síndico nem anotou meu nome na ata. — Depois a gente vê isso aí, dona Lúcia — disse ele, já chamando o próximo assunto.
Comecei a pensar que talvez o problema fosse comigo. Será que fiquei chata? Será que minha voz ficou baixa demais? Olho no espelho e vejo meus cabelos brancos crescendo na raiz, as rugas ao redor dos olhos. Me visto simples: calça jeans surrada, blusa de malha. Não uso batom desde o enterro do Paulo.
Outro dia tentei mudar. Passei um batom vermelho que achei no fundo da gaveta. Fui ao banco pagar conta. O segurança olhou pra mim com estranheza — ou será que foi impressão minha? Ninguém comentou nada.
No domingo seguinte, resolvi fazer um almoço especial: lasanha de berinjela, a preferida da Camila. Ela chegou tarde, comeu apressada e saiu dizendo que ia encontrar umas amigas no shopping. Gabriel ficou no quarto jogando videogame.
— Gabriel! Vem comer com a vó! — chamei pela porta entreaberta.
— Já vou! — ele respondeu sem tirar os olhos da tela.
Fiquei esperando na mesa até a comida esfriar.
À noite, sentei na varanda olhando as luzes dos prédios ao longe. Pensei em minha mãe, dona Maria das Dores, que morreu sozinha num hospital público em Belo Horizonte. Lembrei das vezes em que prometi nunca deixar ninguém da minha família sentir-se abandonado.
Mas agora sou eu quem sente esse vazio.
Na segunda-feira fui ao posto de saúde pegar remédio pra pressão alta. A fila era longa e cansativa. Uma senhora atrás de mim puxou conversa:
— Difícil esperar tanto tempo assim, né?
— É… — respondi sem ânimo.
Ela continuou:
— Meu filho nunca tem tempo pra me levar ao médico…
Olhei pra ela e vi nos olhos o mesmo cansaço que sinto todo dia.
No caminho de volta pra casa, pensei em tudo o que já fui: professora primária numa escola estadual; esposa dedicada; mãe presente; amiga das vizinhas do prédio antigo; catequista na igreja do bairro; voluntária na creche comunitária… Agora sou só “a mãe da Camila” ou “a avó do Gabriel” — quando lembram de mim.
À noite, Camila chegou reclamando do chefe:
— Mãe, você não sabe o que aconteceu hoje! O Gilmar me fez refazer o relatório inteiro!
Tentei consolar:
— Filha, às vezes é melhor respirar fundo…
Ela me cortou:
— Ai mãe! Você não entende nada!
Fiquei quieta.
Naquela semana decidi procurar um antigo amigo: dona Zuleide do 503. Ela sempre foi animada nas festas juninas do prédio.
Bati na porta dela:
— Dona Zuleide? Tudo bem?
Ela abriu devagar:
— Oi Lúcia… desculpa a bagunça… tô meio ocupada agora…
Senti o peso da porta se fechando devagar na minha cara.
No sábado acordei cedo e fui à feira comprar frutas frescas. O feirante me deu um desconto nas bananas:
— Pra senhora levar pro netinho!
Sorri agradecida. Por um instante me senti vista.
Voltei pra casa e decidi escrever uma carta pra Camila:
“Filha,
Sei que você está ocupada e cansada. Mas queria te dizer que sinto sua falta. Sinto falta das nossas conversas na cozinha enquanto fazíamos bolo juntas; das risadas vendo novela; dos domingos em família… Sei que cresceu e tem sua vida, mas queria pedir: não me deixa sumir aqui dentro dessa casa. Preciso de você perto de mim.
Com amor,
Mamãe”
Deixei a carta em cima da mesa dela.
No domingo à noite, Camila entrou no meu quarto chorando:
— Mãe… desculpa… eu não percebi…
Nos abraçamos forte pela primeira vez em anos.
Gabriel veio correndo:
— Vó! Vamos jogar dominó?
Sorri com lágrimas nos olhos.
Ainda não sei se vou voltar a ser vista pelo mundo lá fora. Mas dentro da minha casa, pelo menos hoje, voltei a existir.
Será que muitas mulheres como eu também se sentem invisíveis? Quantas mães e avós estão desaparecendo dentro das próprias famílias? Quem vai enxergar essas vidas antes que seja tarde demais?