Entre o Amor de Vó e a Ausência de Mãe: Uma História de Dor e Superação

— Você não tem vergonha, Patrícia? — A voz da minha avó ecoou pela sala abafada do pequeno apartamento em Osasco, enquanto minha mãe desviava o olhar, mexendo nervosamente na alça da bolsa cara. Eu tinha doze anos e já entendia que aquele era mais um capítulo da novela triste que era a nossa família.

Minha mãe, Patrícia, sempre foi uma mulher bonita, cheia de sonhos e vontades próprias. Mas nunca fui prioridade para ela. Desde que me entendo por gente, era Dona Lourdes quem me acordava cedo para ir à escola, quem fazia mingau de aveia quando eu estava doente, quem sentava ao meu lado para ouvir meus segredos de menina. Minha mãe? Ela estava sempre em algum lugar distante: ora em Salvador com um namorado novo, ora em Florianópolis tentando recomeçar a vida.

Lembro de uma noite chuvosa em que esperei horas na janela, olhando os carros passarem na rua enlameada. Dona Lourdes me cobriu com o cobertor e disse:

— Filha, sua mãe te ama do jeito dela. Às vezes a vida é difícil pra gente também.

Mas eu sabia que não era só a vida. Era escolha. E eu não era escolhida.

Os anos passaram e a ausência da minha mãe virou uma ferida aberta. Na escola, inventava histórias sobre viagens com ela, só para não admitir que passava os fins de semana ajudando minha avó a fazer sabão caseiro pra vender na feira. Quando as outras crianças falavam das mães nos eventos escolares, eu sorria amarelo e dizia que a minha estava trabalhando muito.

Aos dezessete anos, Dona Lourdes adoeceu. Diabetes, pressão alta, um AVC que a deixou com dificuldades para andar. Eu larguei o cursinho pré-vestibular para cuidar dela. Minha mãe? Mandava mensagens esporádicas pelo WhatsApp:

— Como está a mãe?

— Precisa de alguma coisa?

Mas nunca vinha. Nunca ligava de verdade. Nunca aparecia.

Até que um dia, Dona Lourdes piorou e precisou ser internada. O hospital público estava lotado; passei noites sentada em cadeiras duras, esperando notícias. Quando finalmente consegui falar com minha mãe, ela disse:

— Não posso ir agora, filha. Estou resolvendo umas coisas importantes aqui em Porto Alegre.

Eu queria gritar. Queria perguntar se eu não era importante também.

Dona Lourdes se foi numa manhã fria de junho. O enterro foi simples; poucos vizinhos, alguns parentes distantes. Minha mãe chegou atrasada, com óculos escuros e um vestido preto elegante demais para aquela ocasião. Chorou baixinho, mas não me abraçou.

Depois do enterro, veio a surpresa: minha mãe queria vender o apartamento onde cresci com minha avó. Disse que precisava do dinheiro para “recomeçar” mais uma vez.

— Você não entende, Mariana? Eu também tenho direito! — ela gritou comigo na sala vazia, onde ainda pairava o cheiro do perfume da vovó.

— Direito? Onde você estava quando precisei de você? Quando a vovó precisou? — respondi, sentindo o peito arder.

Ela virou o rosto, como sempre fazia quando não queria encarar a verdade.

A briga virou processo judicial. Minha mãe contratou um advogado caro; eu consegui ajuda da Defensoria Pública. Passei meses revivendo toda a dor da infância nos corredores frios do fórum. Lembro do dia em que sentei diante da juíza e contei tudo:

— Fui criada pela minha avó porque minha mãe escolheu não estar presente. Agora ela quer tirar o único lar que me resta.

Minha mãe chorou no tribunal. Pela primeira vez vi lágrimas sinceras nos olhos dela — ou talvez fossem só lágrimas de raiva por ter sido exposta.

O processo se arrastou por quase dois anos. Durante esse tempo, morei de favor na casa de uma amiga, trabalhei como caixa em supermercado para pagar as contas e tentei não desmoronar. Às vezes sonhava com Dona Lourdes me dizendo para ser forte:

— Não deixa ninguém te tirar o que é seu, Mariana.

No fim, consegui manter metade do apartamento. Não era justo — eu sabia — mas era o possível dentro da lei. Minha mãe sumiu de novo depois disso; ouvi dizer que foi tentar a vida no interior de Minas Gerais.

Hoje moro sozinha no mesmo apartamento onde cresci. Cada canto tem lembranças: o cheiro do café da vovó pela manhã, as risadas baixas enquanto assistíamos novela juntas, o barulho dos chinelos dela arrastando pelo corredor.

Às vezes me pego olhando fotos antigas e me pergunto: por que algumas mães escolhem partir? Por que é tão difícil para algumas pessoas amar quem mais precisa delas?

Se você já sentiu a dor de ser deixado para trás por quem deveria te proteger… você acha que é possível perdoar? Ou certas ausências nunca deixam de doer?