“Mãe, por favor, me ajuda!” – Sozinha com três filhos na periferia de São Paulo
— Mãe, pelo amor de Deus, só hoje à tarde! — implorei, apertando o celular com uma mão enquanto a outra tentava soltar o cabelo que o Caio puxava com força. Do outro lado da linha, a voz da minha mãe veio seca, sem um pingo de paciência:
— Patrícia, já falei que não sou babá. Eu também tenho minha vida. Não vou ficar à disposição toda semana.
Engoli em seco. Desde que o Marcelo morreu naquele acidente de moto na Marginal, cada dia virou uma batalha. No começo, todo mundo ajudava: minha mãe fazia comida, meu irmão Rafael levava as crianças pra brincar na pracinha. Mas seis meses depois do enterro, cada um voltou pra sua rotina. Só eu fiquei presa no mesmo caos.
A casa que compramos juntos em Itaquera foi financiada em 2014, quando a gente acreditava que ia dar certo. Agora, todo mês é um sufoco: luz, água, gás, internet — tudo aumentando. A pensão por morte e o Bolsa Família mal cobrem o básico. Precisei arrumar um emprego.
Consegui vaga de meio período no caixa do Supermercado Bom Preço. Dona Cida, a gerente, até tenta entender meu lado, mas já avisou:
— Patrícia, se você não conseguir vir à tarde de vez em quando, vou ter que arrumar outra pessoa.
Mas quem fica com as crianças? A Júlia tem oito anos, o Lucas seis e o Caio só um ano e meio. Rafael às vezes aparece pra ajudar, mas ele também tem dois filhos pequenos e a esposa dele já reclamou:
— Não dá pra gente criar os filhos da sua irmã também!
Numa noite dessas, depois que finalmente consegui colocar os três pra dormir — ou pelo menos em silêncio — sentei na cozinha escura. Só ouvia o barulho da geladeira velha. Peguei papel e caneta pra fazer conta: quanto custaria uma babá só três tardes por semana? O valor era assustador.
No dia seguinte, liguei de novo pra minha mãe:
— Mãe, por favor… só duas tardes na semana! Eu não dou conta!
— Patrícia, eu já criei vocês. Agora quero cuidar de mim. Procura o CRAS ou sei lá.
Já fui no CRAS. A assistente social disse:
— Infelizmente não temos vaga pra todas as famílias. Podemos indicar uma cuidadora por R$ 20 a hora.
Vinte reais a hora? Isso é luxo pra mim.
No trabalho, comecei a ficar cada vez mais nervosa. Um dia Dona Cida me chamou no canto:
— Patrícia, tô vendo que você tá sobrecarregada. Se precisar de folga, fala comigo. Mas não sei até quando vou conseguir segurar sua vaga…
Voltei pra casa chorando no ônibus lotado. Uma senhora sentou do meu lado:
— Tá tudo bem, filha?
— Não… — sussurrei. — Tô criando três filhos sozinha e ninguém me ajuda.
— Minha filha também passou por isso… Mas a gente sempre dá um jeito.
Em casa, Júlia se enroscou em mim:
— Mãe, por que você tá sempre triste?
— Não tô triste não, filha… só cansada.
Mentira. Eu tava triste sim. E com raiva: da minha mãe, do Marcelo — por ter me deixado — e até de mim mesma.
Numa noite dessas, Rafael apareceu:
— Falei com a mãe. Ela acha que você tá exigindo demais.
— E você acha que ela tá certa? — perguntei amarga.
— Não sei… Aqui também tá difícil.
— Eu sei… Só parece que todo mundo virou as costas pra mim.
As crianças começaram a sentir tudo isso. Júlia chegou chorando da escola:
— Um menino falou que a gente é pobre.
— A gente não é pobre não, filha… Só tá difícil agora.
Mas eu sabia: éramos pobres sim. Não só de dinheiro — faltava carinho também.
Num domingo cedo resolvi ir até a casa da minha mãe. Caio dormia no carrinho, Júlia e Lucas iam de mãos dadas comigo. Minha mãe abriu a porta com cara fechada:
— O que você quer aqui tão cedo?
— Mãe… por favor… só algumas horas! Eu não aguento mais!
O rosto dela amoleceu por um segundo, mas logo endureceu de novo:
— Patrícia, eu também tenho meus problemas! Não é só você que sofre nessa vida!
Voltando pra casa, Júlia perguntou:
— Mãe, a vovó não gosta mais da gente?
— Gosta sim… Só tá cansada também.
Desde então cada dia é uma luta nova. Tento ser forte pros meus filhos — mas às vezes sinto que vou desabar com tanto peso nas costas.
Outro dia acordei com Lucas tossindo muito forte. Faltou dinheiro pro remédio e precisei pedir fiado na farmácia do seu Zé:
— Patrícia, já é a terceira vez esse mês…
— Eu pago assim que receber…
Ele olhou com pena e passou o remédio mesmo assim.
No mercado, comecei a ouvir cochichos das colegas:
— Ela vive pedindo folga…
— Também, com três filhos sozinha…
Dona Cida me chamou de novo:
— Patrícia, eu entendo sua situação… Mas preciso de alguém mais disponível.
Fui mandada embora naquela semana. Saí do mercado com um nó na garganta e as crianças esperando em casa sem saber do meu desespero.
Na escola da Júlia chamaram pra conversar:
— Sua filha anda distraída e triste… Tá acontecendo alguma coisa em casa?
Chorei na frente da coordenadora. Ela me abraçou e disse:
— Você não está sozinha. Procura ajuda na igreja ou no grupo de mães aqui do bairro.
Tentei ir numa reunião dessas mães na igreja evangélica da esquina. Sentei no fundo, ouvindo outras mulheres contando histórias parecidas: maridos ausentes ou mortos, mães cansadas demais pra ajudar, empregos ruins e medo do futuro.
Uma delas me abraçou no final:
— Força, irmã! Deus nunca abandona ninguém!
Voltei pra casa pensando se Deus realmente olha pra gente aqui na periferia ou se esqueceu da gente faz tempo.
À noite, depois de colocar os meninos na cama e ver Júlia desenhando sozinha na sala escura, sentei no chão da cozinha e chorei baixinho pra ninguém ouvir.
Será que algum dia vou conseguir dar conta de tudo? Será que existe saída pra uma mãe sozinha nesse país onde todo mundo diz “se vira”? E vocês aí: já se sentiram assim? O que fariam no meu lugar?