Entre Dois Mundos: O Retorno de Mariana

— Se você quer ir, vai — disse Oskar, largando a xícara na pia com um estrondo seco. O som ecoou pela cozinha pequena do nosso apartamento em Curitiba, abafando por um instante o barulho da chuva lá fora. Ele nem me olhou nos olhos. — Só não conte comigo. Nem pra te ajudar a arrumar as malas, nem pra te buscar depois.

Fiquei parada, sentindo o cheiro de café frio e o peso das palavras dele. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca. Eu sabia que essa conversa ia chegar, mas nunca imaginei que doeria tanto. Olhei para as mãos trêmulas e respirei fundo.

— Eu não estou pedindo nada, Oskar — respondi baixo, quase num sussurro. — Só preciso ir. Preciso ver minha mãe, preciso ver se ainda existe algum lugar pra mim lá em Maringá.

Ele riu, um riso amargo. — Depois não diga que eu não avisei. Você sempre acha que fugir resolve tudo.

As palavras dele me cortaram como faca. Fugir? Eu? Será que era isso mesmo? Ou era só o medo de encarar o passado, de admitir que talvez eu nunca tenha pertencido a lugar nenhum?

A verdade é que minha mãe estava doente. Dona Lúcia sempre foi forte, mas agora o câncer tinha levado o brilho dos olhos dela. Meu irmão mais novo, Rafael, me ligava quase todo dia pedindo ajuda. E eu aqui, presa numa vida que parecia cada vez mais apertada, sufocante.

Naquela noite, arrumei minha mala em silêncio. Cada peça de roupa era uma lembrança: o vestido azul do nosso primeiro aniversário de casamento, a blusa que comprei quando consegui meu emprego no escritório de advocacia. Tudo parecia tão distante agora.

Oskar não apareceu no quarto. Só ouvi a porta do banheiro bater e depois o som abafado do chuveiro. Sentei na cama e chorei baixinho, sem saber se chorava por mim, por ele ou pela vida que estava desmoronando.

No dia seguinte, peguei o ônibus para Maringá antes do sol nascer. A estrada era longa e cheia de curvas, como minha própria história. Olhei pela janela e vi os campos de soja passando rápido demais. Lembrei da infância correndo descalça na terra vermelha, das festas juninas na praça da igreja, do cheiro de bolo de fubá saindo do forno da minha mãe.

Quando cheguei em casa, Rafael me recebeu com um abraço apertado. Ele estava mais magro, os olhos fundos de preocupação.

— Que bom que você veio, Mana — disse ele, tentando sorrir.

Minha mãe estava sentada na varanda, enrolada num xale colorido. O cabelo ralo e os olhos cansados me fizeram engolir o choro.

— Mariana… — ela murmurou, abrindo os braços frágeis.

Me ajoelhei ao lado dela e segurei sua mão. Senti a pele fina e fria, mas ainda cheia de amor.

— Mãe, eu tô aqui agora. Não vou mais te deixar sozinha.

Os dias seguintes foram uma mistura de esperança e desespero. Entre consultas médicas e remédios caros demais pro nosso bolso apertado, tentei ser forte por todos nós. Mas à noite, quando tudo silenciava, eu me perguntava se tinha feito a escolha certa.

Oskar não ligou nenhuma vez. No começo eu esperava uma mensagem, um sinal de que ele sentia minha falta. Depois parei de esperar. Talvez ele tivesse razão: talvez eu só soubesse fugir quando as coisas ficavam difíceis.

Minha tia Cida apareceu um dia com um bolo e conselhos não solicitados.

— Você largou tudo pra cuidar da sua mãe? E seu marido? — perguntou ela, olhando pra mim como se eu fosse uma adolescente rebelde.

— Ele não entende… — tentei explicar.

— Homem nenhum entende nada quando a mulher resolve ser dona da própria vida — ela retrucou com um sorriso triste.

Às vezes eu sentia raiva de Oskar por não tentar entender meu lado. Outras vezes sentia raiva de mim mesma por esperar tanto dele. No fundo, sabia que nossa relação já estava desgastada há tempos: brigas por dinheiro, cobranças sobre filhos que nunca vieram, silêncios cada vez mais longos à mesa do jantar.

Uma noite, enquanto cuidava da minha mãe com febre alta, ouvi Rafael chorando baixinho no quarto ao lado. Entrei sem bater e sentei na beira da cama.

— Não sei se vou aguentar se a mãe se for… — ele confessou entre soluços.

Segurei sua mão como fazia quando éramos crianças com medo do escuro.

— A gente vai passar por isso juntos — prometi, mesmo sem saber se era verdade.

No meio desse caos todo, recebi uma ligação do escritório em Curitiba: estavam cortando pessoal e meu nome estava na lista. Fiquei sem chão. Liguei pra Oskar pela primeira vez desde que saímos brigados.

— Oi… perdi o emprego — falei sem rodeios.

Do outro lado da linha, silêncio.

— Sinto muito — ele disse enfim, mas a voz era distante.

— Você está bem? — arrisquei perguntar.

— Estou levando… Mariana, acho melhor cada um seguir seu caminho agora. Não faz sentido continuar assim.

Desliguei antes que ele pudesse ouvir meu choro. Era o fim de tudo que construímos juntos? Ou só o começo de algo novo?

Na semana seguinte, minha mãe piorou muito. Passei noites em claro ao lado dela, ouvindo histórias antigas sobre meu pai — que nos deixou cedo demais — e sobre sonhos que ela nunca realizou porque sempre colocou os outros em primeiro lugar.

— Não faça como eu, filha — ela sussurrou certa noite. — Viva sua vida sem medo.

Quando ela se foi numa manhã chuvosa de domingo, senti um vazio tão grande que achei que nunca mais seria capaz de sorrir. Rafael e eu nos abraçamos no velório cercados por vizinhos e parentes distantes trazendo palavras vazias de consolo.

Depois do enterro, sentei sozinha na varanda olhando a rua vazia. Pensei em tudo o que perdi: meu casamento, meu emprego, minha mãe. Mas também pensei em tudo o que ainda podia construir dali pra frente.

Rafael sentou ao meu lado com duas xícaras de café fumegante.

— E agora? — ele perguntou baixinho.

Olhei pro céu cinzento e respirei fundo.

— Agora a gente recomeça — respondi com uma força que nem sabia que tinha.

Talvez eu nunca saiba se fiz a escolha certa ao voltar pra casa. Mas sei que precisei ser corajosa pra enfrentar meus medos e minhas perdas. Será que valeu a pena abrir mão de tanta coisa pra cuidar de quem amamos? Ou será que no fundo a gente sempre carrega dúvidas sobre os caminhos não escolhidos?