A Última Festa de Dona Zuleide

— A senhora está perdida? — perguntou a moça do caixa, sem sequer levantar os olhos do celular.

Senti o calor subir pelo rosto, misturado ao suor que já escorria da caminhada sob o sol de Goiânia. Meus dedos apertaram ainda mais a sacola plástica amassada, onde eu guardava as economias de meses: notas pequenas, algumas moedas, tudo contado. Respirei fundo, tentando ignorar o olhar de julgamento das duas vendedoras, que cochichavam atrás do balcão.

— Eu… queria saber se vocês têm vestidos de festa — minha voz saiu baixa, quase um sussurro.

A mais nova das vendedoras, uma moça de cabelo liso e maquiagem impecável, riu de canto de boca:

— Festa? Pra senhora? — Ela olhou para minha roupa: uma saia desbotada e uma blusa que já vira dias melhores. — Acho que não temos nada do seu tamanho, não.

O coração apertou. Lembrei da minha neta, Ana Clara, me pedindo para ir à formatura dela. “Vó, você tem que ir! Quero que todo mundo veja como você é linda!” Linda… Eu, que mal me reconhecia no espelho desde que o câncer levou metade do meu cabelo e a vida levou o resto das minhas vaidades.

— Talvez eu possa dar uma olhada? — insisti, tentando sorrir.

A outra vendedora bufou e apontou para um canto da loja:

— Os vestidos estão ali. Mas são caros, viu? — enfatizou, como se quisesse me poupar do constrangimento de perguntar o preço.

Caminhei até as araras. Passei os dedos pelas rendas e cetins, sentindo a textura dos tecidos como quem toca um sonho distante. Lembrei de quando eu costurava meus próprios vestidos para as festas da igreja em Morrinhos. Lembrei do meu marido, Antônio, que sempre dizia que eu era a mulher mais elegante do bairro, mesmo quando só tínhamos dinheiro para comprar tecido na feira.

Meus olhos pararam em um vestido azul-marinho, simples, mas bonito. Peguei-o com cuidado e fui até o provador. As vendedoras trocaram olhares e uma delas murmurou:

— Vai rasgar o vestido…

Lá dentro, olhei meu reflexo no espelho rachado. A pele marcada pelo tempo, os olhos fundos de quem já chorou demais. Mas ali estava eu, tentando mais uma vez ser parte do mundo das festas, das alegrias.

Vesti o azul-marinho. Ficou um pouco justo na barriga, mas cobria meus braços finos e caía bem nos meus quadris largos. Por um instante, vi a jovem Zuleide de antigamente: cheia de sonhos e coragem.

Saí do provador com o vestido nas mãos.

— Quanto custa esse aqui? — perguntei.

A vendedora mais velha olhou para mim como se eu tivesse pedido para comprar a loja inteira.

— R$ 480. Tem certeza que quer experimentar? — disse em voz alta, para que todos ouvissem.

Senti as pernas bambas. Eu tinha R$ 320 na sacola. Era tudo que consegui juntar vendendo bolos na vizinhança e economizando até no gás.

— Eu… só tenho trezentos e vinte — falei baixinho.

As duas riram.

— Então não vai dar pra senhora hoje — disse a mais nova, já se virando para atender outra cliente.

Fiquei ali parada, segurando o vestido como se fosse meu último pedaço de dignidade. Uma lágrima escorreu antes que eu pudesse segurar.

De repente, ouvi uma voz atrás de mim:

— Dona Zuleide? É a senhora mesmo?

Virei-me devagar. Era Mariana, filha da dona Lourdes, minha vizinha antiga do bairro. Ela trabalhava ali agora?

— Mariana! Minha nossa… — tentei sorrir.

Ela me abraçou forte.

— O que aconteceu? Por que está chorando?

Expliquei tudo em poucas palavras. Mariana olhou feio para as colegas:

— Vocês não têm vergonha? Essa mulher aqui já ajudou muita gente nesse bairro! — Depois se virou para mim: — Dona Zuleide, espera aqui.

Ela foi até o gerente e conversou baixinho. Voltou sorrindo:

— O gerente autorizou um desconto especial pra senhora. Pode levar o vestido por R$ 320.

Não consegui segurar o choro. Abracei Mariana como se fosse minha própria filha.

Na saída da loja, as vendedoras me olharam com desprezo. Mas eu saí de cabeça erguida, com meu vestido azul-marinho embalado num saco bonito.

Na noite da formatura, Ana Clara me esperava no portão da escola com os olhos brilhando:

— Vó! Você está linda! — Ela me abraçou forte e tirou várias fotos comigo.

No salão lotado, algumas mães cochicharam ao ver meus cabelos ralos e minhas sandálias velhas. Mas Ana Clara me apresentou para todos:

— Essa é minha avó! Ela é minha inspiração!

Naquele momento, percebi que o vestido era só um detalhe. O que importava era estar ali por ela — e por mim mesma.

Quando voltei pra casa naquela noite, sentei na cama e olhei para o vestido pendurado na cadeira. Pensei em tudo que vivi: as dificuldades, os julgamentos, as pequenas alegrias.

Será que um dia as pessoas vão enxergar além das aparências? Será que vão entender que cada ruga conta uma história?