A Última Chance de Rafael

— Pai, você vai sair de novo hoje? — perguntou a Sofia, com a voz ainda rouca de sono, enquanto eu olhava pela janela do nosso pequeno apartamento no bairro Santa Efigênia. O vidro estava embaçado pelo frio incomum daquele junho em Belo Horizonte. Lá fora, meninos e meninas atravessavam a rua correndo, ignorando o vento gelado que parecia cortar a pele. Eu invejava aquela pressa, aquela certeza de ter um destino.

— Vou, filha. Preciso tentar mais uma vez — respondi, tentando esconder o cansaço na voz. Ela me olhou com aqueles olhos grandes e escuros, tão parecidos com os da mãe dela, e eu senti o peso do mundo nas costas.

Desde que fui demitido da fábrica de peças automotivas, há quase um ano, minha vida virou uma sequência de tentativas frustradas. O aluguel atrasado, as contas empilhadas na mesa da cozinha, a geladeira cada vez mais vazia. Minha esposa, Camila, me deixou há seis meses. Disse que não aguentava mais viver de esperança e promessas. Levou só as roupas e um pouco da dignidade que me restava. Sofia ficou comigo porque Camila achou que seria melhor para ela manter a rotina da escola e dos amigos. Mas eu sabia que era porque ela não queria o peso de uma filha na nova vida.

Minha mãe ligava todo domingo, perguntando se eu precisava de alguma coisa. Eu sempre respondia que estava tudo bem. Não queria admitir que, aos 38 anos, dependia dela para comprar arroz e feijão. Meu pai morreu cedo, vítima de um assalto quando eu tinha 12 anos. Desde então, aprendi a engolir o choro e seguir em frente.

Naquela manhã, vesti minha jaqueta surrada e beijei Sofia na testa. — Se cuida, tá? Qualquer coisa liga pra vovó — falei antes de sair. Ela assentiu em silêncio, voltando para o quarto onde os livros escolares dividiam espaço com bonecas sem braço.

O ponto de ônibus estava lotado de gente com olhar perdido. Dona Cida, a vizinha do 502, me cumprimentou com um sorriso triste. — Força aí, Rafael. Uma hora melhora — disse ela, como quem repete um mantra para si mesma.

Desci no centro e fui direto para a fila do SINE. Mais de cinquenta pessoas já esperavam antes das sete da manhã. Um rapaz magro discutia com uma senhora sobre quem era o último da fila. O cheiro de café barato misturava-se ao suor e à ansiedade.

Quando finalmente chegou minha vez, a atendente nem olhou nos meus olhos. — Experiência?

— Operador de máquina CNC por dez anos — respondi.

— Só tem vaga pra auxiliar de limpeza e entregador de aplicativo hoje — disse ela, já chamando o próximo.

Peguei o papel amassado com o endereço da entrevista e saí andando sem rumo pelo centro. Passei pela Praça Sete, onde um grupo de jovens tocava violão e pedia moedas. Lembrei dos meus tempos de faculdade, dos sonhos de ser engenheiro mecânico antes de largar tudo para trabalhar e ajudar em casa.

O celular vibrou: mensagem da Camila. “Vou buscar a Sofia no fim de semana.” Sem perguntas sobre como estávamos ou se precisávamos de algo. Só o aviso seco, como se eu fosse um estranho.

Sentei num banco e fiquei olhando os pombos disputando migalhas no chão. Uma senhora se aproximou vendendo balas. — Moço, compra uma pra ajudar? — perguntou com voz cansada.

Olhei para as moedas no bolso e balancei a cabeça negativamente. Ela sorriu mesmo assim e seguiu adiante. Pensei em como a dignidade vai embora aos poucos quando a fome aperta.

Voltei pra casa antes do meio-dia. Sofia estava sentada no sofá vendo desenho na TV aberta. O cheiro do miojo invadia o apartamento.

— Conseguiu alguma coisa? — perguntou baixinho.

— Ainda não, filha. Mas amanhã tem outra entrevista — menti.

Ela sorriu sem graça e voltou a atenção pro desenho.

À noite, tentei ligar para Camila para pedir ajuda com o material escolar da Sofia. Ela atendeu irritada:

— Rafael, eu já falei que não posso ajudar agora! Você que ficou com ela, se vira!

— É nossa filha também! Ela precisa de caderno novo…

— Não começa! — desligou antes que eu terminasse.

Joguei o celular no sofá e senti as lágrimas queimando os olhos. Não chorei por mim, mas por Sofia. Por não conseguir dar a ela o mínimo que merecia.

No dia seguinte acordei cedo para mais uma entrevista. Dessa vez era para porteiro num prédio comercial na Savassi. O síndico era um homem gordo e arrogante chamado Seu Geraldo.

— Você já trabalhou como porteiro?

— Não, mas aprendo rápido…

Ele me olhou dos pés à cabeça.

— Tem cara de quem não aguenta pressão. Aqui é cheio de playboy folgado!

Engoli seco e agradeci pela oportunidade mesmo assim.

Quando voltei pra casa, Sofia estava desenhando corações num caderno velho.

— Pai, você vai conseguir um emprego logo? — perguntou com esperança nos olhos.

Sentei ao lado dela e abracei forte.

— Vou sim, filha. Prometo que vou dar um jeito.

Naquela noite rezei baixinho antes de dormir. Pedi força pra não desistir. Lembrei do meu pai dizendo: “Homem não foge da luta”.

No sábado Camila veio buscar Sofia. Ela entrou apressada no apartamento, sem olhar pra mim direito.

— Traz ela pronta às dez — disse seca.

Enquanto arrumava a mochila da Sofia, ela me abraçou forte:

— Eu volto logo, tá?

Fiquei sozinho olhando o vazio do quarto dela. O silêncio pesava mais que qualquer dívida.

No domingo minha mãe apareceu sem avisar trazendo um bolo simples de fubá.

— Filho, você precisa aceitar ajuda às vezes — disse ela me abraçando.

Chorei no ombro dela como não fazia desde menino.

Na segunda-feira acordei decidido a tentar mais uma vez. Peguei meu currículo amassado e saí batendo de porta em porta nas lojas do bairro.

No fim da tarde recebi uma ligação:

— Rafael? Aqui é da padaria Pão Quente. Você pode começar amanhã?

Senti um alívio tão grande que caí sentado no chão da cozinha chorando feito criança.

Quando Sofia voltou naquele dia, contei a novidade:

— Pai conseguiu um emprego!

Ela pulou no meu colo sorrindo:

— Eu sabia! Você nunca desiste!

Olhei nos olhos dela e prometi a mim mesmo nunca mais perder a esperança.

Às vezes penso: quantos pais estão agora sentados na beira da cama sem saber como vão alimentar seus filhos amanhã? Será que eles também encontram força no amor para seguir em frente?