Primeiro o Crédito, Depois o Descanso: A Vida de Olívia e Cristiano
— Cristiano, você está sentindo esse cheiro? — minha voz saiu trêmula, quase um sussurro, enquanto eu me sentava na cama, o suor colando meu pijama à pele.
Ele se levantou num pulo, olhos arregalados, farejando o ar como se pudesse identificar o perigo só pelo olfato. — Tô, Olívia. Parece… parece cheiro de gás, ou sei lá, de alguém aqui dentro. — Ele pegou o celular, iluminando o corredor escuro do nosso apartamento.
Aquele era o nosso lar, nosso sonho, nosso pesadelo. Um apartamento de dois quartos na Zona Oeste do Rio, comprado com um financiamento que nos prendia mais do que qualquer corrente. O banco era nosso verdadeiro senhorio, e cada boleto pago era uma pequena vitória — ou uma derrota, dependendo do mês.
Desci da cama, coração acelerado, e segui Cristiano até a cozinha. Nada fora do lugar. As janelas estavam fechadas, a porta trancada. Mas o cheiro persistia, uma mistura de mofo, gás e algo indefinível, como medo. — Será que é paranoia minha? — perguntei, tentando rir, mas o som saiu seco.
— Não, amor. Eu também tô sentindo. — Ele me puxou para perto, mas o abraço não afastou a sensação de que algo estava errado.
Na manhã seguinte, o cheiro sumiu, mas a tensão ficou. Cristiano saiu cedo para o trabalho, e eu fiquei sozinha, encarando a pilha de contas na mesa da sala. Luz, água, condomínio, cartão de crédito — e, claro, o boleto do financiamento, aquele monstro de quase dois mil reais que nos assombrava todo mês.
Minha mãe ligou. — Olívia, você não vai vir visitar seu pai? Ele tá sentindo sua falta. — A voz dela era doce, mas eu sabia o que vinha depois. — E quando é que vocês vão ter um filho, hein? Já tá na hora, minha filha. — Suspirei, sentindo o peso de mais uma cobrança, dessa vez emocional.
— Mãe, a gente mal consegue pagar as contas. Filho agora? Nem pensar. — Ela ficou em silêncio, e eu quase podia ouvir o julgamento do outro lado da linha.
Cristiano voltou do trabalho exausto, olheiras profundas, camisa suada. — O chefe me cobrou de novo sobre aquele projeto. Se eu não entregar até sexta, tô ferrado. — Ele largou a mochila no chão e se jogou no sofá. — E o banco ligou de novo. Querem saber se a gente vai conseguir pagar a parcela desse mês.
— Eu já disse que sim. Só que… — hesitei, sentindo um nó na garganta — …só que vai apertar. O cartão tá estourado, e a geladeira tá quase vazia.
Ele passou a mão no rosto, desesperado. — Olívia, que vida é essa? A gente não vive, só sobrevive. Não lembro a última vez que a gente saiu pra jantar, ou foi à praia sem se preocupar com o preço do estacionamento.
— E descanso? — perguntei, quase rindo. — Descanso é luxo. Primeiro a gente paga o crédito, depois pensa em viver.
Naquela noite, discutimos. Cristiano queria vender o apartamento, alugar um lugar menor, começar de novo. Eu não queria abrir mão do nosso sonho, mesmo que ele estivesse nos sufocando. — Você não entende, Olívia! Isso aqui tá acabando com a gente. — Ele gritou, e eu chorei. Pela primeira vez, pensei que talvez estivéssemos mesmo presos, não só ao banco, mas um ao outro, por medo de recomeçar.
No fim de semana, fomos visitar meus pais. Meu pai, aposentado, assistia futebol na TV, enquanto minha mãe preparava um almoço simples. — Vocês parecem cansados — ela comentou, olhando para nós com preocupação. — Por que não tiram umas férias? Vão pra praia, relaxem um pouco.
Cristiano riu, amargo. — Dona Marta, férias? Só se o banco deixar. Primeiro a gente paga o crédito, depois descansa.
Meu pai, sempre calado, olhou para mim. — Filha, dinheiro vai e vem. Saúde, não. Não deixa esse apartamento virar prisão, não.
Voltamos para casa em silêncio. No elevador, Cristiano segurou minha mão. — Eu te amo, Olívia. Mas não sei quanto tempo mais aguento essa vida.
Os dias passaram, e o cheiro estranho voltou. Descobrimos que era um vazamento no encanamento do prédio, nada grave, mas o susto serviu para nos lembrar de como tudo era frágil. Nossas vidas, nosso casamento, nosso lar.
Uma noite, sentei na varanda, olhando as luzes da cidade. Pensei em tudo que havíamos sacrificado para ter aquele apartamento: viagens, festas, até nossa paz. Pensei nos amigos que ainda moravam com os pais, sem pressa de sair, sem dívidas. Pensei nos colegas que alugavam, trocando de endereço a cada aumento de aluguel, mas livres do peso do financiamento.
Cristiano sentou ao meu lado. — E aí, o que a gente faz?
— Não sei — respondi, sincera. — Só sei que não quero mais viver assim. Não quero que nosso amor vire dívida.
Ele me abraçou, e pela primeira vez em meses, chorei de alívio. Talvez fosse hora de recomeçar. Talvez fosse hora de admitir que o sonho da casa própria, para nós, virou pesadelo.
No dia seguinte, começamos a pesquisar apartamentos para alugar. O banco não gostou, nossos pais não entenderam, mas pela primeira vez em muito tempo, sentimos esperança.
Hoje, escrevo essa história do nosso novo lar — alugado, simples, mas cheio de vida. Ainda temos problemas, ainda temos contas, mas agora temos também liberdade. E, finalmente, descanso.
Às vezes me pergunto: quantos casais como nós estão presos ao sonho da casa própria, sem perceber que a verdadeira prisão é o medo de mudar? Será que vale a pena sacrificar tudo por um pedaço de chão? Quero ouvir de vocês: o que pesa mais, o sonho ou a liberdade?