Terceira Chance
— Dona Lúcia, por favor, não faça isso comigo agora… — sussurrei, sentindo o peso do jaleco branco sobre meus ombros, enquanto a senhora de cabelos grisalhos me agarrava pelo braço, os olhos marejados de desespero. O corredor do hospital ecoava gritos abafados, tosses e o tilintar dos equipamentos. Era mais uma noite de plantão no Hospital Municipal de Belo Horizonte, e eu, Mariana, já não sabia mais distinguir o cansaço físico do emocional.
A porta da sala se abriu com força. Meu colega, Rafael, entrou apressado:
— Mari, a emergência está lotada. Tem uma criança chegando com suspeita de meningite e… — Ele parou ao ver Dona Lúcia agarrada a mim. — Precisa de ajuda?
— Não, Rafael. Eu resolvo aqui. Vai lá — respondi, tentando soar firme.
Dona Lúcia soluçava:
— Doutora, pelo amor de Deus, não deixe tirarem meu filho do respirador! Ele só tem 32 anos… Ele é tudo que eu tenho!
Fechei os olhos por um segundo. O filho dela, André, estava há semanas na UTI, vítima de um acidente de moto. O hospital estava superlotado, faltavam leitos, faltava tudo. A direção pressionava para liberar vagas. E eu era a responsável por decidir quem teria direito à terceira chance.
Meu celular vibrou no bolso. Era uma mensagem da minha mãe: “Mariana, seu pai piorou. Preciso de você aqui em casa.” Senti o coração apertar. Meu pai lutava contra um câncer há meses. Eu não via meus pais há dias — sempre um plantão a mais, sempre um paciente precisando mais do que minha própria família.
— Doutora Mariana! — gritou uma enfermeira do outro lado do corredor. — O menino da sala 3 está convulsionando!
Corri pelos corredores estreitos, desviando de macas e cadeiras de rodas. Entrei na sala 3 e vi o pequeno Lucas, de sete anos, se debatendo na cama. Sua mãe chorava encostada na parede.
— Segura ele! — ordenei à equipe. — Diazepam, agora!
Enquanto aplicávamos a medicação, minha mente girava entre Lucas, André e meu próprio pai. Três vidas nas minhas mãos. Três chances.
Quando a crise passou e Lucas estabilizou, sentei-me no chão frio da sala de medicação. As lágrimas vieram sem pedir licença. Rafael entrou e se agachou ao meu lado.
— Você não é Deus, Mari — disse ele baixinho.
— Mas às vezes parece que esperam que eu seja — respondi, a voz embargada.
O relógio marcava três da manhã quando voltei à UTI. Dona Lúcia dormia sentada ao lado do filho inconsciente. Peguei o prontuário de André e li pela milésima vez: “Prognóstico reservado. Poucas chances de recuperação neurológica.” Mas como dizer isso para uma mãe? Como ser eu a responsável por desligar a esperança?
No corredor, ouvi vozes alteradas:
— Isso é um absurdo! Meu irmão está esperando vaga há dois dias! — gritava um homem alto para a assistente social.
— Estamos fazendo o possível… — ela tentava acalmar.
Senti raiva. Raiva do sistema precário, dos cortes no orçamento da saúde, das promessas políticas vazias. Raiva de mim mesma por já estar anestesiada diante do sofrimento alheio.
No banheiro do hospital, encarei meu reflexo no espelho: olheiras profundas, cabelo preso às pressas, olhos vermelhos. Lembrei das palavras do meu pai antes de adoecer: “Filha, nunca deixe de ser humana por trás desse jaleco.” Mas como ser humana quando tudo ao redor parece desmoronar?
Voltei à sala dos médicos e liguei para minha mãe:
— Mãe…
Ela atendeu com a voz cansada:
— Mariana? Você vai conseguir vir amanhã?
Engoli o choro:
— Não sei… Está difícil aqui…
— Seu pai perguntou de você hoje. Disse que sente sua falta.
Desliguei sentindo uma culpa esmagadora. Eu salvava vidas todos os dias, mas não conseguia estar presente para quem mais precisava de mim.
Às cinco da manhã, fui chamada à direção do hospital.
— Doutora Mariana — disse o diretor com voz grave — precisamos liberar o leito do André até o fim do plantão. Tem outro paciente em estado crítico aguardando.
Assinei os papéis com as mãos trêmulas. Voltei à UTI e sentei ao lado de Dona Lúcia.
— Dona Lúcia…
Ela me olhou com olhos suplicantes.
— Não… Por favor…
Segurei sua mão:
— Fizemos tudo que podíamos. O André não está mais sofrendo…
Ela chorou em silêncio enquanto eu desligava os aparelhos. Senti cada segundo pesar como uma eternidade.
Quando saí da UTI, Rafael me esperava no corredor.
— Você fez o que precisava ser feito.
Olhei para ele e respondi:
— Mas quem cuida da gente quando tudo isso acaba?
No fim do plantão, saí do hospital com o sol nascendo timidamente sobre Belo Horizonte. Peguei o ônibus lotado para casa e chorei baixinho entre desconhecidos.
Ao chegar em casa, encontrei minha mãe sentada ao lado da cama do meu pai. Ele sorriu fraco ao me ver:
— Minha filha… Você veio…
Sentei ao seu lado e segurei sua mão magra.
— Desculpa não ter vindo antes…
Ele acariciou meu rosto:
— Você faz o que pode. Só não esqueça de viver sua vida também.
Naquela manhã, pela primeira vez em meses, dormi abraçada aos meus pais.
Agora escrevo essas palavras pensando: quantas vezes a gente precisa escolher entre salvar o mundo lá fora e cuidar do nosso próprio mundo? Até onde vai o limite do sacrifício? E será que algum dia a gente aprende a perdoar a si mesmo?