Nada é o que parece: Segredos do Quinto Andar

— Doutora Ewa, a dona Paczkowska da sala cinco passou a noite inteira implorando pra eu dar roupa e deixar ela ir embora. Ela pediu pra avisar a senhora… — Ana sussurrou, olhando pros lados, como se temesse que as paredes do hospital pudessem ouvir.

Eu respirei fundo, sentindo o peso do jaleco apertar nos ombros. — Obrigada, Ana. Eu cuido disso. — Tentei ajeitar um fio de cabelo que insistia em escapar do coque, mas minhas mãos tremiam. Não era só mais uma manhã no Hospital Municipal Santa Cecília. Algo estava diferente.

Caminhei pelo corredor gelado, desviando dos pacientes e dos familiares que se amontoavam nas cadeiras de plástico azul. O cheiro de desinfetante misturava-se ao café requentado vindo da copa. Quando cheguei à porta da sala cinco, hesitei. Lembrei das palavras de Ana: “Ela pediu pra avisar a senhora…” Por quê? O que ela sabia sobre mim?

Entrei devagar. Dona Paczkowska estava sentada na cama, os olhos fundos e vermelhos de tanto chorar. — Doutora… — a voz dela era um sussurro desesperado — por favor, me deixa ir pra casa. Eu não aguento mais aqui. Eles vão me encontrar…

Sentei ao lado dela, tentando transmitir calma. — Dona Paczkowska, quem vai te encontrar? Aqui a senhora está segura.

Ela olhou ao redor, como se procurasse câmeras escondidas. — Eles sabem tudo sobre mim. Sabem até da senhora… — Ela segurou minha mão com força surpreendente para alguém tão frágil.

Meu coração disparou. O que ela queria dizer com aquilo? Antes que eu pudesse perguntar, a porta se abriu bruscamente. Era meu irmão, Rafael, também médico do hospital, com o rosto tenso.

— Ewa, preciso falar com você agora. É urgente.

Pedi licença à paciente e saímos para o corredor.

— O que foi? — perguntei, já irritada com o tom dele.

— Mãe ligou de novo. Disse que papai sumiu ontem à noite. Você sabe onde ele está?

Senti um frio na espinha. Meu pai tinha histórico de depressão e já havia desaparecido outras vezes. Mas dessa vez parecia diferente. — Não sei, Rafa. Mas agora não posso sair daqui. Tenho plantão até as oito.

Ele passou a mão no rosto, exausto. — Você sempre coloca esse hospital na frente da família.

— Não fala isso! Você sabe o quanto eu me esforço…

— Esforça? Ou foge? Desde que aquela história veio à tona, você só pensa em trabalhar.

Fiquei sem resposta. A “história” era o segredo que nossa família escondia há anos: meu pai tinha outra família em Campinas, e eu fui a primeira a descobrir. Desde então, tudo mudou entre nós.

Voltei para a sala cinco com a cabeça girando. Dona Paczkowska me olhava como se pudesse ler meus pensamentos.

— Doutora… às vezes fugir parece mais fácil, né? Mas os fantasmas seguem a gente onde for.

Engoli em seco. — A senhora precisa confiar em mim. Se quiser conversar…

Ela sorriu triste. — Ninguém escuta de verdade nesse lugar, doutora. Nem a senhora.

Saí dali sentindo uma mistura de raiva e impotência. No corredor, Ana me esperava com uma prancheta nas mãos.

— Ewa, o paciente do quarto dois teve uma crise de ansiedade de novo. E a assistente social quer falar sobre a dona Paczkowska. Dizem que ela não tem família nenhuma pra buscar ela quando tiver alta.

— Eu vou lá — respondi no automático.

No elevador, encostei a cabeça na parede fria e fechei os olhos por um instante. Lembrei da última vez que vi meu pai antes do segredo vir à tona: ele me abraçou forte e disse que eu era sua maior alegria. Depois disso, tudo virou silêncio entre nós.

No consultório da assistente social, ouvi mais uma vez sobre o drama da dona Paczkowska: abandonada pelos filhos, vivendo de favor com uma vizinha até ser internada por tentativa de suicídio. O hospital era seu único abrigo agora.

— Doutora Ewa, ela precisa de acompanhamento psicológico urgente — disse Luciana, a assistente social — mas não temos vaga no CAPS há meses.

— Eu sei… — respondi frustrada — Vou tentar conversar com o psiquiatra de novo.

Ao sair do consultório, vi Rafael sentado no banco do corredor, cabeça baixa nas mãos.

— Alguma notícia do papai? — perguntei baixinho.

Ele balançou a cabeça negativamente.

Sentei ao lado dele e ficamos em silêncio por alguns minutos. O hospital parecia um organismo vivo: gemidos vindos dos quartos, passos apressados dos enfermeiros, gritos abafados de dor ou desespero.

— Você acha que algum dia vamos ser uma família normal? — perguntei sem olhar pra ele.

Rafael deu uma risada amarga. — Normal? Aqui no Brasil? Com essa vida? Acho que ninguém é normal nesse país…

Sorri triste. Ele tinha razão.

No fim do plantão, voltei à sala cinco para ver dona Paczkowska antes de ir embora. Ela dormia profundamente pela primeira vez em dias. Sentei ao lado dela e fiquei observando seu rosto cansado.

Pensei em minha mãe sozinha em casa esperando notícias do marido desaparecido; em Rafael tentando segurar as pontas; em mim mesma tentando salvar todo mundo enquanto mal conseguia respirar.

Na saída do hospital, Ana me parou mais uma vez:

— Doutora Ewa… desculpa perguntar, mas… a senhora tá bem?

Olhei nos olhos dela e quase chorei ali mesmo.

— Não sei, Ana… às vezes acho que ninguém tá bem de verdade.

Caminhei até o ponto de ônibus sentindo o peso do mundo nas costas. O céu cinza de São Paulo parecia refletir meu estado de espírito: carregado de nuvens e promessas não cumpridas.

No ônibus lotado, encostei a testa no vidro e deixei as lágrimas caírem discretamente. Pensei em tudo o que ouvi naquele dia: pedidos de socorro ignorados, famílias despedaçadas por segredos e silêncios.

Será que algum dia vou conseguir perdoar meu pai? Será que algum dia vou conseguir me perdoar por não conseguir salvar todo mundo?

E você aí do outro lado: já sentiu esse peso? Já teve vontade de fugir dos próprios fantasmas?