Me ligam todo dia para saber da minha saúde, mas sinto um vazio: Será que se importam comigo ou só com a herança?
— Mãe, tá tudo bem aí? Tomou o remédio hoje? — a voz de Rafael ecoa pelo viva-voz, distante, apressada, como se estivesse marcando presença numa reunião de trabalho. Olho para o relógio: 18h15. Ele sempre liga nesse horário, entre o fim do expediente e o trânsito caótico da Avenida Amazonas. — Tomei sim, filho. Tá tudo certo — respondo, tentando soar animada, mas minha voz sai baixa, quase um sussurro. Do outro lado, silêncio. Ouço o barulho de teclas, talvez ele esteja respondendo e-mails enquanto fala comigo. — Tá bom, mãe, qualquer coisa me liga, viu? — ele diz, já se despedindo. — Claro, querido. Fica com Deus.
Desligo o telefone e encaro o vazio da sala. O relógio de parede faz um tic-tac irritante, lembrando-me de cada minuto que passa. Sinto um aperto no peito, uma saudade que não sei explicar. Meus filhos me ligam todos os dias, mas a casa continua silenciosa, cheia de ecos do passado. O cheiro de café fresco, o som das risadas deles correndo pelo corredor, tudo parece tão distante agora.
Daniel, o do meio, é ainda mais sucinto. — E aí, mãe, tudo certo? — pergunta, sem nem esperar resposta direito. — Tudo sim, Daniel. E você, como está? — Tento puxar conversa, mas ele logo corta: — Correria, mãe. Depois te ligo com mais calma. Fica bem, tá? — E desliga. Elisa, minha caçula, é a única que às vezes pergunta se estou precisando de algo, mas sempre termina a ligação falando do trabalho, do namorado, dos planos de viagem. — Mãe, você não quer vir passar uns dias aqui em São Paulo? — ela sugere, mas sei que é só da boca pra fora. Nunca insiste de verdade.
Hoje é meu aniversário. Setenta e dois anos. Preparei um bolo de fubá, como fazia quando eles eram pequenos. Arrumei a mesa com a toalha florida que Elisa me deu no último Natal. Coloquei flores no vaso, comprei refrigerante, até brigadeiro eu fiz. Fiquei horas na cozinha, sentindo o cheiro doce invadir o apartamento, lembrando dos tempos em que eles disputavam a última colher da massa crua.
Olho pela janela, vejo o céu escurecendo sobre Belo Horizonte. As luzes dos prédios se acendem, uma a uma, como se cada janela escondesse uma história parecida com a minha. Sinto um nó na garganta. Será que eles vêm? Rafael prometeu que sim, Daniel disse que ia tentar, Elisa mandou mensagem dizendo que talvez chegasse tarde. Tento não criar expectativas, mas o coração de mãe é bobo, sempre espera.
O interfone toca. Meu coração dispara. Corro até a porta, ajeito o cabelo, passo um batom rápido. — Dona Lúcia, chegou uma encomenda pra senhora — diz o porteiro. Desço animada, mas é só uma cesta de café da manhã, com um cartão impresso: “Feliz aniversário, mãe! Com carinho, seus filhos.” Sinto as lágrimas escorrerem antes mesmo de voltar pro elevador. Subo devagar, abraçada à cesta, sentindo o peso do vazio.
Sento à mesa, sozinha, olhando para o bolo intocado. Pego o celular, abro o grupo da família no WhatsApp. Mensagens automáticas, figurinhas de parabéns, emojis de coração. Nenhuma ligação de vídeo, nenhum “mãe, estou indo aí”. Respondo com um “obrigada, meus amores”, mas por dentro, sinto uma dor que não sei explicar.
Lembro do tempo em que tudo era diferente. Quando o Paulo, meu marido, ainda era vivo, a casa era cheia. Ele adorava reunir todo mundo, fazia churrasco na varanda, contava piadas, fazia questão de celebrar cada aniversário como se fosse o último. Depois que ele se foi, tudo mudou. Os meninos começaram a trabalhar, Elisa foi estudar fora, e eu fiquei aqui, segurando as pontas, esperando que algum dia tudo voltasse a ser como antes.
Outro dia, ouvi sem querer uma conversa entre Rafael e Daniel, quando vieram aqui para resolver uns papéis do apartamento. — A mãe tá ficando velha, a gente precisa ver como vai ser com a herança — disse Rafael, achando que eu não estava ouvindo. Daniel concordou, falando sobre o valor do imóvel, sobre dividir tudo certinho. Fiquei em silêncio, fingindo que não ouvi nada, mas aquela frase ficou martelando na minha cabeça. Será que é só isso que sou pra eles agora? Uma velha com um apartamento pra deixar?
Na semana passada, precisei ir ao médico. Senti uma dor forte no peito, achei que fosse infarto. Liguei pra Rafael, ele disse que estava numa reunião, que era pra eu chamar o SAMU. Daniel não atendeu. Elisa mandou mensagem dizendo que estava em viagem a trabalho. Fui sozinha pro hospital, peguei um táxi, esperei horas na emergência. No fim, era só ansiedade. O médico perguntou se eu morava sozinha, se tinha família. Respondi que sim, que tinha três filhos maravilhosos. Ele sorriu, mas eu vi nos olhos dele a compaixão de quem sabe que não é bem assim.
Às vezes, penso em vender tudo, pegar o dinheiro e viajar pelo Brasil, conhecer o mar de verdade, como sempre sonhei. Mas aí lembro dos netos, das poucas vezes que eles vêm aqui, das fotos na estante, dos desenhos que Elisa fazia pra mim quando era pequena. Será que eu teria coragem de ir embora e deixar tudo pra trás?
Hoje, enquanto corto uma fatia do bolo só pra mim, ouço o barulho da chuva batendo na janela. Penso em ligar pra eles, dizer que estou com saudade, que queria um abraço. Mas desisto. Não quero ser um peso, não quero que me atendam por obrigação. Prefiro o silêncio ao constrangimento de sentir que estou implorando por atenção.
No fim da noite, Rafael liga de novo. — Mãe, desculpa, não consegui passar aí hoje. O trânsito tava impossível. Daniel também não pôde, e Elisa tá em São Paulo. Mas a gente te ama, viu? — diz, com aquela voz de quem já está pensando em outra coisa. — Eu sei, filho. Fiquem bem. Boa noite — respondo, tentando esconder o choro.
Desligo e fico olhando para a foto da família na estante. Todos sorrindo, abraçados, como se nada pudesse nos separar. Sinto falta daquele tempo, daquela alegria simples. Sinto falta de ser prioridade, de ser mãe de verdade, não só uma obrigação a ser cumprida.
Será que um dia eles vão perceber que tudo que eu queria era um pouco de companhia, um pouco de amor? Será que vão entender que herança nenhuma vale mais do que um abraço apertado, uma tarde juntos, uma conversa sem pressa?
Às vezes me pergunto: será que ainda sou mãe, ou virei só uma velha com um apartamento para dividir? Será que algum dia eles vão sentir minha falta de verdade, ou só quando eu não estiver mais aqui para atender o telefone?