O Amor de Dona Lourdes: Entre Agulhas e Esperança
— Dona Lourdes, ela não vai aguentar até amanhã. — A voz do Dr. Ricardo ecoou pelo corredor estreito, abafada pelo som das máquinas e pelo cheiro forte de éter. Eu estava parada na porta do quarto 207, com o coração apertado, olhando para Mariana, aquela menina de olhos grandes e assustados, que parecia ter o peso do mundo sobre os ombros magros.
Mariana tinha acabado de completar quinze anos. Não havia bolo, nem parabéns, nem ninguém para segurar sua mão. Seus pais morreram há dois meses num acidente de ônibus na estrada de Itabira. O abrigo municipal virou seu lar provisório, mas agora era o hospital público de Belo Horizonte que a acolhia — ou melhor, tentava.
Eu já tinha visto muita coisa nesses quarenta anos de enfermagem. Vi gente morrer sozinha, vi criança ser esquecida pela família, vi médico tratar paciente como número. Mas aquela menina me atravessou feito faca. Talvez porque eu mesma tivesse perdido meu filho para a violência do morro anos atrás. Talvez porque, no fundo, eu sabia que ninguém deveria enfrentar a morte sem um pouco de amor.
— Dona Lourdes? — Mariana sussurrou, a voz rouca. — A senhora pode ficar aqui comigo?
Sentei ao lado dela e segurei sua mão gelada. O monitor cardíaco apitava baixinho, como se também tivesse medo de incomodar.
— Eu não vou sair daqui, minha filha. — Tentei sorrir, mas minha garganta fechou.
O diagnóstico era cruel: cardiopatia grave, agravada por uma infecção que não cedia aos antibióticos baratos do SUS. O Dr. Ricardo queria transferi-la para um hospital particular, mas não havia vaga — e quem pagaria? O Estado? O abrigo? Ninguém queria assumir a responsabilidade.
No plantão da noite, enquanto as outras enfermeiras cochilavam no refeitório e os médicos discutiam futebol na sala dos residentes, eu fiquei ali. Passei pano no suor da testa dela, contei histórias da minha infância em Sabará, rezei baixinho pedindo a Deus que não levasse Mariana tão cedo.
— Dona Lourdes… — Ela me olhou com aqueles olhos fundos. — Por que as pessoas vão embora?
Engoli seco. Lembrei do meu filho, do enterro sem corpo porque ninguém achou nada além do boné dele.
— Às vezes, Mariana, as pessoas vão embora porque Deus precisa delas lá em cima. Mas às vezes elas ficam aqui dentro da gente. — Toquei o peito dela com carinho.
Na manhã seguinte, o Dr. Ricardo entrou apressado:
— Lourdes, preciso da ficha dela! O diretor quer liberar o leito pra outro paciente.
— Ela não tem pra onde ir! — Falei alto demais. — Vai jogar uma menina na rua?
Ele me olhou como se eu fosse louca.
— Lourdes, você sabe como é… Não tem verba! Não tem vaga! Não tem família! — Ele suspirou. — Eu também não gosto disso.
Fiquei ali parada, sentindo o peso da farda branca e das olheiras profundas. Pensei em largar tudo e ir embora. Mas olhei pra Mariana e vi que ela precisava de mim mais do que nunca.
Naquela tarde, sentei ao lado dela e comecei a trançar seu cabelo.
— Sabe, Mariana… Quando meu filho morreu, eu achei que nunca mais ia conseguir amar ninguém. Mas aí vieram tantos pacientes… E cada um deixou um pedacinho dentro de mim.
Ela sorriu fraco.
— A senhora é minha família agora?
Chorei baixinho. Não sabia responder.
Os dias passaram devagar. O hospital era uma máquina de moer gente: faltava gaze, faltava remédio, faltava esperança. Mas eu continuei ali. Trouxe bolo de fubá escondido na bolsa, li poesias de Cecília Meireles pra ela dormir, inventei histórias sobre um futuro onde ela seria médica e salvaria outras crianças como ela.
Uma noite, Mariana teve uma crise forte. O monitor disparou alarmes vermelhos. Corri para chamar o Dr. Ricardo.
— Ela precisa de cirurgia urgente! — Ele gritou para os internos.
Mas não havia vaga na UTI. Não havia anestesista disponível. Não havia nada além do desespero.
Fiquei ao lado dela a noite inteira, segurando sua mão e cantando baixinho uma canção de ninar que minha mãe cantava pra mim quando eu era pequena:
“Nana neném,
Que a cuca vem pegar…”
No amanhecer, Mariana abriu os olhos devagar.
— Dona Lourdes… Se eu for embora… A senhora promete que não vai esquecer de mim?
Beijei sua testa suada.
— Nunca vou esquecer você, minha filha.
Naquele dia, ela se foi. Silenciosa como chegou. O hospital seguiu seu ritmo frio: outro paciente ocupou o leito 207 antes do almoço.
Eu voltei pra casa com o uniforme sujo de lágrimas e tristeza. Sentei na varanda do meu barraco e fiquei olhando o céu cinza de Belo Horizonte.
No dia seguinte voltei ao trabalho como sempre fiz nos últimos quarenta anos. Mas algo mudou em mim. Passei a olhar cada paciente com mais cuidado, mais carinho. Passei a lutar por eles com mais força diante dos médicos apressados e da burocracia cruel.
Às vezes me pego pensando: quantas Marianas existem por aí? Quantas crianças são esquecidas nos corredores dos hospitais públicos? Quantos profissionais se deixam endurecer pela rotina?
Hoje entendo que amor não salva vidas sozinho — mas sem ele, nenhuma vida faz sentido.
E você? Já sentiu que um gesto simples pode mudar tudo? Será que ainda temos tempo de fazer diferente?