Apenas Amigos?
— Alô? — minha voz saiu trêmula, a colher ainda suspensa no ar, o cheiro do arroz com ovo pairando pela cozinha apertada do meu apartamento em Osasco. Era o Rafael. Sempre ele. Meu melhor amigo desde a faculdade, aquele que me fazia rir até chorar, que conhecia todos os meus segredos, até os que eu mesma tentava esconder.
— Oi, Ana. Tô te atrapalhando? — ele perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.
— Não, só… jantando. — Respondi rápido, como se tivesse algo a esconder. Eu nunca cozinho pra mim. Café de manhã, almoço na lanchonete perto do trabalho, à noite kefir com bolacha ou, se a fome aperta, uma omelete improvisada. Nos fins de semana, corro pra casa dos meus pais em Sorocaba. Minha mãe sempre me empurra potes de comida — recusar seria como negar amor.
— Preciso conversar — ele disse, e o silêncio que se seguiu foi pesado. Senti um aperto no peito. Rafael nunca ligava à noite sem motivo.
— Pode falar — tentei soar casual, mas minha mão tremia.
— Você acha que a gente é só amigo mesmo?
A pergunta ficou ecoando na minha cabeça. Eu sempre disse que sim. Sempre repeti pra mim mesma: somos só amigos. Mas cada vez que ele sorria daquele jeito torto, cada vez que me abraçava apertado quando eu chorava por mais um namoro fracassado, eu sentia algo diferente. Algo que eu não queria admitir.
— Rafa… — comecei, mas ele me interrompeu.
— Porque eu não sei mais fingir, Ana. Eu te amo. Não como amigo. Não dá mais pra esconder.
O arroz esfriou no prato. Meu coração disparou. Lembrei de todas as vezes em que minha mãe perguntava por que eu não namorava o Rafael logo de uma vez. “Ele é tão bom menino, Ana!”, ela dizia enquanto enchia meus potes de feijão e carne moída. Eu sempre ria, mudava de assunto. Mas agora não dava pra fugir.
— Eu… — minha voz falhou. Senti vontade de chorar e rir ao mesmo tempo.
— Desculpa — ele murmurou. — Não queria te assustar.
Fiquei em silêncio. O barulho da rua subia pela janela aberta: buzinas, música distante, alguém gritando com o cachorro no prédio ao lado. Minha vida era feita desses ruídos, dessa solidão confortável que eu mesma construí depois de tantos tombos.
— Rafa, você é meu melhor amigo — consegui dizer, mas as palavras soaram ocas até pra mim.
— Só isso? — ele perguntou baixinho.
Fechei os olhos e lembrei do dia em que nos conhecemos na fila do RU da faculdade. Ele dividiu comigo o último pedaço de pudim porque viu que eu estava triste. Depois disso, nunca mais nos separamos. Ele me ajudou a estudar pra concursos, me levou pra casa quando bebi demais nas festas do centro acadêmico, ficou do meu lado quando meu pai ficou doente.
Mas e se eu estragasse tudo? E se desse errado? Eu não sabia amar sem medo.
— Eu não sei… — confessei. — Tenho medo de perder você.
Do outro lado da linha, ouvi um suspiro longo.
— Eu também tenho medo, Ana. Mas pior é fingir que não sinto nada.
A ligação terminou sem resposta definitiva. Fiquei olhando pro prato frio, pro apartamento vazio, pro reflexo cansado no vidro da janela. Pensei em todas as vezes em que me escondi atrás da rotina: trabalho, trânsito, comida requentada e finais de semana na casa dos meus pais como se ainda fosse adolescente.
No sábado seguinte, fui pra Sorocaba como sempre. Minha mãe me recebeu com abraço apertado e cheiro de bolo de fubá recém-saído do forno.
— Tá com uma carinha triste hoje, filha — ela comentou enquanto enchia minha sacola com potes de comida.
Quase contei tudo pra ela ali mesmo, mas engoli as palavras junto com o café forte e doce demais.
No domingo à noite, voltando pra Osasco no ônibus lotado, vi uma mensagem do Rafael: “Podemos conversar amanhã?” Meu coração disparou de novo.
Na segunda-feira, depois do expediente cansativo no escritório de contabilidade onde trabalho há cinco anos, fui encontrar o Rafael na padaria da esquina. Ele já estava lá, mexendo distraído no celular.
— Oi — falei baixinho.
Ele sorriu daquele jeito torto e meu estômago deu um nó.
— Oi, Ana.
Sentamos em silêncio por alguns minutos. Pedi um café preto; ele pediu pão na chapa como sempre fazia.
— Eu pensei muito — comecei. — Sobre tudo isso…
Ele me olhou nos olhos e vi ali toda a verdade que eu tentava negar há tanto tempo.
— Eu também pensei — ele disse. — E acho que vale a pena arriscar. Mesmo que dê errado. Mesmo que a gente se machuque.
Senti as lágrimas querendo cair. Não era só medo de perder o amigo; era medo de perder o pouco controle que eu tinha sobre minha vida tão certinha e previsível.
— Eu tenho medo — repeti baixinho.
Ele pegou minha mão por cima da mesa.
— Eu também tenho. Mas tô aqui.
Naquele momento percebi que talvez amar fosse isso: arriscar mesmo com medo, abrir mão das certezas e aceitar o desconhecido.
Voltamos juntos pro meu apartamento naquela noite. Cozinhei arroz com ovo pra dois dessa vez. Rimos das minhas tentativas desastradas na cozinha e falamos sobre tudo o que nunca tivemos coragem de dizer antes.
No fim das contas, talvez a gente nunca seja só amigo mesmo quando tenta muito ser. Talvez amizade verdadeira seja só o começo de algo maior quando a gente tem coragem de admitir o que sente.
Hoje escrevo essas linhas olhando pro Rafael dormindo no sofá da sala depois de mais uma noite conversando sobre a vida. Ainda tenho medo do futuro, mas agora sei que não estou mais sozinha pra enfrentá-lo.
Será que vale a pena arriscar tudo por amor? Ou é melhor se contentar com a segurança da amizade? E vocês aí do outro lado: já passaram por algo assim?