Voltar para Quem Me Traiu: Entre o Amor e o Orgulho
— Você vai mesmo sair com ele de novo? — perguntou minha mãe, com aquele olhar que mistura preocupação e julgamento, enquanto eu tentava disfarçar as mãos trêmulas ao passar batom diante do espelho da sala.
— Mãe, eu sei o que estou fazendo — menti, porque na verdade não sabia. Meu coração batia tão forte que parecia querer saltar do peito. Fazia três anos desde que Rafael tinha me traído com aquela colega de trabalho dele, a tal da Juliana. Três anos de noites mal dormidas, de raiva, de terapia, de tentar me convencer que eu merecia coisa melhor. Mas agora ele estava ali, mandando mensagem, dizendo que mudou, que sentia minha falta, que queria tentar de novo.
A primeira vez que o vi depois de tudo foi num barzinho na Savassi. Ele estava mais magro, o cabelo um pouco mais grisalho nas têmporas. Sorriu daquele jeito torto que sempre me desmontava. Eu queria gritar, jogar o copo nele, mas só consegui perguntar:
— Por quê?
Ele abaixou os olhos. — Eu era um idiota. Não sabia o que queria. Senti sua falta todos os dias.
Eu queria acreditar. Queria tanto. Mas minha irmã, Bianca, não deixou barato quando soube:
— Você é doida? Vai voltar pra esse traste? Ele te fez de trouxa na frente da cidade inteira! — gritou ela na cozinha da nossa mãe, batendo a mão na mesa tão forte que até o cachorro fugiu assustado.
— As pessoas mudam, Bianca. Eu também errei…
— Você errou em confiar nele! — retrucou ela.
Mas era fácil falar quando não era o coração dela que doía toda vez que via um casal feliz na rua, ou quando recebia convite de casamento das amigas do colégio.
A verdade é que eu nunca esqueci o Rafael. Mesmo quando tentei outros relacionamentos — teve o Lucas do trabalho, o André do grupo de corrida — nenhum deles era ele. E quando ele reapareceu, dizendo que estava fazendo terapia, que tinha pedido demissão do emprego para não ver mais a Juliana, meu coração amoleceu.
Voltamos a sair. No começo era estranho: eu desconfiada de cada mensagem no celular dele, ele tentando provar que era diferente. Teve uma noite em que ele chegou atrasado para o jantar e eu explodi:
— Onde você estava? Com quem? — gritei antes mesmo dele fechar a porta.
Ele suspirou fundo. — Camila, eu estava preso no trânsito! Olha aqui o GPS!
Eu chorei de raiva de mim mesma por ainda ser aquela mulher desconfiada. Ele me abraçou e disse:
— Eu entendo sua dor. Só quero te mostrar que posso ser melhor.
Minha mãe ficou em silêncio por semanas. Só me olhava com aquele olhar triste durante o café da manhã.
— Filha, você merece alguém que te faça sentir segura — disse ela um dia, enquanto passava café.
— Eu sei, mãe. Mas e se for ele? E se a gente merecer uma segunda chance?
Ela não respondeu. Só suspirou e mudou de assunto.
O tempo foi passando e as coisas pareciam melhorar. Rafael me levou para conhecer os pais dele de novo, como se fosse a primeira vez. Eles me receberam com carinho, mas percebi nos olhos da sogra aquela dúvida: será que ela vai perdoar mesmo?
No aniversário do meu pai, levei Rafael à festa da família. Foi um clima tenso: meus tios cochichando no canto da sala, minha avó rezando baixinho para “Deus iluminar a cabeça da menina”. Bianca nem olhou na cara dele.
Depois da festa, discutimos no carro:
— Não aguento mais ser julgada! — desabafei.
— Eu também não — disse ele. — Mas só a gente sabe o que sente.
Naquela noite fizemos amor como se fosse a primeira vez. Chorei depois, com medo de estar me entregando para alguém que podia me machucar de novo.
Os meses passaram e comecei a relaxar. Rafael realmente parecia diferente: mais presente, mais carinhoso. Até que um dia encontrei uma mensagem no celular dele: “Saudades das nossas conversas”, dizia uma tal de Priscila.
Meu mundo desabou. Senti o gosto amargo da traição outra vez.
— Quem é essa? — perguntei com a voz trêmula.
Ele tentou explicar: — É só uma amiga do trabalho novo! Juro por Deus!
Dessa vez não gritei. Só chorei baixinho no banheiro enquanto ele batia na porta pedindo para eu acreditar nele.
Fiquei dias sem falar com ele. Bianca veio em casa e me encontrou largada no sofá.
— Você precisa se amar mais, Camila. Ninguém merece viver assim.
Eu sabia que ela tinha razão. Mas também sabia que amar alguém é se arriscar a sofrer. Liguei para Rafael e pedi um tempo.
Ele chorou no telefone:
— Eu te amo! Não faz isso com a gente!
Mas eu precisava pensar em mim pela primeira vez em anos.
Passei semanas revivendo tudo na cabeça: os momentos bons e ruins, as promessas quebradas, os beijos roubados no portão da minha casa quando éramos adolescentes. Lembrei do dia em que ele me pediu desculpas pela primeira traição e prometeu nunca mais errar.
Será que as pessoas mudam mesmo? Ou será que a gente só vê o que quer ver quando está carente?
No fim das contas, decidi seguir sozinha por um tempo. Não porque não amasse Rafael — mas porque precisava aprender a me amar primeiro.
Hoje escrevo essa história sentada na varanda da minha mãe, ouvindo o barulho dos carros lá fora e sentindo uma paz estranha no peito.
Será que fiz certo? Será que vale a pena dar uma segunda chance para quem já nos machucou tanto? Ou será que o amor-próprio deve sempre vir em primeiro lugar?
E você? O que faria no meu lugar?