Minha nora descansa no hospital enquanto eu e meu marido nos desdobramos com os netos. Ela fez isso de propósito?
— Dona Lúcia, a senhora pode ficar mais uns dias com as crianças? — escuto a voz do meu filho Rafael pelo telefone, enquanto tento impedir o pequeno Gabriel de derrubar o copo de suco na mesa da cozinha. O mais velho, Pedro, já está berrando do quarto: — Vó, o Gabriel pegou meu carrinho! — Eu não aguento mais, penso, sentindo o peso dos meus sessenta e três anos nas costas e nas pernas.
Minha nora, Camila, está internada há quase duas semanas na maternidade do Hospital Municipal de São Bernardo. Dizem que é por precaução, porque a pressão subiu e ela está no nono mês da terceira gravidez. Mas não consigo tirar da cabeça que ela simplesmente quis fugir do caos doméstico. Desde que ela foi para o hospital, eu e meu marido, Seu Orlando, estamos vivendo como se tivéssemos voltado trinta anos no tempo — só que agora sem juventude, sem paciência e sem saúde.
— Mãe, só você pode ajudar — Rafael insiste toda noite pelo WhatsApp. Ele trabalha de motorista de aplicativo, faz jornada dupla para pagar o aluguel do apartamento deles no bairro Assunção. — Eu não posso largar tudo agora. Você sabe como tá difícil arrumar passageiro ultimamente.
Eu sei. Mas também sei que Camila sempre deixou os meninos com a mãe dela quando precisava. Agora, a sogra virou a única solução. A mãe dela está em Minas, cuidando do pai doente. Sobra pra mim.
Na primeira noite sem Camila em casa, Pedro fez xixi na cama e Gabriel acordou chorando de madrugada porque queria a mãe. Eu sentei na beirada da cama deles, cantei música de ninar antiga e chorei baixinho no escuro. Não por eles — por mim mesma. Porque eu sabia que aquilo era só o começo.
No segundo dia, tentei dar banho nos dois juntos para economizar tempo. Gabriel escorregou e bateu a cabeça na borda da banheira. Choro, gelo na testa, culpa me corroendo. Liguei para Camila no hospital:
— Ele tá bem? — ela perguntou, voz calma demais pro meu gosto.
— Tá sim… só assustou. Mas olha, Camila, não sei até quando vou dar conta disso tudo.
— Dona Lúcia, é só mais uns dias. O médico disse que é melhor esperar as contrações começarem naturalmente.
Desliguei sentindo raiva e vergonha ao mesmo tempo. Raiva porque parecia fácil pra ela falar assim, deitada numa cama de hospital com ar-condicionado e comida pronta. Vergonha porque eu sabia que ninguém mais podia ajudar.
Na semana seguinte, Pedro pegou uma gripe forte. Fiquei noites acordada medindo febre e dando xarope. Orlando reclamava:
— Lúcia, você vai acabar ficando doente também! Não somos mais jovens!
Mas quem ia cuidar deles? Rafael mal parava em casa. Quando chegava, era só pra tomar banho e dormir algumas horas antes de sair de novo.
No grupo da família no WhatsApp, Camila mandava fotos do barrigão e selfies sorrindo com as amigas do quarto:
— Olha só como estou sendo mimada aqui! Até brigadeiro trouxeram pra mim!
Eu mostrava pro Orlando e ele só balançava a cabeça:
— Parece até férias…
No fundo, eu sabia que gravidez não é fácil pra ninguém. Mas não conseguia evitar o pensamento: será que ela não poderia ter esperado mais um pouco? Será que precisava mesmo ficar tanto tempo internada?
No oitavo dia, liguei pra Camila de novo:
— E aí, já tem previsão de alta?
— Dona Lúcia… o médico acha melhor esperar mais uns dias. Tô com pressão oscilando.
— Mas você tá bem? Porque aqui tá difícil demais…
— Eu sei… mas é pro bem do bebê.
Desliguei sentindo um nó na garganta. Fui pra cozinha preparar arroz com feijão pras crianças e comecei a chorar em silêncio enquanto mexia a panela.
À noite, sentei com Orlando na varanda do nosso apartamento simples no Rudge Ramos.
— Você acha que ela fez isso de propósito? — perguntei baixinho.
Ele suspirou:
— Não sei… mas parece cômodo demais pra ela. E pra gente? Quem olha pra gente?
No dia seguinte, Pedro fez birra porque queria ver a mãe. Gabriel jogou comida no chão e eu perdi a paciência:
— Chega! Vão pro quarto agora!
Eles choraram juntos e eu me senti uma bruxa.
Quando Rafael chegou à noite, tentei conversar:
— Filho, não dá mais… Tô exausta. Preciso descansar um pouco também.
Ele me abraçou rápido:
— Mãe, aguenta só mais uns dias… Por favor.
Naquela noite sonhei que estava sozinha numa casa enorme cheia de crianças correndo e gritando. Acordei suando frio.
No décimo segundo dia de internação da Camila, recebi ligação dela:
— Dona Lúcia… acho que vai demorar mais um pouco. O médico quer monitorar até o parto mesmo.
Senti vontade de gritar:
— Camila, você não acha que já tá bom? Aqui tá impossível!
Mas engoli seco e só disse:
— Tá bom… vou tentar segurar as pontas.
Orlando começou a reclamar das dores nas costas. Eu estava com dor no braço direito de tanto carregar Gabriel no colo quando ele fazia manha pra dormir.
No grupo das amigas da igreja, desabafei:
“Meninas, tô cuidando dos netos faz quase duas semanas porque minha nora tá internada esperando o parto… Não sei se aguento mais!”
Vieram respostas de todo tipo:
— Força, Lúcia! Deus dá o fardo conforme a força!
— Tem nora que faz isso mesmo pra descansar…
— Mas gravidez é complicado… Vai ver ela tá mesmo precisando.
Fiquei pensando: será que sou má por duvidar da Camila? Ou será só cansaço?
No décimo quinto dia, Rafael chegou em casa com olheiras profundas:
— Mãe… Camila vai fazer cesárea amanhã cedo.
Senti um alívio misturado com raiva:
— Até que enfim! Porque aqui já não tem mais quem aguente!
Ele sorriu amarelo:
— Obrigado por tudo, mãe… Sem você não sei o que seria da gente.
Na manhã seguinte veio a notícia: nasceu a pequena Sofia! Saudável, linda — Camila mandou foto sorrindo com a bebê nos braços.
Dois dias depois ela voltou pra casa. Achei que ia agradecer pelo sacrifício desses dias todos. Em vez disso ouvi:
— Nossa, Dona Lúcia… como vocês aguentaram? As crianças são fogo!
Sorri amarelo e respondi:
— Pois é… agora são três!
Naquela noite sentei na minha cama e chorei baixinho de novo. Não era tristeza nem raiva — era puro cansaço acumulado. E uma pergunta martelando na cabeça: será que fui injusta com minha nora ou será que ela realmente fugiu das responsabilidades?
E vocês aí: já passaram por algo assim? Até onde vai o papel dos avós? Será que estou exagerando ou toda avó tem direito de cansar?