O Último Andar da Esperança

— Por que você veio, Miguel? — a voz de Dona Jandira ecoa do outro lado da porta, rouca, cansada, mas ainda carregada de uma força que sempre me intimidou.

Eu hesito, tragando o cigarro até o filtro, sentindo o gosto amargo da minha própria covardia. O corredor do prédio cheira a mofo e lembranças ruins. Olho para a porta 403, a mesma que eu bati tantas vezes quando era criança, pedindo abrigo dos gritos do meu pai. Agora, adulto, volto como um estranho.

— Eu precisava te ver, Dona Jandira… — minha voz falha. — Não tenho muito tempo.

Ela destranca a porta devagar, o trinco faz um barulho seco. O rosto dela aparece na fresta: rugas profundas, olhos miúdos e atentos. Ela me examina como quem avalia um produto estragado no mercado.

— Você sumiu por dez anos. Agora volta assim, do nada? — Ela abre a porta de vez. — Entra logo antes que alguém veja.

O apartamento está igualzinho ao que eu lembrava: móveis velhos, cheiro de café requentado e uma televisão chiando baixinho na sala. Sento-me na cadeira de palhinha, aquela que sempre ameaçava quebrar sob meu peso de menino magro.

— O que você quer? — Ela se senta de frente para mim, braços cruzados.

— Eu… Eu tô doente, Dona Jandira. Descobri faz pouco tempo. Não sei quanto tempo me resta…

Ela não reage. Apenas pisca devagar, como se digerisse cada palavra com cuidado.

— E veio aqui pedir perdão? Ou quer dinheiro?

Sinto um nó na garganta. Não vim pedir nada além de compreensão. Mas como explicar isso para alguém que nunca acreditou em mim?

— Eu só queria conversar… lembrar das coisas boas. Se é que teve alguma.

Ela solta uma risada seca.

— Coisas boas? Você acha que eu esqueci das noites em que sua mãe chorava por sua causa? Das vezes que você sumia com os moleques da rua e voltava fedendo a cachaça?

Eu abaixo a cabeça. Sei que mereço cada palavra. Mas também sei que ela não entende tudo o que vivi fora dali: o frio das ruas de São Paulo, as noites dormindo em albergue, o medo constante de não acordar no dia seguinte.

— Eu era só um menino… — murmuro. — Ninguém nunca me ouviu aqui dentro.

Ela se levanta bruscamente, vai até a janela e olha para fora, para o pátio onde as crianças brincam entre carros velhos e lixo espalhado.

— Sabe por que eu nunca fui atrás de você? Porque eu sabia que você não queria ser encontrado. — Ela se vira para mim, os olhos brilhando de lágrimas contidas. — Mas toda noite eu rezava pra você voltar vivo.

O silêncio pesa entre nós. O barulho da televisão preenche o vazio.

— Eu vi o Toninho outro dia — ela diz de repente. — Ele perguntou de você. Disse que sente falta dos tempos em que vocês jogavam bola no campinho.

Sorrio pela primeira vez em anos. Toninho era meu melhor amigo antes de tudo desandar. Antes do vício, das brigas, das fugas.

— Ele ainda mora aqui?

— Mora sim. Casou com a filha da Dona Cida. Tem dois meninos agora.

Penso em tudo o que perdi: amigos, família, tempo. Penso em minha mãe, enterrada há cinco anos sem que eu pudesse me despedir. Penso no pai, morto de cirrose antes dos cinquenta.

— Eu queria ter feito diferente… — minha voz sai embargada. — Mas parece que tudo já estava escrito pra dar errado.

Dona Jandira se aproxima devagar e coloca a mão sobre a minha.

— Nada está escrito, Miguel. A gente é quem escolhe os caminhos. Você escolheu fugir… mas ainda pode escolher voltar.

As lágrimas escorrem sem controle agora. Choro por tudo: pelo menino assustado que fui, pelo homem perdido que me tornei, pela chance de recomeçar mesmo quando tudo parece perdido.

— Você me perdoa? — pergunto baixinho.

Ela aperta minha mão com força surpreendente para alguém tão frágil.

— Perdoar é fácil, meu filho. Difícil é esquecer…

Ficamos ali em silêncio por longos minutos. O tempo parece suspenso naquele apartamento apertado do quarto andar. Lá fora, o sol começa a se pôr atrás dos prédios cinzentos da Zona Leste.

Antes de ir embora, passo pelo corredor e olho para as fotos antigas na parede: minha mãe sorrindo ao lado do pai num Natal distante; eu e Toninho cobertos de lama depois de uma pelada; Dona Jandira mais jovem, segurando um bolo improvisado com velas tortas.

Na porta, ela me abraça forte pela primeira vez desde que voltei. Sinto o cheiro do perfume barato misturado ao café frio e penso que talvez ainda haja tempo para consertar alguma coisa.

Desço as escadas devagar, cada degrau pesando como uma lembrança não resolvida. Lá fora, acendo outro cigarro e olho para cima, para a janela do quarto andar onde uma luz amarela começa a brilhar.

Será que todo mundo merece uma segunda chance? Ou será que algumas feridas nunca cicatrizam de verdade?