O Feriado Inesperado
“Mãe, você não está sentindo esse cheiro de queimado?” gritei assim que empurrei a porta do nosso apartamento antigo, no terceiro andar do prédio da Rua da Liberdade, em Osasco. O cheiro de fumaça era tão forte que parecia que alguém tinha acendido uma fogueira na sala. Meus pés, ainda molhados da chuva, escorregaram no chão coberto de água com sabão. “Meu Deus, será que a dona Cida deixou o feijão queimar de novo?”, pensei, lembrando das últimas vezes em que a vizinha quase incendiou o prédio.
Joguei o buquê de flores do amigo secreto da firma em cima da mesa, chutei os sapatos para longe e corri até a cozinha. Minha mãe, Dona Lurdes, estava de avental, com o rosto suado e os olhos vermelhos. “Filha, graças a Deus você chegou! O cano do tanque estourou, a água não para de sair, e ainda por cima o forno apagou sozinho. Eu só queria fazer uma torta pra amanhã, mas olha só esse caos!”
A pia transbordava, a água escorria pelo corredor, e o cheiro de gás misturado ao de fumaça me fez tossir. “Mãe, fecha o registro! Vai explodir tudo aqui!” Corri até o botijão, girei a válvula com força, e só então percebi que minhas mãos tremiam. “Calma, filha, não precisa gritar comigo. Eu já estou nervosa o suficiente!”
Sentei no chão, molhada, exausta, e comecei a rir. Rir de nervoso, de cansaço, de tudo. Minha mãe me olhou como se eu fosse louca. “Você acha graça? Olha o estado da casa! E amanhã é feriado, sua tia Marlene vem com as crianças, seu irmão prometeu trazer a namorada nova, e eu aqui, sem gás, sem água, sem nada!”
O telefone tocou. Era meu irmão, Rafael. “Manu, você viu o grupo da família? O pai disse que não vem mais, brigou com a mãe de novo. E a Marlene tá dizendo que vai trazer o cachorro dela, aquele vira-lata que faz xixi em tudo. Eu não sei se vou, viu? Essa casa parece um hospício.”
Suspirei fundo. “Rafa, pelo amor de Deus, só dessa vez, tenta não arrumar confusão. A mãe tá surtando aqui.”
Desliguei e olhei para minha mãe, que agora chorava baixinho, sentada no banquinho da cozinha. “Eu só queria um feriado em paz, Manu. Só isso.”
A campainha tocou. Era a dona Cida, com um balde na mão. “Meninas, desculpa, fui lavar o tapete e entupi o ralo do corredor. Acho que a água tá voltando pra cá. Vocês precisam de ajuda?”
Minha mãe enxugou as lágrimas e tentou sorrir. “Obrigada, Cida. Acho que hoje ninguém vai dormir seco nesse prédio.”
Enquanto tentávamos secar o chão, ouvi os gritos do vizinho do 201, seu Jorge, reclamando do barulho. “Essas mulheres não sabem viver em paz? Todo feriado é a mesma coisa!”
Minha mãe, sempre orgulhosa, não deixou barato. “Seu Jorge, se quiser ajudar, pega um pano e vem aqui! Ficar reclamando é fácil!”
Ele resmungou, mas apareceu com um rodo. “Só porque minha mulher foi pra casa da filha, senão eu nem botava a cara aqui.”
No meio daquele caos, percebi que a vida era mesmo feita desses pequenos desastres. A gente planeja, sonha com um feriado perfeito, mas a realidade sempre dá um jeito de bagunçar tudo.
Quando finalmente conseguimos controlar a água, sentei no sofá, exausta. Minha mãe veio ao meu lado, segurando minha mão. “Desculpa, filha. Eu sei que você queria descansar. Mas eu não sei fazer diferente. Sempre que tento reunir a família, parece que tudo dá errado.”
Olhei para ela, vi as rugas profundas, o cansaço nos olhos. “Mãe, a gente tá junto. Isso já é alguma coisa, né?”
No dia seguinte, acordei com o barulho das crianças correndo pelo corredor. A tia Marlene chegou cedo, com o cachorro e um bolo de fubá. Rafael veio de cara fechada, mas trouxe a namorada, uma moça tímida chamada Camila. O pai, como sempre, não apareceu. A mesa estava cheia, mas faltava um pedaço.
Durante o almoço, as discussões começaram. Marlene reclamou do cachorro, Rafael implicou com o bolo, minha mãe tentou mediar tudo, mas acabou chorando de novo. Camila, calada, me olhou e sussurrou: “Sua família é intensa, né?”
Sorri, sem saber o que responder. “A gente é assim mesmo. Barulhento, confuso, mas no fundo, todo mundo se ama.”
No fim do dia, quando todos foram embora, sentei na varanda com minha mãe. O sol se punha atrás dos prédios, e o cheiro de fumaça já tinha sumido. “Sabe, Manu, eu sempre achei que precisava de uma casa perfeita, uma família perfeita. Mas talvez o que a gente tem já seja suficiente.”
Abracei minha mãe, sentindo o peso dos anos, das brigas, das reconciliações. “Mãe, será que algum dia a gente vai conseguir passar um feriado sem drama? Ou será que é isso que faz a gente ser família?”
E você, já passou por um feriado desses, em que tudo parece dar errado, mas no fim, o que importa é estar junto? O que faz uma família ser de verdade?