O Último Sopro da Fazenda Esperança
— Pai, eu não aguento mais! — gritou a Mariana, com os olhos vermelhos de choro, enquanto jogava a mochila surrada sobre a mesa da cozinha. O cheiro de café requentado se misturava ao da terra molhada que vinha da porta aberta. Eu estava sentado, tentando fazer as contas baterem, mas as dívidas sempre pareciam maiores do que o dinheiro.
A fazenda Esperança nunca foi grande coisa. Herdada do meu pai, que herdou do meu avô, era só um pedaço de chão vermelho no interior da Bahia. Duas vacas magras, três cabras teimosas, três patos barulhentos e umas quinze galinhas que botavam ovos quando queriam. O cachorro Zeca era o único que parecia feliz ali, correndo atrás das borboletas como se não houvesse amanhã.
Mas para mim, havia sempre um amanhã — e ele vinha pesado. A seca dos últimos anos tinha acabado com o milho e a mandioca. O preço do leite mal pagava a ração das vacas. E agora, minha filha mais velha queria ir embora para Salvador, tentar a vida de garçonete num restaurante qualquer.
— Mariana, senta aqui — pedi, tentando manter a voz firme. — Você acha que é fácil pra mim? Você acha que eu não queria te dar uma vida melhor?
Ela me olhou com raiva e tristeza misturadas.
— Pai, eu só quero ter escolha! Aqui não tem futuro. Só tem poeira, dívida e tristeza.
Minha esposa, Dona Lúcia, estava calada no canto, mexendo no feijão. Ela sempre foi o pilar da casa, mas ultimamente até ela parecia cansada. O silêncio dela doía mais do que qualquer palavra.
Lembrei do tempo em que a fazenda era cheia de vida. Meu pai acordava cedo para tirar leite, minha mãe fazia pão de queijo no forno à lenha. Os vizinhos vinham ajudar na colheita e a gente dividia tudo: o pouco milho, as histórias e até as lágrimas quando a chuva não vinha.
Agora, os vizinhos tinham ido embora para a cidade. Só restava eu, teimando contra o destino.
Naquela noite, não dormi. Fiquei ouvindo o barulho do vento batendo nas telhas soltas. Pensei em vender tudo e recomeçar em outro lugar. Mas onde? Quem compraria uma terra seca e uma casa caindo aos pedaços?
No dia seguinte, fui até a cidade falar com o Seu Antônio do armazém.
— Zé, você precisa aceitar — disse ele, balançando a cabeça. — A vida mudou. Hoje em dia ninguém quer saber de plantar. O povo quer é trabalhar em loja, em escritório.
— E quem vai plantar o feijão que eles comem? — perguntei, sentindo a raiva subir.
Ele deu de ombros.
Voltei pra casa com um saco de ração fiado e um nó na garganta. Mariana estava sentada na varanda, olhando pro horizonte como se pudesse enxergar Salvador dali.
— Filha, me escuta — falei baixinho. — Eu sei que você quer ir embora. Mas essa terra aqui é tudo que eu tenho pra deixar pra vocês.
Ela virou o rosto.
— Pai, eu não quero terra. Eu quero viver.
As palavras dela ficaram ecoando na minha cabeça enquanto eu cuidava dos bichos. O leite das vacas estava cada vez mais ralo. As galinhas tinham parado de botar. Até o cachorro Zeca andava cabisbaixo.
Uma tarde, Dona Lúcia chegou com uma carta na mão.
— É do banco — disse ela, com a voz trêmula.
Abri o envelope com as mãos suadas. Era o aviso final: se eu não pagasse a dívida até o fim do mês, perderia a fazenda.
Sentei no chão da cozinha e chorei como criança. Mariana veio até mim e me abraçou forte.
— Desculpa, pai — sussurrou ela. — Eu não sabia que tava tão ruim assim.
Naquela noite, fizemos uma reunião de família. Dona Lúcia sugeriu vender as cabras para pagar parte da dívida. Mariana disse que podia trabalhar na cidade vizinha e mandar dinheiro pra casa. Até o pequeno Joãozinho, meu caçula de dez anos, prometeu ajudar vendendo ovos na feira.
Foi aí que percebi: eu não estava sozinho nessa luta.
Os dias seguintes foram uma correria. Vendemos as cabras para um vizinho distante. Mariana conseguiu um emprego simples numa padaria da cidade vizinha e vinha pra casa nos fins de semana. Joãozinho acordava cedo para recolher os ovos e levava pra vender na feira com Dona Lúcia.
Aos poucos, fomos pagando parte das dívidas. Mas a seca continuava impiedosa. Um dia, acordei com um barulho estranho: era chuva! Saí correndo pro quintal e deixei a água lavar meu rosto cansado. Chorei de alegria pela primeira vez em anos.
Com a chuva, veio esperança nova. Plantei milho outra vez e vi as primeiras folhas verdes brotarem da terra rachada. As galinhas voltaram a botar ovos e até as vacas pareciam mais felizes.
Mas nem tudo era alegria. Mariana começou a se afastar cada vez mais. Um dia chegou em casa dizendo que tinha conhecido um rapaz na cidade e queria se mudar de vez pra lá.
— Pai, eu amo vocês, mas preciso seguir meu caminho — disse ela, com lágrimas nos olhos.
Dessa vez não tentei impedir. Abracei minha filha forte e desejei sorte.
A fazenda ficou mais vazia sem ela, mas também mais leve. Joãozinho cresceu rápido e começou a me ajudar de verdade na roça. Dona Lúcia voltou a sorrir quando viu o milho crescer forte outra vez.
Hoje olho pra esse pedaço de terra e vejo mais do que dívidas ou sofrimento. Vejo uma história de luta, amor e esperança teimosa — aquela esperança que só quem planta sabe explicar.
Às vezes me pergunto: será que valeu a pena tanto sacrifício? Será que meus filhos vão lembrar desse chão com carinho ou só com tristeza? E você aí, já teve que escolher entre seu sonho e sua família?