O Cachecol Rosa
— Você não vai sair desse quarto hoje de novo, Verônica? — a voz da Dona Lourdes ecoou pelo corredor, misturando impaciência e pena. Eu estava sentada na beira da cama, segurando o cachecol rosa que o Paulo me deu no nosso primeiro inverno juntos. O cheiro dele já tinha sumido, mas a textura ainda me trazia de volta àquele tempo em que eu não era só uma sombra na casa dos outros.
Dois anos. Dois anos desde que enterrei o Paulo, desde que virei a viúva da família Costa. Ele era dezessete anos mais velho que eu. Quando nos conhecemos, eu tinha vinte e nove, ele quarenta e seis. Eu nunca fui dessas mulheres que chamam atenção. Sempre fui aquela amiga que empresta o caderno, que ajuda nos trabalhos, mas que ninguém convida pra sair. Meus colegas de faculdade me chamavam de “Vê”, como se eu fosse um deles, mas nunca como mulher.
O Paulo apareceu na minha vida quando eu já tinha aceitado que talvez ficasse sozinha pra sempre. Ele era cliente do escritório de contabilidade onde eu trabalhava. Um homem sério, barba grisalha, olhar cansado. No começo, achei que ele só queria conversar sobre impostos, mas ele começou a trazer café pra mim, perguntar sobre meus livros preferidos. Um dia, me convidou pra tomar um café fora do expediente. Eu quase disse não — achei que era brincadeira. Mas fui.
A gente se apaixonou devagar, como quem aprende a nadar depois de adulto: com medo, mas com vontade. Minha mãe não gostou. Disse que ele era velho demais pra mim, que eu ia virar enfermeira dele antes dos quarenta. Mas eu estava feliz pela primeira vez. Paulo me fazia sentir vista.
Quando casamos, a família dele torceu o nariz. A irmã dele, Regina, nunca me aceitou. “Ela só quer o dinheiro do Paulo”, ouvi ela cochichando no aniversário de sessenta anos dele. Eu fingi que não ouvi. Paulo dizia pra eu não ligar, mas aquilo ficou grudado em mim como chiclete no sapato.
Agora, sentada na cama com o cachecol rosa nas mãos, penso em tudo isso enquanto escuto Dona Lourdes batendo panela na cozinha. Ela veio morar comigo depois que o Paulo se foi — disse que era pra eu não ficar sozinha, mas sei que é pra vigiar o apartamento e garantir que eu não “faça besteira” com a herança do filho dela.
— Verônica! — ela chama de novo. — O almoço tá pronto!
Levanto devagar, guardo o cachecol na gaveta de roupas íntimas — meu segredo — e vou até a cozinha. Dona Lourdes me olha de cima a baixo.
— Você precisa sair mais, minha filha. Ficar trancada só faz piorar as coisas.
— Não tenho vontade, Dona Lourdes.
Ela suspira alto.
— O Paulo não ia gostar de te ver assim.
Eu engulo seco. Ela sempre usa o nome dele como uma arma contra mim.
No almoço, ela fala sobre a Regina — que vai vir nos visitar no domingo — e sobre o neto dela, Lucas, que passou em medicina na USP. Eu sorrio e concordo com tudo, mas por dentro estou longe dali.
Depois do almoço, lavo a louça enquanto Dona Lourdes cochila na sala vendo novela. Olho pela janela da cozinha: lá embaixo, as crianças brincam no parquinho do condomínio. Sinto uma pontada de inveja daquela alegria simples.
À noite, Regina chega sem avisar. Traz um bolo de fubá e um olhar desconfiado.
— E aí, Verônica? Como estão as coisas? — ela pergunta com aquela voz doce falsa.
— Tudo bem — respondo seca.
Ela olha em volta como se procurasse algo fora do lugar.
— Sabe, mãe, a gente precisa conversar sobre o apartamento do Paulo. Não é justo você ficar aqui sozinha com tudo isso.
Dona Lourdes acorda do cochilo e entra na conversa:
— A Verônica ainda está de luto, Regina.
Regina revira os olhos.
