Não Consigo Amar Meu Neto: O Peso do Silêncio
— Zuleide, você pode ficar com o Lucas hoje? — a voz da minha filha, Camila, soou apressada no telefone, misturada ao barulho do trânsito. — Preciso resolver umas coisas no centro, não tenho com quem deixar ele.
Meu coração disparou. Não era a primeira vez que ela me pedia isso, mas toda vez era como se um peso caísse sobre mim. — Claro, filha — respondi, tentando soar natural. — Pode trazer ele.
Desliguei o telefone e olhei para a sala arrumada, os brinquedos que comprei para o Lucas espalhados num canto, quase intocados. Senti aquele frio no estômago, aquela sensação de inadequação que me acompanha desde que ele nasceu. Eu, Zuleide, mãe dedicada, avó exemplar aos olhos dos outros — mas por dentro, um vazio inexplicável.
Lucas chegou pouco depois, correndo pelo corredor do prédio, os tênis batendo forte no piso. Camila entrou atrás dele, já pedindo desculpas pela pressa. — Mãe, ele tá meio agitado hoje, não dormiu direito. Se der trabalho, me liga.
Assenti com a cabeça e forcei um sorriso. Lucas veio até mim, me deu um beijo rápido na bochecha e saiu correndo para o quarto. Fiquei ali parada, sentindo o cheiro do perfume da minha filha se dissipando no ar.
— Vó, cadê meu carrinho azul? — gritou Lucas lá do quarto.
— Tá na caixa de brinquedos, Lucas! — respondi alto, sem sair do lugar.
Sentei no sofá e fechei os olhos por um instante. Lembrei da primeira vez que peguei Lucas no colo, ainda recém-nascido. Não senti aquele calor que todos descrevem, aquela explosão de amor. Senti medo. Medo de não dar conta, medo de não ser suficiente. E com o tempo, esse medo virou distância.
Lucas voltou para a sala com o carrinho na mão. Sentou no tapete e começou a brincar sozinho. Olhei para ele: cabelos castanhos como os da mãe, olhos grandes e curiosos. Uma criança saudável, esperta. Mas algo em mim não se conectava.
— Vó, brinca comigo? — ele pediu, levantando o carrinho.
— Agora não, Lucas. A vovó tá cansada — menti.
Ele fez uma careta e voltou a brincar sozinho. Senti uma pontada de culpa. Lembrei da minha própria infância em Belo Horizonte, da minha avó Maria me pegando no colo, contando histórias de quando era menina no interior de Minas. Eu amava minha avó com uma intensidade que me aquecia até nos dias mais frios. Por que eu não conseguia sentir isso pelo Lucas?
O tempo foi passando devagar naquela tarde. Preparei um lanche para ele: pão com queijo minas e suco de laranja. Ele comeu calado, olhando para a televisão. Tentei puxar assunto:
— Como foi na escola hoje?
— Legal — respondeu sem tirar os olhos do desenho.
A campainha tocou. Era Dona Neide, minha vizinha do 502. — Zuleide! Que bom te ver! — ela disse animada. — Esse é seu neto? Que menino lindo!
Sorri amarelo. — É sim, Neide. Esse é o Lucas.
Ela se abaixou para falar com ele: — Oi, campeão! Tá gostando de ficar com a vovó?
Lucas deu de ombros. Neide riu e olhou para mim: — Aproveita cada momento, viu? Netos são bênção!
Fechei a porta e senti uma vontade imensa de chorar. Por que eu não conseguia sentir essa bênção? Por que tudo em mim era peso?
Quando Camila voltou para buscar o Lucas, ela percebeu meu semblante cansado.
— Mãe, tá tudo bem?
— Tá sim, filha. Só tô meio cansada hoje.
Ela olhou para mim com preocupação. — Você não gosta de ficar com o Lucas, né?
Fui pega de surpresa. — Não é isso…
— É sim, mãe. Eu percebo. Você nunca brinca com ele, nunca pergunta das coisas dele…
Senti o rosto arder de vergonha. — Camila… eu…
Ela suspirou fundo. — Eu só queria que vocês fossem mais próximos. Ele sente sua distância.
Fiquei em silêncio enquanto ela pegava as coisas do Lucas e saía pela porta. Quando a porta se fechou, desabei no sofá e chorei como há muito tempo não chorava.
Naquela noite, não consegui dormir. Fiquei pensando em tudo: na minha relação com minha mãe, com minha filha, agora com meu neto. Sempre fui uma mulher dura, criada para ser forte. Meu marido morreu cedo; criei Camila sozinha enquanto trabalhava como enfermeira no Hospital das Clínicas. Nunca tive tempo para delicadezas ou mimos. Talvez por isso agora eu não saiba como ser avó.
No dia seguinte, resolvi procurar ajuda. Liguei para Dona Neide e perguntei se ela conhecia algum grupo de apoio para avós na igreja do bairro. Ela ficou surpresa com meu pedido, mas disse que sim.
Na reunião da igreja, ouvi outras mulheres falando dos netos com tanto amor e orgulho que me senti ainda mais deslocada. Mas uma delas, Dona Cida, contou que também teve dificuldade de se aproximar da neta depois que perdeu o filho num acidente.
— Às vezes a dor endurece a gente por dentro — ela disse olhando nos meus olhos. — Mas o amor pode ser aprendido. Tem dia que é só insistir um pouquinho mais.
Voltei para casa com aquilo martelando na cabeça. Será que eu podia aprender a amar meu neto?
Na semana seguinte, quando Camila pediu para eu ficar com Lucas de novo, tentei fazer diferente. Sentei no chão com ele e perguntei sobre seus desenhos favoritos. Ele me mostrou um super-herói chamado “Capitão Brasil” que ele mesmo inventou.
— Ele salva as pessoas dos bandidos e ajuda os pobres — explicou com brilho nos olhos.
Sorri pela primeira vez em muito tempo. — Que bonito, Lucas! Você quer desenhar o Capitão Brasil comigo?
Ele assentiu animado e passamos a tarde desenhando juntos. No fim do dia, ele me abraçou apertado antes de ir embora.
Ainda não sinto aquele amor arrebatador que todos falam. Mas sinto um fio de esperança crescendo dentro de mim — talvez seja assim que começa.
Às vezes me pergunto: quantas avós sentem o mesmo que eu mas têm vergonha de admitir? Será que o amor pode mesmo ser aprendido ou é só mais uma expectativa que colocam sobre nós? E você aí do outro lado: já sentiu esse vazio também?