Simplesmente Esqueça
— Não adianta correr, Mariana! — ouvi a voz da minha mãe ecoando na minha cabeça, mesmo estando a três quarteirões de casa. O vento frio de junho em Belo Horizonte fazia meus olhos lacrimejarem, mas não era só o vento. Eu sentia as lágrimas queimando, misturando-se com a garoa fina que começava a cair. Meu tênis já estava encharcado, mas eu não parava. Só queria chegar em casa, fechar a porta do meu quarto e fingir que o mundo lá fora não existia.
A manhã tinha começado como qualquer outra, mas bastou um comentário atravessado do meu irmão, Lucas, para tudo desandar. Ele sempre foi o queridinho da mamãe, o filho perfeito, enquanto eu era a rebelde, a que não sabia o lugar. — Você não faz nada direito, Mariana — ele disse, jogando na minha cara a nota baixa que tirei em matemática. Minha mãe, como sempre, ficou do lado dele. — Por que você não pode ser mais como o Lucas? — ela perguntou, sem perceber o quanto aquelas palavras doíam. Eu queria gritar, queria dizer que eu era diferente, que eu tentava, mas ninguém parecia ouvir.
Na escola, as coisas não eram muito melhores. Meus colegas me olhavam de lado, cochichando sobre o escândalo da minha família. Meu pai tinha sido demitido do banco onde trabalhava, e desde então, tudo em casa era tensão. O dinheiro estava curto, as brigas constantes. Eu tentava me concentrar nas aulas, mas era impossível. Só pensava em como seria bom sumir, nem que fosse por um dia.
Quando o sinal tocou, saí correndo. O vento gelado batia no meu rosto, e eu sentia o cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina. Por um segundo, pensei em entrar, comprar um pão de queijo e esperar a chuva passar. Mas sabia que, se demorasse, minha mãe ligaria, perguntando onde eu estava. Então continuei correndo, desviando das poças, sentindo o frio atravessar minha blusa fina.
Cheguei em casa ofegante, as mãos tremendo. Minha mãe estava na cozinha, mexendo o feijão na panela. — Já chegou? — ela perguntou, sem olhar para mim. — Cheguei — respondi, tentando esconder o choro na voz. Subi direto para o quarto, joguei a mochila no chão e me joguei na cama. O cheiro do meu travesseiro era reconfortante, mas não suficiente para afastar a tristeza.
Ouvi passos no corredor. Era Lucas. Ele bateu na porta, sem esperar resposta, entrou. — Mãe mandou você descer pra ajudar a pôr a mesa — disse, com aquele tom de superioridade que só ele tinha. — Vai você — respondi, sem levantar a cabeça. — Não começa, Mariana. Você sabe que ela tá nervosa. — E você acha que eu não tô? — gritei, finalmente encarando ele. — Você não entende nada! — Ele me olhou, surpreso. — Eu só tô tentando ajudar. — Então para de me comparar com você! — As palavras saíram antes que eu pudesse controlar. Ele ficou em silêncio por um momento, depois saiu, batendo a porta.
Desci as escadas devagar, sentindo o peso do mundo nas costas. Minha mãe estava sentada à mesa, o olhar perdido. — Senta, Mariana — ela disse, apontando para a cadeira. Sentei, sem dizer nada. O silêncio era pesado, só quebrado pelo barulho dos talheres. — Eu sei que as coisas não estão fáceis — ela começou, a voz baixa. — Mas a gente precisa se unir. — Eu tentei segurar as lágrimas, mas não consegui. — Eu só queria que você me visse, mãe. Que você percebesse que eu tô tentando. — Ela me olhou, surpresa. — Eu vejo, filha. Só não sei demonstrar. — Ficamos ali, em silêncio, cada uma com sua dor.
Depois do almoço, fui para o quintal. O céu estava cinza, e o cheiro de terra molhada me trouxe lembranças da infância, quando tudo era mais simples. Lembrei de quando meu pai me ensinou a andar de bicicleta, de como ele ria quando eu caía. Agora, ele mal saía do quarto. A demissão tinha acabado com ele. À noite, ouvi meus pais discutindo. Minha mãe chorava, dizendo que não aguentava mais. Meu pai, calado, só ouvia. Eu queria fazer alguma coisa, mas me sentia impotente.
No dia seguinte, acordei cedo. O frio ainda estava lá, mas o sol tentava aparecer. Fui até a cozinha, preparei o café e deixei uma xícara para minha mãe. Ela desceu, surpresa. — Obrigada, filha — disse, com um sorriso tímido. Era pouco, mas era um começo. Na escola, tentei me concentrar. A professora de português, Dona Sônia, percebeu meu desânimo. — Mariana, fica depois da aula, por favor. — Fiquei, esperando o sermão. Mas ela só me olhou, com aquele olhar de quem entende. — Tá tudo bem em casa? — perguntou. — Não muito — respondi, baixinho. — Se quiser conversar, tô aqui, viu? — Aquilo me tocou. Pela primeira vez em dias, senti que alguém realmente se importava.
Na volta pra casa, parei na praça. Sentei no banco, olhando as crianças brincando. Lembrei de como era bom ser criança, de como eu achava que a vida dos adultos era fácil. Agora eu sabia que não era. Peguei o celular, pensei em ligar para minha amiga Camila, mas desisti. Não queria incomodar. Fiquei ali, só sentindo o vento, tentando organizar meus pensamentos.
Quando cheguei em casa, encontrei meu pai na sala, olhando fotos antigas. Sentei ao lado dele, em silêncio. — Lembra desse dia? — ele perguntou, mostrando uma foto nossa na praia. — Lembro — respondi, sorrindo. — A gente era feliz, né? — ele disse, a voz embargada. — Ainda pode ser, pai. Só precisa de tempo. — Ele me abraçou, e eu senti que, apesar de tudo, ainda havia esperança.
Os dias foram passando, e as coisas começaram a melhorar, devagar. Minha mãe conseguiu um trabalho de meio período, meu pai começou a fazer bicos. Eu e Lucas brigávamos menos. Às vezes, ainda me sentia sozinha, mas aprendi que não precisava carregar tudo sozinha. Comecei a escrever um diário, a colocar no papel tudo o que sentia. Isso me ajudou a entender que, por mais difícil que fosse, eu não estava sozinha.
Hoje, olhando para trás, vejo que aqueles dias frios me ensinaram muito. Aprendi que a família não é perfeita, que as pessoas erram, mas que o amor pode ser reconstruído, mesmo quando tudo parece perdido. Às vezes, ainda sinto vontade de fugir, de esquecer tudo. Mas sei que, por mais difícil que seja, é enfrentando os problemas que a gente cresce.
Será que um dia minha mãe vai realmente me entender? Será que meu pai vai voltar a sorrir como antes? E você, já sentiu que precisava simplesmente esquecer tudo para conseguir seguir em frente?