Sem Silêncio: A História de um Menino que Ouviu o Mar pela Primeira Vez
— Por que logo ele, meu Deus? — ouvi minha mãe sussurrar para meu pai, achando que eu dormia. Eu estava deitado na rede, olhando para o teto de madeira do nosso barraco em Itaúnas, sentindo o coração bater mais alto do que qualquer som que eu jamais ouvira. Eu não tinha orelhas. Nasci assim. E aqui, onde todo mundo se conhece pelo nome e pelo cheiro do café passado, isso era motivo para silêncio… e para cochichos.
Meu pai, José, era pescador. Saía antes do sol nascer, voltava com o rosto queimado e as mãos cheias de calos. Às vezes me levava até a praia, apontava os barcos, os caranguejos, os coqueiros balançando ao vento. Eu só via seus lábios se mexendo. Minha mãe, Dona Rosa, nunca se conformou. Me levava de médico em médico: Conceição da Barra, Vitória, até Belo Horizonte. Sempre a mesma resposta: — Seu filho é saudável, mas… — Esse “mas” pesava como âncora no peito dela.
Na escola, as crianças não perdoavam. — Olha lá o sem-orelha! — gritava Vinícius, enquanto os outros riam. Eu me encolhia na última carteira, desenhava ondas no caderno e sonhava ouvir o barulho delas quebrando na areia. Mais do que tudo, queria ouvir minha mãe dizendo que me amava.
Uma tarde de chuva forte, minha mãe entrou em casa com um jornal amassado nas mãos. — Zé! Olha isso! — gritou para meu pai. Na manchete: “Primeira cirurgia de reconstrução auditiva bem-sucedida em Vitória”. Meu pai largou o prato na pia e sentou pesadamente à mesa. — Rosa… a gente não tem esse dinheiro.
Mas minha mãe era teimosa como maré cheia. Começou a vender bolo de aipim na feira, meu pai pescava até nos dias de ressaca. Os vizinhos ajudaram: Dona Lurdes doou uns trocados escondido do marido, Seu Nivaldo organizou uma rifa de bicicleta velha. Teve quem dissesse: — Pra quê gastar tanto? Deus quis assim! — Mas minha mãe não ouvia.
O dia da cirurgia chegou. Eu tinha nove anos. O hospital era gelado e cheirava a desinfetante. A doutora Fernanda Menezes segurou minha mão: — Hoje vamos tentar um milagre, Lucas. — Não ouvi sua voz, mas vi esperança nos olhos dela.
A cirurgia demorou uma eternidade. Quando acordei, tudo era branco e confuso. Minha mãe chorava de alegria. Meu pai segurava minha mão como se eu fosse sumir se ele soltasse. Passaram-se semanas até tirarem os curativos e testarem os implantes.
O primeiro som que ouvi foi um bip estranho da máquina. Depois, a voz da minha mãe: — Lucas! Lucas! Você está me ouvindo? — As lágrimas escorriam pelo rosto dela enquanto eu olhava ao redor assustado, como se tivesse nascido de novo. Meu pai ficou calado, olhando para o horizonte pela janela.
Voltamos para casa diferentes. Os vizinhos vinham com bolo e presentes. Uns me abraçavam forte, outros só balançavam a cabeça e sorriam sem jeito. Vinícius nunca mais me zoou; um dia até me deu um gibi do Chico Bento e murmurou: — Foi mal por tudo.
Comecei a aprender violão com meu irmão mais velho, Rafael. O primeiro som do mar que ouvi foi inesquecível: o vai-e-vem das ondas parecia conversar comigo. Mas nem tudo ficou fácil depois disso.
Alguns diziam: — Agora que ouve, pensa que é melhor que a gente! — Outros evitavam minha família porque achavam que pedimos demais. Minha avó reclamava com minha mãe: — Rosa, esse não é mais nosso Lucas! Agora todo mundo olha pra ele como se fosse milagreiro… Sinto falta do menino quietinho que sentava no meu colo.
Numa noite abafada, jantando à luz de lamparina porque faltou energia, meu pai disse: — Lucas, você sabe quanto lutamos por isso? — Olhei nos olhos dele e respondi baixinho: — Sei sim, pai… Mas às vezes acho que mudei vocês mais do que vocês me mudaram.
Minha mãe me abraçou forte: — Você é nosso milagre, filho. E cada batalha valeu a pena.
Hoje tenho dezessete anos. Escuto música alta no fone de ouvido, vou à praia com amigos e ajudo meu pai na pesca quando posso. Mas ainda sento sozinho na areia às vezes e penso: Será que as pessoas preferiam aquele menino calado sem orelhas? Ou será que incomoda eu poder falar agora?
Talvez nunca descubra a resposta. Só sei que cada som que escuto hoje me lembra o quanto vale lutar pelo que muitos acham comum.
Você já pensou quanto vale um simples som? Ou até onde iria por alguém que ama?