Você era o meu mundo: Entre portas e silêncios no quinto andar
— Michaela, você pode ficar com a Olívia hoje de novo? — Dona Lúcia perguntou, já com a bolsa de médica pendurada no ombro, os olhos cansados e aflitos. Eu só tinha dez anos, mas já sabia o peso daquele pedido. Olhei para Olívia, sentada no tapete do corredor, abraçando o ursinho que ganhara de mim no Natal passado. Ela me olhava como se eu fosse o próprio mundo dela.
Minha mãe estava no trabalho, como sempre. Meu pai sumiu quando eu tinha seis anos. O silêncio do nosso apartamento era tão denso que às vezes eu sentia vontade de gritar só para ouvir algum som. Mas eu não gritava. Eu cuidava da Olívia.
A porta do apartamento 502 bateu atrás de Dona Lúcia e eu fiquei ali, parada, sentindo o cheiro de desinfetante misturado com café velho. Olívia puxou minha mão:
— Vamos brincar de casinha?
Eu queria dizer não. Queria dizer que estava cansada, que queria ser cuidada também. Mas sorri e balancei a cabeça.
— Vamos sim, pequena.
Naquele prédio antigo do bairro Santa Efigênia, as paredes eram finas e os problemas dos vizinhos atravessavam portas e corações. Eu era conhecida como “a menina responsável”, aquela que ajudava todo mundo, que buscava pão na padaria para Dona Cida do 504, que levava recado para o porteiro quando Dona Irene esquecia as chaves. Mas ninguém perguntava como eu estava.
Olívia era minha sombra. Cinco anos, olhos enormes e tristes, sempre esperando a mãe voltar. Às vezes ela chorava baixinho antes de dormir, e eu fingia não ouvir para não chorar junto.
Uma noite, enquanto fazíamos lição de casa na mesa da cozinha, ela perguntou:
— Michaela, por que minha mãe nunca fica comigo?
Engoli seco. Como explicar para uma criança que o mundo dos adultos é feito de ausências?
— Ela trabalha muito pra cuidar de você — respondi, tentando sorrir.
Ela abaixou a cabeça e desenhou um coração partido no caderno.
Os anos passaram assim: eu crescendo rápido demais, Olívia agarrada ao meu braço, Dona Lúcia cada vez mais distante. Minha mãe dizia que era assim mesmo, que a vida era dura para mulheres sozinhas. Mas eu sentia raiva. Raiva de não ter infância, raiva de ser invisível.
Quando fiz quinze anos, comecei a sair escondida com as amigas da escola. Queria sentir o vento na cara, queria esquecer o peso das chaves do apartamento penduradas no pescoço. Uma noite, voltei tarde e encontrei Olívia sentada na escada do prédio, chorando sozinha.
— Você prometeu que ia ficar comigo — ela disse entre soluços.
Senti uma culpa tão grande que quase não consegui respirar. Abracei-a forte.
— Me desculpa, pequena. Eu só queria ser livre um pouco.
Ela me olhou com aqueles olhos enormes:
— Você é tudo que eu tenho.
Naquele momento entendi: eu era o mundo dela porque ninguém mais queria ser. E isso me doía mais do que qualquer solidão.
Aos dezessete anos, passei no vestibular para Letras na UFMG. Minha mãe ficou orgulhosa, mas preocupada:
— E a Olívia? Quem vai cuidar dela?
Eu queria gritar: “Não sou mãe dela!” Mas só baixei a cabeça.
Na última noite antes de me mudar para a república estudantil, sentei com Olívia na varanda do prédio. Ela já tinha doze anos, mas ainda segurava minha mão como quando era pequena.
— Você vai me esquecer? — ela perguntou.
— Nunca — respondi. — Mas você precisa aprender a ser seu próprio mundo também.
Ela chorou baixinho. Eu também.
Os anos na faculdade foram um misto de liberdade e culpa. Eu via Olívia nos fins de semana, tentava ajudar nos deveres da escola, mas já não era mais a mesma coisa. Ela ficou mais fechada, começou a sair com umas meninas estranhas do bairro. Um dia recebi uma ligação de Dona Lúcia:
— Michaela, a Olívia sumiu! Você sabe onde ela está?
Meu coração quase parou. Saí correndo pelas ruas do bairro até encontrá-la sentada na praça, fumando um cigarro barato com os olhos vermelhos.
— O que você tá fazendo aqui sozinha? — perguntei, ofegante.
Ela deu de ombros:
— Ninguém liga mesmo…
Sentei ao lado dela e fiquei em silêncio. Não havia palavras para consertar anos de abandono compartilhado.
Depois daquela noite, tentei me reaproximar. Levei Olívia para terapia comunitária do posto de saúde, ajudei com os estudos, tentei ser irmã, amiga, mãe… tudo ao mesmo tempo. Mas as marcas da ausência eram profundas demais.
Hoje tenho vinte e oito anos. Sou professora em uma escola pública da periferia de BH. Vejo nos olhos dos meus alunos o mesmo vazio que vi em Olívia tantos anos atrás. Tento ser para eles o adulto presente que eu nunca tive.
Olívia? Ela se formou em Serviço Social e trabalha com crianças em situação de risco. Nos falamos pouco — cada uma construiu sua própria muralha para sobreviver — mas sei que ela carrega dentro de si aquela menina solitária do quinto andar.
Às vezes me pergunto: quantas crianças crescem assim, sendo o mundo uma da outra porque ninguém mais quer ser? Quantos adultos fingem não ver o peso que colocam nos ombros dos pequenos?
Será que algum dia vamos aprender a cuidar uns dos outros sem transformar amor em prisão?