O Nascimento do Meu Destino: Entre a Sorte e a Dor

— Dona Marta, olha só! Sua filha nasceu com o véu da sorte! — exclamou Dona Cida, a parteira, segurando meu corpinho ainda envolto pela membrana fina e brilhante. Minha mãe, suada e exausta, sorriu entre lágrimas. — Então ela vai ser feliz, né? — perguntou, como se aquela frase pudesse garantir meu futuro.

Até os cinco anos, minha vida parecia mesmo um conto de fadas. Minha mãe trançava meus cabelos todas as manhãs antes de eu ir para o pré-escolar. Ela me contava histórias de princesas e bichos do mato, e só se irritava quando eu insistia em brincar em vez de aprender as letras. Meu pai, Seu Antônio, era um homem simples, mas fazia questão de me ensinar a andar de bicicleta e me levava para a horta da nossa casa em São Gonçalo. Lá, entre pés de couve e cheiro de terra molhada, ele dizia: — Ana, felicidade é coisa simples. É plantar e colher junto.

Mas a sorte não protege ninguém das tempestades da vida. Tudo mudou numa tarde abafada de dezembro. Eu brincava no quintal quando ouvi gritos vindos da cozinha. Corri até lá e vi minha mãe chorando, o telefone ainda pendurado na parede. — Seu pai… — ela balbuciou — sofreu um acidente na obra.

A partir daquele dia, o riso fácil da minha mãe virou silêncio. Ela passou a trabalhar dobrado como diarista para sustentar a casa. Eu sentia falta do cheiro do feijão dela, do colo quente nas noites de chuva. Comecei a ajudar como podia: lavava louça, cuidava do meu irmãozinho Lucas e tentava não dar trabalho. Mas criança sente tudo. O peso da ausência do meu pai era como uma sombra que crescia em cada canto da casa.

Na escola, virei motivo de piada porque minhas roupas eram sempre as mesmas e o tênis já tinha buraco no dedão. — Olha lá a menina da sorte! — zombavam alguns colegas. Eu queria gritar que sorte nenhuma me protegia da fome ou da saudade.

Uma tarde, voltando da escola, encontrei minha mãe sentada na calçada, chorando baixinho. Sentei ao lado dela e perguntei:
— Mãe, por que a gente não é mais feliz?
Ela me olhou com olhos vermelhos e cansados:
— Filha, felicidade não é todo dia. Mas a gente aprende a encontrar alegria nas pequenas coisas.

Aos dez anos, comecei a trabalhar com minha mãe nas casas de família. Lustrava móveis enquanto ela lavava banheiros. Às vezes, as patroas nos tratavam como invisíveis; outras vezes, nos olhavam com pena. Uma delas, Dona Regina, certa vez comentou:
— Dizem que quem nasce com o véu é abençoado… Você acredita nisso?
Eu sorri sem graça e respondi:
— Acho que bênção é ter mãe forte igual a minha.

O tempo passou e Lucas ficou doente. Uma febre que não cedia, tosse que não parava. O SUS era demorado demais; minha mãe se desesperava cada vez que voltávamos sem resposta do posto de saúde. Vendi minha bicicleta para comprar remédios na farmácia. Vi minha mãe chorar escondida no banheiro porque não tinha dinheiro para tudo.

Numa noite chuvosa, Lucas piorou. Corremos para o hospital público mais próximo. Faltavam médicos, faltava tudo. Ficamos horas esperando até que uma enfermeira nos chamou:
— Só pode entrar um acompanhante.
Minha mãe entrou com ele; fiquei sentada no corredor frio ouvindo gritos e choros de outros pacientes. Quando amanheceu, Lucas já não estava mais entre nós.

Depois disso, minha mãe se perdeu em si mesma. Passou a beber escondido; às vezes sumia por dias. Eu tinha quinze anos e precisei aprender a sobreviver sozinha. Trabalhei em padaria, vendi bala no sinal, limpei quintal dos vizinhos. A cada dia, sentia menos aquela tal sorte que disseram que eu tinha ao nascer.

Aos dezessete anos, conheci Rafael na fila do ônibus. Ele era engraçado e parecia entender minha dor sem que eu precisasse explicar nada. Começamos a namorar e logo fui morar com ele em uma quitinete apertada no bairro vizinho. Achei que finalmente teria paz — mas Rafael também carregava seus próprios fantasmas: desemprego, dívidas, raiva acumulada.

As brigas começaram pequenas: ciúmes bobos, reclamações sobre dinheiro curto. Depois vieram os gritos, os empurrões. Uma noite ele chegou bêbado e me bateu pela primeira vez. Olhei para o espelho depois e vi o rosto inchado; lembrei das palavras da parteira: “Ela vai ser feliz”. Senti raiva daquela promessa vazia.

Fugi de casa com uma mochila nas costas e R$ 50 no bolso. Dormi na rodoviária por duas noites até conseguir abrigo numa casa de apoio para mulheres vítimas de violência doméstica. Lá conheci outras Anas: mulheres marcadas pela vida, mas cheias de coragem para recomeçar.

Com ajuda das assistentes sociais, consegui um emprego como auxiliar de cozinha num restaurante popular do centro do Rio. Trabalhava duro todos os dias e estudava à noite para terminar o ensino médio. Aos poucos fui reconstruindo minha autoestima; aprendi que felicidade não é um presente do destino — é luta diária.

Hoje tenho vinte e oito anos e sou chefe de cozinha num restaurante pequeno mas acolhedor em Niterói. Minha mãe conseguiu se tratar e mora comigo num apartamento simples; ela voltou a sorrir quando nasceu minha filha Sofia — meu maior motivo para acreditar em dias melhores.

Às vezes olho para Sofia dormindo e penso: será que ela herdou minha sorte? Ou será que sorte mesmo é ter força para seguir em frente apesar de tudo?

E você? Acredita que existe gente realmente abençoada ou somos todos sobreviventes das nossas próprias batalhas?