Tudo Dei Pelos Meus Filhos — Agora, Sou Só Mais Uma Idosa Esquecida?

— Dona Maria, a senhora vai querer pão hoje?

A voz da moça da padaria ecoa pelo portão, mas eu nem me mexo. Fico ali, sentada na cadeira de balanço, olhando o céu cinza de Belo Horizonte, sentindo o peito apertado. Não é fome que me dói. É outra coisa. Algo que não tem nome, mas que me consome devagarinho.

Meu nome é Maria das Graças. Tenho setenta e dois anos e uma vida inteira dedicada aos meus filhos. E agora, só me resta o silêncio da casa grande demais para mim. O eco dos risos infantis virou lembrança. O cheiro de café fresco, que antes enchia a cozinha de manhã cedo, agora se mistura ao cheiro de mofo dos cômodos fechados.

Lembro do tempo em que eu e o Antônio, meu marido, fazíamos de tudo para dar o melhor para nossos meninos: Juliana e Rafael. Morávamos num barraco de madeira no Aglomerado da Serra, mas nunca faltou comida na mesa. Eu lavava roupa para fora, ele era pedreiro. O dinheiro era contado, mas a esperança era grande.

— Mãe, posso levar pão com mortadela pra escola? — Juliana pedia, olhos brilhando.

— Pode, minha filha. E leva também um abraço meu pra professora! — respondia, tentando esconder a vergonha de não poder dar mais.

Quando chovia forte e a água invadia tudo, eu passava a noite acordada, tirando balde d’água do chão e rezando para que eles não adoecessem. Quando Rafael ficou doente de bronquite, vendi minha aliança para comprar o remédio. Não doeu perder o ouro. Doeu ver meu menino com falta de ar.

O tempo passou. Lutamos muito para sair dali. Antônio conseguiu um emprego fixo numa obra grande e eu fui trabalhar como cozinheira numa escola particular. Juntamos cada centavo até comprar esta casa simples no bairro Santa Tereza. Era pequena, mas era nossa. Os meninos cresceram estudando em escola pública, sempre com uniforme limpinho e lanche feito em casa.

— Mãe, quero ser médica! — Juliana dizia.

— E eu engenheiro! — Rafael completava.

Eu sorria, mesmo sabendo que talvez não desse conta de bancar faculdade. Mas Deus foi bom: Juliana passou na UFMG, Rafael conseguiu bolsa numa faculdade particular. Fizemos vaquinha entre vizinhos para comprar os livros deles. Antônio trabalhava dobrado para pagar passagem e material.

Quando Juliana se formou, foi uma festa! Chorei tanto naquele auditório lotado…

— Isso é pra senhora, mãe! — ela disse, me abraçando forte.

Rafael também se formou logo depois. Os dois arrumaram emprego rápido. Eu e Antônio achamos que agora seria nossa vez de descansar um pouco, viajar para ver o mar — sonho antigo dele.

Mas aí veio a doença do Antônio. Um câncer agressivo no estômago. Em menos de um ano, ele se foi. Fiquei viúva aos sessenta e cinco anos.

No velório, Juliana chorou muito. Rafael ficou sério, calado.

— Mãe, qualquer coisa que precisar, é só ligar — ele disse.

Nos primeiros meses, eles vinham sempre aqui em casa. Trazendo netos, comida pronta, alegria. Mas aos poucos as visitas rarearam.

— Mãe, hoje não vai dar pra ir aí… — Juliana avisava pelo WhatsApp.

— Tô atolado no trabalho… — Rafael justificava.

Eu entendia. Vida corrida, filhos pequenos, trânsito caótico… Mas o tempo foi passando e as mensagens viraram só figurinhas de bom dia em grupos de família.

Um dia acordei com dor forte no peito. Fui sozinha ao posto de saúde. O médico disse que era ansiedade misturada com pressão alta.

— A senhora mora sozinha? — ele perguntou.

— Moro… mas meus filhos moram perto — menti.

Saí do posto com receita de remédio caro e um nó na garganta. Pensei em pedir ajuda para Juliana ou Rafael, mas lembrei das contas deles: escola dos netos particular, prestação do carro novo…

Fui à farmácia e pedi só metade dos comprimidos.

Na semana seguinte tentei ligar para Juliana:

— Oi mãe! Tá tudo bem? Tô numa reunião agora… depois te ligo! — ela disse apressada.

Nunca ligou.

Rafael só responde com áudios curtos:

— Tá tudo certo aí? Qualquer coisa avisa!

Mas nunca aparece.

No Natal passado preparei uma ceia simples: arroz com frango e farofa. Arrumei a mesa com as louças bonitas do meu casamento. Esperei até meia-noite olhando pela janela. Ninguém veio. Só recebi mensagem:

— Feliz Natal mãe! Te amamos!

Chorei baixinho para não assustar os vizinhos.

Outro dia encontrei Dona Cida na feira:

— Uai Maria, cadê seus meninos? Nunca mais vi por aqui!

Fingi um sorriso:

— Estão trabalhando muito…

Ela me olhou com pena. Senti vergonha de ser aquela mãe esquecida.

Tentei me animar: comecei a fazer crochê para vender na igreja. Mas as mãos doem com a artrose. O dinheiro mal dá para pagar a conta de luz.

Às vezes penso em vender a casa e ir morar num asilo público. Mas lembro do Antônio dizendo:

— Aqui é nosso lar! Aqui criamos nossos filhos!

E fico.

Outro dia criei coragem e mandei mensagem no grupo da família:

— Filhos, estou precisando conversar com vocês…

Juliana respondeu depois de dois dias:

— Mãe, tá tudo bem? Precisa de dinheiro?

Rafael nem respondeu.

Não é dinheiro que quero. É abraço, é conversa fiada na cozinha enquanto faço café. É ouvir os netos correndo pela sala como antigamente.

Me pergunto onde foi parar todo aquele amor que plantei? Será que errei em dar demais? Será que mimei meus filhos ao ponto deles acharem que mãe não sente falta?

Outro dia ouvi uma vizinha dizer:

— Hoje em dia filho só lembra de mãe quando precisa de favor ou quando ela morre e deixa herança…

Doeu ouvir isso. Porque parece verdade.

Às vezes penso em bater na porta da Juliana sem avisar. Mas tenho medo de ser incômoda na vida dela tão cheia de compromissos importantes.

O tempo passa devagar quando se está só. O rádio faz companhia durante o dia; à noite rezo para Deus não me deixar esquecer quem sou.

Sei que tem muita mãe como eu por esse Brasil afora: mulheres que deram tudo por seus filhos e agora vivem esquecidas nos cantos das casas vazias.

Será que nossos filhos vão perceber antes que seja tarde? Será que um dia vão entender que carinho não se compra nem se adia?

Eu sigo esperando por um telefonema simples:

— Mãe, tô com saudade!

Enquanto isso, pergunto: será que amar demais é erro? Ou será que o mundo ficou mesmo frio demais?