— Dois anos já é tempo demais pra esse luto todo, né? O Paulo não ia querer ver você assim parada no tempo.
Eu sinto o sangue ferver nas veias.
— Vocês acham mesmo que eu queria isso? Que eu escolhi perder o homem da minha vida?
Regina cruza os braços.
— Só acho estranho você não querer trabalhar mais… Ficar aqui nesse apartamento caro…
Eu me levanto da mesa.
— Eu trabalhei minha vida inteira! E esse apartamento foi o Paulo quem quis deixar pra mim!
Dona Lourdes tenta acalmar:
— Meninas…
Mas Regina não para:
— Você devia pensar em vender e recomeçar a vida em outro lugar. Ou então dividir com a família!
Eu sinto vontade de gritar. Em vez disso, corro pro quarto e tranco a porta. Pego o cachecol rosa e abraço forte contra o peito. Choro baixinho pra ninguém ouvir.
Naquela noite, sonho com o Paulo. Ele sorri pra mim do outro lado da mesa do café onde tudo começou. Acordo com os olhos inchados e uma sensação de vazio ainda maior.
No dia seguinte, decido sair de casa pela primeira vez em meses. Coloco o cachecol rosa no pescoço — mesmo com o calor do Rio de Janeiro — e vou até a padaria da esquina. No caminho, encontro Dona Cida, vizinha antiga.
— Verônica! Que bom te ver na rua! — ela diz sorrindo.
Sorrio de volta, sem jeito.
— Tava precisando respirar um pouco…
Ela segura minha mão:
— Você é forte, menina. Não deixa ninguém te convencer do contrário.
Volto pra casa com um pão quentinho e um pouco mais de esperança no peito.
Mas Regina não desiste fácil. Nos dias seguintes, ela aparece com papéis de advogado e propostas de venda do apartamento. Dona Lourdes fica cada vez mais nervosa; começa a esquecer as panelas no fogo e chorar escondida no banheiro.
Uma noite, escuto Regina falando ao telefone na varanda:
— Ela não vai aguentar muito tempo… Logo cede…
Sinto raiva e medo ao mesmo tempo. Será que vão conseguir me tirar daqui? Será que todo mundo acha mesmo que eu sou uma aproveitadora?
Decido procurar emprego novamente. Atualizo meu currículo e mando para alguns escritórios do bairro. No fundo, sei que preciso provar pra mim mesma — e pra eles — que sou capaz de recomeçar sem depender da memória do Paulo ou da boa vontade da família dele.
Um mês depois, consigo uma vaga como auxiliar administrativa numa escola pública perto de casa. O salário é baixo, mas me sinto viva de novo ao acordar cedo e pegar ônibus lotado junto com tanta gente anônima como eu.
Dona Lourdes reclama:
— Vai me deixar sozinha agora?
Eu respiro fundo:
— A senhora pode voltar pra casa da Regina se quiser… Eu preciso viver minha vida também.
Ela chora baixinho naquela noite. No dia seguinte faz as malas sem dizer uma palavra.
Fico sozinha no apartamento pela primeira vez desde a morte do Paulo. O silêncio é assustador no começo, mas aos poucos vou preenchendo os espaços vazios com plantas novas na varanda e fotos minhas sorrindo — só minhas.
Regina para de aparecer depois que percebe que não vou vender nada tão cedo. Recebo cartas do advogado dela por meses, mas ignoro todas.
No trabalho novo faço amizade com a Jéssica, professora de história recém-divorciada. Ela me convida pra tomar cerveja num boteco simples depois do expediente.
— Você precisa se permitir ser feliz de novo — ela diz olhando nos meus olhos.
Penso no Paulo todos os dias ainda, mas agora consigo lembrar dele sem sentir culpa por estar viva.
Às vezes me pergunto: será que algum dia vou amar alguém de novo? Será que mereço ser feliz depois de tudo?
Olho pro cachecol rosa pendurado na cadeira do quarto e sorrio pela primeira vez em muito tempo.
E você aí… já sentiu esse medo de recomeçar? Já foi julgado por tentar ser feliz depois da dor?