Coma Minha Dor: Entre Sonhos e Silêncios
— Mariana, você pode ficar mais um pouco hoje? A mãe do Lucas não veio buscá-lo de novo. — A voz da diretora, Dona Sônia, ecoou na sala vazia, enquanto eu recolhia os desenhos espalhados pelo chão.
Suspirei fundo. Já passava das seis e meu ônibus para Casa Amarela sairia em quinze minutos. Mas Lucas estava ali, sentado no canto, abraçado à mochila rasgada, olhando para o nada. De novo.
Sentei ao lado dele. — Tá tudo bem, Lucas? — perguntei, tentando sorrir, mesmo sabendo que ele não responderia. Desde o começo do ano, ele quase não falava. Só desenhava monstros e casas pegando fogo.
Eu nunca quis trabalhar com crianças. Sempre achei difícil demais lidar com o imprevisível delas, com a energia que transborda e a dor que escapa nos detalhes. Mas era o que tinha pra mim depois que perdi meu emprego no supermercado. E agora, ali, eu via em cada um deles um pedaço do que fui: uma criança assustada, tentando sobreviver ao caos de casa.
Minha mãe dizia que criança inventa demais. Que tudo é drama. Mas eu sabia que não era bem assim. Eu também inventava monstros quando era pequena — era mais fácil do que falar da gritaria em casa, das portas batendo, do cheiro de cachaça no fim da noite.
— Professora, minha mãe disse que vai me buscar amanhã — Lucas murmurou, quase sem voz.
— Tá bom, Lucas. Eu fico aqui com você até ela chegar.
Enquanto esperávamos, lembrei do dia em que minha mãe esqueceu de me buscar na escola. Fiquei sentada no portão até escurecer. Quando ela chegou, nem pediu desculpa. Só reclamou do ônibus atrasado e disse pra eu parar de chorar.
Naquela noite, quando finalmente cheguei em casa, minha irmã mais nova estava chorando porque o pai dela tinha gritado de novo. Minha mãe gritava de volta. Eu só queria sumir.
Na escola, os outros professores diziam que eu era muito sensível. Que precisava aprender a separar as coisas. Mas como separar? Como não sentir a dor dessas crianças como se fosse minha?
No dia seguinte, Lucas chegou com um olho roxo. Ninguém falou nada. Nem ele. Nem a mãe dele, que entrou apressada na sala e saiu antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa.
Fui até Dona Sônia.
— A gente precisa fazer alguma coisa — falei.
Ela suspirou, cansada. — Mariana, a gente denuncia, mas às vezes só piora pra criança. Você sabe como é aqui… O conselho tutelar demora, a família se revolta… E a escola fica no meio do fogo cruzado.
Fiquei pensando nisso o resto do dia. Lembrei do medo que sentia quando alguém ameaçava chamar o conselho tutelar pra minha mãe. Ela ficava furiosa. Dizia que ninguém tinha nada a ver com a nossa vida.
Na semana seguinte, Lucas parou de vir à escola. Perguntei por ele todos os dias. Ninguém sabia de nada. Os colegas diziam que ele tinha mudado de bairro. Mas eu sabia que não era só isso.
Comecei a sonhar com ele todas as noites. No sonho, ele me pedia ajuda e eu não conseguia alcançá-lo.
Minha irmã ligou numa dessas noites:
— Mari, você tá bem? Faz tempo que não liga pra mãe…
— Tô cansada — respondi. — Às vezes acho que tô repetindo tudo igual ela.
— Você não é ela — minha irmã disse firme. — Você tá tentando ajudar essas crianças. Isso já é diferente.
Mas será mesmo?
No fim do mês, recebi uma carta da mãe do Lucas agradecendo pela paciência e dizendo que ele estava morando com a avó no interior. Não explicou nada sobre o olho roxo nem sobre as ausências.
Continuei indo pra escola todos os dias, tentando sorrir para as outras crianças. Mas cada vez que via um desenho de monstro ou ouvia um choro abafado no banheiro, sentia aquela dor antiga apertar o peito.
Um dia, durante uma reunião pedagógica, Dona Sônia falou:
— Precisamos cuidar da saúde mental dos professores também. Não dá pra carregar tudo sozinha.
Olhei ao redor e vi outros olhos cansados como os meus. Cada um ali tinha sua história de dor e resistência.
Na saída, encontrei a mãe de uma aluna esperando no portão.
— Professora Mariana? Queria agradecer pela atenção com a Ana Clara… Ela fala muito da senhora em casa.
Sorri sem jeito. — Ela é uma menina muito especial.
A mulher segurou minha mão por um instante:
— A senhora mudou a vida dela.
Fui pra casa pensando nisso. Talvez eu não consiga salvar todo mundo. Talvez eu nunca entenda completamente a dor dessas crianças ou consiga protegê-las de tudo. Mas posso estar ali, ouvindo, acolhendo, sendo o adulto que eu queria ter tido quando era pequena.
Às vezes me pergunto: será que basta estar presente? Será que ouvir já é suficiente para mudar alguma coisa? Ou será que estamos todos só tentando sobreviver aos nossos próprios monstros?