Entre Anjos e Sombras: O Dom Que Nos Persegue
— Mãe, tem alguém no meu quarto de novo. — A voz do Gabriel cortou o silêncio da madrugada como uma navalha. Meu coração disparou, não só pelo medo de mãe, mas pelo terror que eu mesma conhecia tão bem. Levantei da cama, pés descalços no chão frio, e fui até ele. O quarto estava escuro, mas senti o ar pesado, aquela sensação de que não estávamos sozinhos.
Desde pequena, vejo coisas que ninguém mais vê. Espíritos, vultos, às vezes anjos de luz, outras vezes sombras tão densas que me tiram o fôlego. Cresci em uma casa simples em Belo Horizonte, onde minha mãe, Dona Lourdes, dizia que era coisa da minha cabeça. “Reza um Pai-Nosso e dorme, menina!”, ela insistia. Mas como dormir quando a Morte sentava ao pé da minha cama e sorria para mim?
Quando Gabriel nasceu, jurei protegê-lo de tudo. Mas como proteger meu filho do que eu mesma não entendo? Ele tinha só quatro anos quando me contou pela primeira vez: “Mãe, tem um moço sem rosto no corredor”. Senti um gelo na espinha. Não era imaginação. Eu também via.
As noites eram longas. Às vezes acordava com ele sentado na cama, olhos arregalados, murmurando: “Eles estão aqui”. Outras vezes, ele dormia tranquilo e acordava contando sonhos em que subia escadas de luz e encontrava Deus e Jesus. “Mamãe, eles são bons, mas tem gente triste lá também”, dizia com uma inocência que me partia o coração.
Meu marido, Paulo, nunca acreditou. “Isso é influência sua! Para de encher a cabeça do menino com essas bobagens!”, gritava depois de mais uma noite sem dormir. As discussões viraram rotina. Ele queria nos levar ao pastor da igreja evangélica do bairro; eu preferia as rezas antigas da minha avó mineira. A fé virou motivo de guerra dentro de casa.
Certa vez, Gabriel ficou doente. Febre alta, olhos vidrados. No delírio, falava com alguém invisível: “Não leva minha mãe! Leva eu não!”. Chamei Dona Cida, a vizinha benzedeira. Ela entrou com galho de arruda e água benta, rezou baixinho enquanto eu chorava abraçada ao meu filho. Depois daquela noite, a febre baixou. Mas as visitas do outro lado nunca cessaram.
No trabalho, as coisas também pioraram. Sou professora numa escola pública da periferia. Meus colegas cochichavam: “Aquela ali é meio esquisita… Dizem que vê fantasma”. As mães dos alunos começaram a evitar contato comigo. Uma delas chegou a me acusar de trazer “coisa ruim” para a escola depois que uma menina desmaiou na aula de história.
O ápice veio quando sonhei com a Santa Morte — aquela figura encapuzada que nunca cultuei nem invoquei. Ela apareceu nos meus sonhos três vezes seguidas, sempre parada à porta do quarto de Gabriel. Acordava suando frio, rezando tudo que sabia: Pai-Nosso, Ave-Maria, Salmo 91. Mas o medo não passava.
Certa noite, Gabriel acordou gritando: “Mãe! Ela tá aqui!” Corri até ele e vi: uma sombra densa no canto do quarto, fria como gelo. Peguei o terço da minha avó e comecei a rezar alto. A sombra recuou até sumir na parede. Gabriel tremia nos meus braços.
Depois disso, decidi procurar ajuda fora da religião tradicional. Fui até um centro espírita indicado por uma colega da escola. Lá ouvi que meu dom era uma mediunidade forte e que Gabriel herdara isso de mim. “Vocês precisam aprender a lidar com isso, não negar”, disse Dona Marlene, a dirigente do centro.
Começamos a frequentar as reuniões de desobsessão e evangelização infantil. Aos poucos, Gabriel aprendeu a diferenciar os espíritos bons dos maus. Eu também fui encontrando algum alívio nas orações coletivas e nos passes energéticos. Mas nem tudo era paz.
Paulo ficou ainda mais revoltado: “Agora virou macumbeira? Vai criar nosso filho nesse meio?” As brigas aumentaram até ele sair de casa por uns dias. Fiquei sozinha com Gabriel e nossos fantasmas.
Numa dessas noites solitárias, acordei com uma luz forte no quarto. Achei que era sonho, mas estava acordada — vi um homem alto, vestido de branco, sorrindo para mim. Senti uma paz profunda e ouvi uma voz suave: “Não tema o dom que recebeu; use-o para ajudar”.
No dia seguinte, contei para Gabriel. Ele sorriu: “Eu vi ele também, mãe! Ele disse pra gente não ter medo”.
A partir daí, comecei a ajudar outras pessoas do bairro que também viam ou sentiam coisas estranhas — crianças assustadas, idosos ouvindo vozes à noite, mães desesperadas por respostas. Formamos um pequeno grupo de apoio espiritual na garagem de casa.
Mas nem todos aceitavam nossa ajuda. Uma vizinha me acusou de bruxaria depois que seu cachorro morreu misteriosamente. Ameaçou chamar a polícia se eu continuasse “mexendo com essas coisas” perto dos filhos dela.
A solidão era pesada às vezes. Senti falta do apoio da minha mãe — Dona Lourdes já tinha partido há anos — e do carinho do Paulo antes das brigas começarem por causa do nosso dom.
Gabriel cresceu aprendendo a conviver com o invisível e a usar sua sensibilidade para consolar amigos que perderam parentes ou tinham pesadelos recorrentes. Ele nunca deixou de ver os mortos — às vezes me conta sobre encontros com meu pai ou minha avó em sonhos tão reais que me fazem chorar.
Hoje olho para trás e vejo quanto sofremos por sermos diferentes num país onde fé e medo caminham juntos nas vielas das cidades grandes e pequenas do Brasil. Ainda sinto medo às vezes — principalmente quando as sombras voltam ou quando sonho com aquela figura encapuzada parada à porta do meu filho.
Mas também sinto orgulho de ter transformado nossa dor em força para ajudar outros perdidos entre dois mundos.
Às vezes me pergunto: será que somos mesmo escolhidos ou apenas amaldiçoados? E você — teria coragem de enxergar além do véu se soubesse o preço?