Data de Validade Vencida

“Você não vai sair da cama hoje de novo, mãe?” A voz da minha filha, Luísa, ecoou pelo corredor estreito, atravessando a casa como um vento frio. Eu já estava de pé, mas hesitei antes de responder. O chão gelado da cozinha me lembrava que o inverno em Itabira não perdoa ninguém, nem mesmo quem já perdeu quase tudo.

O cheiro do café velho misturava-se ao mofo das paredes. Olhei para a prateleira: o pacote de arroz vencido, o leite em pó endurecido, e aquele pote de doce de leite que ganhei da dona Cida no Natal passado. Tudo com data de validade vencida. Assim como eu me sentia.

“Já estou acordada, filha”, respondi, tentando soar firme. Mas minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Luísa apareceu na porta, os cabelos desgrenhados e os olhos cansados demais para uma menina de 17 anos. Ela me olhou com aquela mistura de preocupação e impaciência que só quem cresceu rápido demais conhece.

“Precisa comer alguma coisa, mãe. Você não pode continuar assim.”

Eu queria dizer que estava tudo bem, que era só mais um dia ruim. Mas não era só um dia ruim. Era uma sequência interminável deles. Desde que o João foi embora — levando junto a metade dos móveis e toda a minha vontade de lutar — a casa parecia cada vez menor e mais escura.

Sentei à mesa, encarando o prato vazio. Luísa colocou um pão amanhecido na minha frente e sentou ao meu lado. O silêncio entre nós era pesado, cheio de coisas não ditas.

“Você vai procurar emprego hoje?”

A pergunta dela era uma faca afiada. Eu já tinha tentado de tudo: faxina na casa da dona Zuleide, vender bolo na feira, até cuidar dos filhos da vizinha por uns trocados. Mas nada durava. No interior, todo mundo conhece todo mundo — e todo mundo conhece minha história.

“Vou tentar no supermercado do seu Zé”, menti. Ela sabia que eu mentia, mas fingiu acreditar.

O relógio da parede marcava 6h15 quando Luísa saiu para a escola. Fiquei sozinha com meus pensamentos e com o barulho do vento batendo na janela quebrada da sala. Me levantei devagar, sentindo as juntas reclamarem. Fui até o quarto e encarei meu reflexo no espelho rachado: cabelos desgrenhados, olheiras profundas, pele marcada pelo tempo e pela tristeza.

Lembrei do tempo em que eu era chamada de “a moça mais bonita do bairro”. João dizia que eu iluminava qualquer lugar onde entrava. Agora, nem eu mesma conseguia me olhar por muito tempo.

Peguei minha bolsa surrada e saí para a rua. O céu ainda estava cinza, e as poucas pessoas que passavam desviavam o olhar — talvez por pena, talvez por vergonha alheia. Cruzei com dona Cida na esquina.

“Bom dia, Maria! Vai pra onde tão cedo?”

“Vou tentar a sorte no supermercado.”

Ela sorriu triste. “Se precisar de alguma coisa, passa lá em casa. Fiz um bolo ontem.”

Agradeci e segui em frente. O supermercado do seu Zé ficava a três quarteirões dali. Entrei tímida, sentindo todos os olhares sobre mim.

“Bom dia, seu Zé.”

Ele mal levantou os olhos do caixa. “Bom dia, Maria. Veio comprar ou vender?”

“Na verdade… queria saber se tem alguma vaga.”

Ele suspirou fundo. “Maria, você sabe como tá difícil… Mas se quiser ajudar a arrumar as prateleiras hoje à tarde, posso te dar uns trocados.”

Agradeci como se fosse um presente dos céus. Saí do supermercado com o coração apertado — não era um emprego fixo, mas era alguma coisa.

Voltei pra casa antes do almoço. Luísa já estava lá, sentada no sofá com o uniforme amarrotado.

“Conseguiu alguma coisa?”

“Vou ajudar o seu Zé hoje à tarde.”

Ela sorriu de leve, mas logo desviou o olhar para o celular. Eu sabia que ela conversava com amigas sobre sair daqui, tentar a vida em Belo Horizonte ou até em São Paulo. Tinha medo de ficar sozinha quando esse dia chegasse.

O almoço foi arroz requentado com ovo frito. Enquanto comíamos em silêncio, ouvi batidas na porta. Era minha irmã mais velha, Sandra.

“Maria, você precisa reagir! Não pode continuar desse jeito! Olha pra sua filha!”

Eu queria gritar que ela não entendia nada — que cada dia era uma batalha só pra levantar da cama. Mas fiquei calada.

Sandra continuou: “Você sempre foi forte! Lembra quando mamãe morreu? Foi você quem segurou tudo! Não deixa o João te destruir assim!”

As palavras dela me cortaram fundo. Levantei da mesa e fui pro quarto, trancando a porta atrás de mim. Sentei na beira da cama e chorei baixinho, pra ninguém ouvir.

Lembrei do João chegando bêbado em casa, das brigas cada vez mais frequentes, dos gritos que acordavam os vizinhos. Lembrei do dia em que ele foi embora — sem olhar pra trás — deixando só dívidas e promessas quebradas.

O tempo passou devagar naquela tarde. Fui ao supermercado ajudar seu Zé. Arrumei prateleiras até as costas doerem. Ganhei vinte reais e um pacote de biscoito vencido.

Voltei pra casa exausta. Luísa estava estudando na mesa da cozinha.

“Mãe… você já pensou em fazer aquele curso do CRAS? Dizem que estão ajudando muita gente…”

Olhei pra ela e vi esperança nos olhos — uma esperança que eu já tinha esquecido como era sentir.

Talvez fosse hora de tentar outra vez.

Naquela noite, antes de dormir, sentei na varanda e olhei pro céu estrelado do interior mineiro. Pensei em tudo que perdi — mas também em tudo que ainda podia conquistar.

Será que ainda dá tempo pra recomeçar? Ou será que minha data de validade também já venceu?