Você não precisa ser bonita, basta ser prática?

— Renata, você vai deixar ele te tratar assim? — A voz da minha mãe ecoou pela cozinha enquanto eu tentava esconder as lágrimas cortando cebola. — Você não nasceu pra ser capacho de homem, minha filha!

Eu respirei fundo, sentindo o cheiro do alho fritando na panela. — Mãe, não é assim… O Paulo só está cansado. O trabalho dele é puxado, você sabe.

Ela bufou, batendo a colher de pau no balcão. — Cansado? E você? Trabalha o dia inteiro no escritório, chega em casa e ainda cuida de tudo. Ele só senta no sofá e espera a janta. Isso não é casamento, é escravidão!

Minha irmã mais nova, Camila, entrou na cozinha com o celular na mão e um sorriso debochado. — Deixa a Renata, mãe. Ela gosta de ser prática. Não liga pra essas coisas de romance. O importante é ter alguém pra dividir o boleto do aluguel, né?

O comentário dela doeu mais do que eu gostaria de admitir. Prática. Sempre fui chamada assim. Desde pequena, nunca fui a mais bonita da escola, nem a mais popular. Mas era aquela que resolvia tudo: fazia trabalho em grupo sozinha, ajudava as amigas a estudar, cuidava da casa quando minha mãe ficou doente. Cresci ouvindo que mulher tem que ser forte, tem que dar conta de tudo. E eu dei.

Só que ninguém me ensinou a ser desejada.

Paulo chegou em casa tarde naquela noite. Nem me olhou direito. Sentou-se à mesa, pegou o prato e começou a comer em silêncio. Eu tentei puxar assunto sobre o filho da vizinha que passou no vestibular, sobre o aumento do condomínio, até sobre o tempo. Ele só resmungava ou respondia com “aham”.

No fundo, eu sabia: ele não estava mais ali comigo. Só restava o hábito.

Depois do jantar, fui lavar a louça enquanto ele ligava a TV no futebol. Senti uma raiva surda crescendo dentro de mim. Lembrei das palavras da minha mãe: “Você não nasceu pra ser capacho”.

Mas e se eu tivesse nascido? E se esse fosse meu destino? Ser aquela mulher que ninguém nota na rua, mas todo mundo procura quando precisa de ajuda? Aquela que resolve pepino de todo mundo, mas nunca recebe flores sem motivo?

No domingo seguinte, fomos almoçar na casa da minha sogra em Osasco. A família toda reunida: cunhados barulhentos, sobrinhos correndo pela sala, sogra reclamando do preço da carne. No meio do almoço, Paulo fez uma piada sobre como eu era “prática” até demais — “A Renata não liga pra maquiagem nem pra roupa cara, só quer saber de planilha e marmita!” Todo mundo riu.

Eu sorri amarelo e fingi que não doeu.

Na volta pra casa, Paulo cochilou no carro enquanto eu dirigia pela Marginal Pinheiros engarrafada. Olhei para ele e pensei: será que algum dia ele me olhou de verdade? Ou só enxergou a mulher que facilita a vida dele?

Na segunda-feira, cheguei atrasada no trabalho. Meu chefe, seu Arnaldo, me chamou na sala dele.

— Renata, preciso de você pra resolver um problema no financeiro. Só você consegue dar conta desse pepino.

Sorri automático. — Pode deixar comigo.

Saí da sala sentindo um vazio estranho. Eu era sempre “a que resolve”. Nunca “a que inspira”, “a que encanta”.

No almoço com as colegas do escritório, ouvi elas comentando sobre aplicativos de namoro.

— Eu só dou match com os bonitões — disse Juliana, exibindo fotos no celular. — Homem gosta de mulher arrumada!

— Mas também tem que ser esperta — rebateu Priscila. — Ninguém quer mulher burra.

Fiquei quieta. Ninguém nunca disse que eu era burra. Mas também nunca disseram que eu era bonita.

Naquela noite, Paulo chegou ainda mais tarde e nem jantou comigo. Fui dormir sozinha, ouvindo os carros passando lá fora e sentindo um buraco no peito.

No sábado seguinte, Camila apareceu em casa com uma novidade: estava namorando um cara chamado Rafael, engenheiro bonitão do bairro nobre.

— Ele me leva pra jantar fora toda semana! — ela se gabava para minha mãe na sala. — E ainda me deu um perfume importado!

