Enfim… ou seria só o começo?

— Cristiane, você vai mesmo casar com esse homem? — a voz da minha mãe ecoava no quarto, enquanto eu ajeitava o véu diante do espelho. O vestido branco parecia mais pesado do que deveria, como se já soubesse do fardo que eu carregaria. Eu sorri, tentando afastar o nervosismo. — Mãe, Rogério é diferente. Ele me faz rir, me faz sentir viva. — Você merece mais do que risadas de bar, filha — ela rebateu, com os olhos marejados.

Naquele dia, ignorei todos os sinais. O cheiro forte de álcool quando Rogério chegou na igreja, o sorriso torto, as palavras enroladas: — Cris, você é tudo pra mim. Vamos ser felizes, prometo. — Eu quis acreditar. Quis tanto que fechei os olhos para tudo.

Nosso começo foi um vendaval. Morávamos num apartamento pequeno em Osasco, paredes finas e vizinhos curiosos. Rogério era divertido, carinhoso nos dias bons. Mas nos dias ruins… ah, nos dias ruins ele se perdia nas garrafas. Voltava tarde, tropeçando nas próprias pernas, falando alto, às vezes chorando feito criança.

— Por que você bebe tanto? — perguntei uma noite, depois de mais uma discussão.
— Porque a vida é dura, Cris! Você acha que eu queria isso pra mim? — ele gritou, jogando a chave na parede.

Eu tentava entender. Achava que amor era aguentar tudo. Que ele ia mudar por mim. Mas as promessas vinham e iam como ressaca: — Eu juro que vou parar. Só mais essa vez. — E eu acreditava.

Os anos passaram e vieram os filhos: Lucas e Mariana. Eles cresceram ouvindo brigas abafadas atrás da porta do quarto. Lucas começou a ter medo do pai quando ele chegava alterado; Mariana se escondia atrás das minhas pernas.

Minha sogra, Dona Lourdes, sempre dizia: — Homem é assim mesmo, minha filha. Tem que ter paciência. Mas eu sentia que estava me afundando junto com ele.

Teve uma noite em que Rogério não voltou pra casa. Fiquei acordada até o sol nascer, coração apertado. Quando finalmente entrou pela porta, estava machucado, cheiro forte de cachaça e sangue seco na testa.
— O que aconteceu? — perguntei desesperada.
— Nada demais! Só um desentendimento no bar — respondeu ríspido.

Naquele momento percebi: eu não podia salvá-lo sozinha.

Procurei ajuda na igreja do bairro. Falei com o padre João: — Padre, não sei mais o que fazer. Meu marido bebe demais, meus filhos estão sofrendo.
Ele segurou minha mão: — Filha, ninguém muda ninguém à força. Mas você precisa se cuidar também.

Comecei a ir em reuniões do Al-Anon, um grupo de apoio para familiares de alcoólatras. Lá ouvi histórias parecidas com a minha. Mulheres como eu, cansadas de promessas vazias e noites mal dormidas.

Certa vez, Lucas chegou da escola chorando:
— Mãe, por que o pai grita tanto?
Meu coração se partiu em mil pedaços. Eu não queria que meus filhos crescessem achando que aquilo era normal.

Confrontei Rogério:
— Ou você procura ajuda ou eu vou embora com as crianças!
Ele riu na minha cara:
— Você não tem coragem!

Mas eu tinha. Pela primeira vez em anos, arrumei as malas e fui pra casa da minha mãe com Lucas e Mariana.

Foram meses difíceis. Minha mãe me ajudou como pôde, mas eu sentia vergonha. Vergonha de ter fracassado no casamento, vergonha de não ter visto antes.

Rogério apareceu algumas vezes pedindo perdão:
— Cris, volta pra casa! Eu mudei!
Mas eu sabia que não era verdade. Ele precisava querer mudar por ele mesmo.

O tempo passou e fui reconstruindo minha vida aos poucos. Arrumei um emprego como auxiliar de cozinha numa escola pública. Os meninos sentiram falta do pai, mas também começaram a sorrir mais.

Um dia recebi uma ligação do hospital: Rogério tinha sido internado depois de um coma alcoólico. Fui visitá-lo. Ele estava magro, abatido, os olhos fundos.
— Me perdoa, Cris… Eu destruí tudo — ele sussurrou.
Eu chorei ali mesmo. Não de raiva ou mágoa, mas de luto pelo homem que eu amei e perdi para o álcool.

Hoje olho pra trás e vejo o quanto fui forte sem perceber. Não salvei Rogério do vício dele, mas salvei a mim mesma e aos meus filhos de uma vida de medo e tristeza.

Às vezes me pergunto: será que poderia ter feito diferente? Será que existe limite para o amor? Ou amar também é saber a hora de partir?

E você? Até onde iria por alguém que ama?