O Dia em que Não Dói, Mas Machuca
— Mãe, você vai esquecer de mim também? — perguntou minha filha, com os olhos marejados, enquanto eu tentava convencer minha mãe a tomar o remédio da manhã.
Fiquei paralisada. O comprimido branco tremia entre meus dedos. Dona Lourdes, minha mãe, olhava para mim com aquele olhar perdido de quem já não reconhece nem o próprio rosto no espelho. E minha filha, Ana Clara, de 13 anos, me encarava como se eu tivesse a resposta para todas as dores do mundo.
— Não, filha… nunca — menti. Porque a verdade é que eu não sei. Não sei de mais nada.
Meu nome é Marta. Tenho 49 anos, moro em Osasco e sou mãe solo. Meu ex-marido, Paulo Sérgio, sumiu quando Ana Clara tinha quatro anos. Desde então, sou eu por mim mesma. E agora também por Dona Lourdes. Trabalho como auxiliar administrativa numa clínica popular no centro de São Paulo. Todo dia acordo às 5h30 pra dar conta do café, do banho da minha mãe, do uniforme da Ana Clara e do ônibus lotado das 6h40.
Hoje era um daqueles dias em que não dói — mas tudo machuca. O despertador tocou e eu já estava acordada, olhando o teto mofado do quarto. O cheiro de mofo se mistura ao cheiro do mingau que faço pra minha mãe. Ana Clara reclama do barulho da colher batendo na panela.
— Mãe, não dá pra fazer menos barulho? — ela resmunga do quarto.
— Se eu não fizer barulho, ninguém acorda — respondo seca, já cansada antes mesmo do dia começar.
No ponto de ônibus, o céu ainda está escuro. Uma vizinha passa apressada e nem olha na minha cara. O motorista fecha a porta na cara de uma senhora. Ninguém se importa. No ônibus, um homem encosta demais em mim. Finjo que não percebo — é mais fácil do que discutir às seis da manhã.
Chego na clínica e a fila já dobra o quarteirão. Dona Cida, a recepcionista, me olha com pena:
— Dormiu bem?
— Dormi — minto de novo.
O telefone toca sem parar. Uma mãe grita porque não tem vaga pra consulta do filho. Um idoso chora porque perdeu o exame. O médico reclama do salário atrasado. Eu só queria cinco minutos de silêncio.
No almoço, abro minha marmita: arroz, feijão e ovo frito. Sento sozinha no refeitório enquanto as meninas conversam sobre viagens que nunca vou fazer.
— Marta, você viu a promoção pra Porto Seguro? — pergunta a Jéssica.
— Vi… — minto pela terceira vez no dia. Não vi nada. Não tenho tempo nem pra sonhar.
Às 17h30 corro pra pegar o trem antes do horário de pico. No vagão lotado, uma mulher empurra outra por causa de um assento vazio. Um rapaz grita no celular sobre um boleto vencido. Eu só queria chegar em casa antes que minha mãe tente sair sozinha de novo.
Quando abro a porta de casa, encontro Dona Lourdes sentada no chão da cozinha, chorando porque não lembra onde está. Ana Clara está trancada no quarto ouvindo música alta.
— Mãe! Você não pode sair andando assim! — grito sem querer.
Ela me olha assustada e começa a chorar mais ainda. Me sinto um monstro.
Faço janta correndo: arroz requentado e salsicha. Ana Clara come calada olhando pro celular.
— Como foi na escola?
— Normal.
Silêncio.
Depois do banho da minha mãe e dos remédios noturnos, sento no sofá e olho pro teto de novo. Sinto vontade de chorar mas não tenho força nem pra isso.
O WhatsApp apita: é minha irmã, Simone.
“Oi Marta, tudo bem? Preciso que você fique com a mãe sábado à tarde porque vou fazer as unhas.”
Respiro fundo antes de responder:
“Claro, Simone. Fico sim.” Porque se eu disser não, ela vai dizer que eu sou egoísta.
Lembro do Paulo Sérgio postando foto com a nova namorada em Ubatuba enquanto eu conto moedas pra comprar pão francês pro café da manhã.
Lembro da última vez que fui ao cinema: 2017. Da última vez que dormi oito horas seguidas: não lembro mais.
Antes de dormir, Ana Clara entra no meu quarto:
— Mãe… desculpa por hoje cedo.
Abraço ela forte e sinto o cheiro do shampoo barato misturado com lágrimas contidas.
— Tá tudo bem, filha… A gente vai dar conta — minto mais uma vez.
Deito na cama e olho pro teto escuro. Penso em tudo que perdi: tempo, juventude, sonhos… Mas também penso que amanhã vou levantar de novo porque alguém precisa fazer o café e dar o remédio da Dona Lourdes e perguntar pra Ana Clara como foi na escola.
Será que um dia alguém vai perguntar pra mim como foi o meu dia? Será que toda mulher brasileira precisa ser forte até quando só queria ser cuidada?