Entre o Amor e o Medo: O Segredo da Estrada de Terra
— Gabriel, por favor, para o carro! — gritei, sentindo minha voz tremer mais do que eu gostaria de admitir. A chuva batia forte no para-brisa do nosso velho Gol, e a estrada de terra parecia cada vez mais estreita, engolida pelo mato alto e pela escuridão da noite.
Ele não respondeu. Apenas apertou o volante com força, os olhos fixos à frente, como se estivesse fugindo de algo — ou de alguém. Meu coração batia tão rápido que eu mal conseguia respirar. O cheiro de terra molhada misturava-se ao medo que crescia dentro de mim.
— Gabriel! Você não está ouvindo? — insisti, agora quase chorando. — Essa não é a estrada certa! A gente devia ter pegado a BR-101, não esse atalho pelo sítio do seu tio!
Ele finalmente olhou para mim, os olhos escuros brilhando sob a luz fraca do painel.
— Confia em mim, Mariana. Eu sei o que estou fazendo. — Mas sua voz não tinha a firmeza de sempre. Parecia cansado, quase derrotado.
Eu queria acreditar nele. Queria mesmo. Mas desde que minha mãe morreu, há dois anos, eu tinha aprendido a não confiar tão facilmente. As pessoas mentem. As pessoas vão embora. E eu estava cansada de ser deixada para trás.
O carro balançou ao passar por um buraco fundo. Meu celular não pegava sinal ali. Olhei pela janela e só vi árvores retorcidas e sombras dançando sob os relâmpagos.
— Por que você está fazendo isso? — sussurrei, mais para mim mesma do que para ele.
Gabriel suspirou. — Eu preciso te mostrar uma coisa. Algo que ficou escondido tempo demais.
Meu estômago se revirou. Não era a primeira vez que ele falava em segredos, mas sempre desviava do assunto quando eu insistia. Agora, no meio daquela tempestade, tudo parecia ainda mais ameaçador.
O carro parou de repente. O motor morreu com um suspiro rouco. Ficamos em silêncio por alguns segundos, ouvindo apenas o barulho da chuva e dos nossos próprios corações acelerados.
— Vem comigo — ele disse, abrindo a porta e saindo na chuva sem esperar minha resposta.
Fiquei ali, paralisada. Pensei em ligar para meu pai, mas sabia que ele estava trabalhando no hospital naquela noite. Pensei em correr de volta pela estrada, mas minhas pernas pareciam feitas de chumbo.
No fim, abri a porta e segui Gabriel, sentindo a água gelada escorrer pelo meu rosto e encharcar meus tênis velhos.
Caminhamos por uns cinquenta metros até chegarmos a uma clareira escondida entre as árvores. No centro dela havia uma pequena casa de madeira, velha e torta, como se estivesse prestes a desabar.
— O que é isso? — perguntei, minha voz mal saindo.
Gabriel hesitou antes de responder:
— Foi aqui que tudo começou. Meu pai… ele se escondeu aqui depois do acidente com seu irmão.
Senti um choque percorrer meu corpo. Meu irmão, Lucas, tinha morrido num acidente de moto há cinco anos. Sempre disseram que foi culpa dele mesmo — imprudência juvenil. Mas eu nunca soube os detalhes.
— Como assim? — perguntei, sentindo as lágrimas se misturarem à chuva.
Gabriel abaixou a cabeça.
— Meu pai estava bêbado naquela noite. Ele bateu no Lucas e fugiu. Ninguém nunca soube… só eu. E eu nunca tive coragem de te contar.
O mundo girou ao meu redor. Senti vontade de gritar, de bater nele, de correr dali para sempre. Mas minhas pernas continuavam presas ao chão lamacento.
— Por quê? — sussurrei. — Por que você nunca me contou?
Ele caiu de joelhos na lama, as mãos cobrindo o rosto.
— Porque eu te amo! Porque eu tinha medo de te perder! Eu era só um moleque quando tudo aconteceu… Eu vi meu pai destruído pelo remorso, mas também vi sua família se despedaçando sem respostas. Eu não sabia o que fazer!
A raiva queimava dentro de mim como fogo. Tudo fazia sentido agora: os olhares estranhos dos vizinhos, os sussurros nas festas de família, o jeito como meu pai evitava falar sobre aquela noite.
— Você me deixou viver uma mentira! — gritei, sentindo minha voz ecoar pela floresta.
Gabriel chorava baixinho na chuva.
— Me perdoa… Eu não queria te machucar…
Fiquei ali parada por um tempo que pareceu uma eternidade. A chuva foi diminuindo até virar só um chuvisco tímido. Olhei para a casa velha e pensei em todas as vezes que tentei juntar os pedaços da minha família sozinha, sem saber que parte da verdade estava tão perto.
Quando finalmente consegui me mover, fui até Gabriel e me ajoelhei ao lado dele na lama fria.
— Eu não sei se consigo te perdoar agora — falei baixinho. — Mas obrigada por me contar a verdade.
Ele levantou o rosto para mim, os olhos vermelhos e inchados.
— O que você vai fazer?
Olhei para o céu nublado e respirei fundo.
— Vou contar para o meu pai. Ele merece saber. E depois… depois eu vejo se consigo continuar com você ou não.
Gabriel assentiu em silêncio. Nos levantamos juntos e caminhamos de volta para o carro, cada um perdido nos próprios pensamentos.
No caminho de volta para casa, fiquei olhando pela janela enquanto as luzes da cidade apareciam ao longe. Pensei em tudo o que tinha perdido e em tudo o que ainda podia perder.
Será que é possível recomeçar depois de tanta dor? Será que o amor sobrevive à verdade? Ou será que algumas feridas nunca cicatrizam?