Minha mãe sorriu orgulhosa para ela e depois olhou pra mim com pena disfarçada.

Fui pro quarto e chorei baixinho. Não era inveja — era tristeza por nunca ter sido tratada assim.

No domingo à tarde, sentei na varanda com meu pai tomando café preto forte.

— Filha — ele disse baixinho — você tá feliz?

Engoli em seco. — Tô sim, pai. Tenho emprego fixo, casa própria…

Ele me olhou nos olhos como só pai sabe olhar. — Felicidade não é só isso não, viu? Você merece alguém que te veja de verdade.

Naquela noite sonhei com minha infância em Guarulhos: eu correndo descalça na rua de terra batida, rindo alto com as amigas antes da puberdade chegar e tudo mudar. Lembrei das primeiras festas juninas na escola: as meninas bonitas ganhavam os pares pra dançar quadrilha; eu ficava ajudando a professora a organizar os doces.

Acordei com uma sensação amarga de perda.

No trabalho, comecei a reparar nas conversas das colegas sobre autoestima e padrões de beleza. Vi como todas sentiam pressão para serem “perfeitas”, mas ao menos eram notadas por isso. Eu era invisível.

Uma tarde dessas, Paulo me ligou dizendo que ia viajar a trabalho por uma semana para Belo Horizonte.

— Vai dar tempo de arrumar a casa enquanto eu estiver fora — ele disse antes de desligar.

Fiquei olhando pro telefone sem acreditar. Arrumar a casa? Era só isso que ele esperava de mim?

Naquela semana sozinha, comecei a sair mais cedo do trabalho e caminhar pelo bairro. Entrei numa livraria pequena perto do metrô Vila Madalena e comprei um livro de poesia da Adélia Prado.

Em casa, sentei na varanda lendo versos sobre mulheres comuns e chorei como há anos não chorava.

No sábado à noite, Camila me chamou pra sair com ela e Rafael num barzinho na Vila Mariana. Fui sem muita vontade.

Lá encontrei um antigo colega da faculdade: André, agora professor universitário.

— Renata! Quanto tempo! Você tá igualzinha… Só mudou o cabelo!

Conversamos horas sobre livros, política e sonhos antigos. Pela primeira vez em muito tempo senti alguém interessado no que eu dizia — não no que eu podia fazer por ele.

Quando voltei pra casa naquela noite chuvosa, Paulo já tinha chegado da viagem sem avisar. Estava sentado no sofá mexendo no celular.

— Onde você estava? — perguntou seco.

— Saí com minha irmã — respondi firme.

Ele bufou e voltou pro celular.

Naquele instante percebi: eu era invisível até dentro da minha própria casa.

No domingo seguinte tomei coragem e sentei com Paulo na sala.

— Paulo… Você ainda me ama?

Ele demorou pra responder:
— Renata… Você é uma mulher incrível. Prática demais até… Mas acho que falta alguma coisa entre nós faz tempo.

Senti um alívio estranho misturado com dor.

— Eu também sinto isso — confessei baixinho.

Decidimos nos separar ali mesmo, sem brigas nem escândalos. Só tristeza e alívio dos dois lados.

Minha mãe chorou quando contei; Camila ficou chocada; meu pai me abraçou forte dizendo “agora começa sua vida de verdade”.

Nos meses seguintes aprendi a viver sozinha de verdade: pintei as paredes do apartamento de amarelo claro; comprei flores toda semana; voltei a dançar forró nas noites de sexta-feira; comecei terapia; fiz novas amizades; reencontrei André algumas vezes para cafés longos e conversas sinceras.

Descobri que posso ser prática sim — mas também posso ser sonhadora, sensível e até vaidosa quando quero. Não preciso ser bonita para os outros; preciso me sentir viva para mim mesma.

Hoje olho no espelho e vejo uma mulher comum: cabelo castanho preso num coque torto, olheiras fundas de quem trabalha muito… Mas vejo também alguém inteira pela primeira vez na vida.

E me pergunto: quantas mulheres brasileiras vivem assim? Quantas aceitam ser práticas porque acham que não merecem mais? Será mesmo que basta ser útil para ser feliz?

E você aí do outro lado: já se sentiu invisível por não se encaixar nos padrões? Até quando vamos aceitar menos do que merecemos?