Felicidade Interrompida na Velha Casa de Campo
— Uai, Mareco, cê tem certeza que é aqui mesmo? — perguntou o Lucas, olhando desconfiado para o portão enferrujado e o matagal que quase escondia a entrada da casa. Eu sorri sem graça, tentando disfarçar o incômodo. — É aqui sim, gente. Pode entrar, fiquem à vontade.
A Júlia, sempre sincera demais, não conseguiu segurar: — Nossa, Marek, achei que era maior… e, sei lá, mais cuidada. — O sotaque mineiro dela cortou como faca, e eu senti o rosto esquentar. O Felipe, que nunca perde a piada, soltou: — Se a gente sumir aqui, ninguém acha nunca mais! — e todos riram, menos eu.
A verdade é que aquela casa era tudo o que restava da minha infância. Depois que meu pai morreu, minha mãe não quis mais saber do lugar. Ficou anos fechada, só eu vinha de vez em quando, pra tentar manter alguma coisa viva ali. Mas era difícil. O dinheiro era curto, a vida em Belo Horizonte puxada, e cada vez que eu vinha, parecia que a casa afundava mais no tempo.
Enquanto meus amigos entravam, desviando dos galhos e das telhas quebradas, eu escutava as vozes deles ecoando pela sala vazia. — Olha só, tem até cheiro de mofo! — brincou a Camila, abanando a mão na frente do nariz. Eu fingi rir, mas por dentro sentia uma mistura de vergonha e raiva. Eles não entendiam. Não sabiam o que aquela casa significava pra mim.
Fui até a cozinha buscar café, tentando me acalmar. Lembrei do meu pai, sentado à mesa, contando histórias de quando era menino ali mesmo. Lembrei da minha mãe, rindo alto, antes de tudo desmoronar. Senti um nó na garganta. Por que eu tinha trazido eles ali? Pra quê expor minhas feridas desse jeito?
Quando voltei, encontrei todos sentados no chão da sala, já abrindo cerveja e tirando sarro das fotos antigas que eu tinha deixado numa caixa. — Olha o Marek criança! — gritou o Felipe, mostrando uma foto minha, de bochechas gordas, ao lado do meu pai. — Você era bonitinho, hein? O que aconteceu? — Todos riram de novo. Eu tentei sorrir, mas não consegui. Peguei a foto da mão dele, mais forte do que devia.
— Ei, pega leve — falei, a voz mais áspera do que eu queria. O clima ficou estranho por um segundo, mas logo a Camila mudou de assunto, perguntando se tinha sinal de celular ali. — Só pega lá fora, perto do poço — respondi, tentando soar casual. Ela saiu, e os outros foram atrás, curiosos. Fiquei sozinho na sala, olhando para as paredes descascadas, sentindo o peso de tudo aquilo.
De repente, ouvi um grito lá fora. Corri até o quintal e vi a Júlia parada, pálida, olhando para o velho poço coberto por uma tampa de madeira. — Marek, o que é isso aqui? — perguntou, a voz trêmula. Os outros se aproximaram, curiosos. — É só o poço antigo, não mexe aí não — pedi, mas era tarde. O Felipe já tinha tirado a tampa, revelando a escuridão lá embaixo.
— Caraca, que medo! — disse ele, jogando uma pedra lá dentro. O som demorou a voltar. — Tem coisa aí dentro, hein! — brincou. Mas eu não achei graça. Aquele poço era o centro de tudo o que eu queria esquecer.
Me aproximei devagar, sentindo o coração disparar. Lembrei da última vez que estive ali com meu pai. Lembrei do grito da minha mãe, do choro, do cheiro de terra molhada. Lembrei do segredo que ficou enterrado ali, junto com a infância que eu nunca mais recuperei.
— Vamos entrar, gente — falei, tentando disfarçar o nervosismo. Mas a Júlia não tirava os olhos de mim. — Marek, tá tudo bem? Você ficou estranho do nada. — Eu balancei a cabeça, mas ela insistiu: — Tem alguma coisa aí, né? — Os outros ficaram em silêncio, esperando minha resposta.
Senti as lágrimas subindo, mas segurei. Não queria parecer fraco. — Tem coisa que é melhor ficar enterrada — falei, baixo. Mas eles não entenderam. Ou fingiram não entender.
A noite caiu rápido, como sempre no interior. Acendemos velas, porque a luz vivia caindo. Sentamos em volta da mesa, tentando jogar conversa fora, mas o clima estava pesado. A Camila tentou animar, contando histórias engraçadas da faculdade, mas ninguém ria de verdade. O poço, a casa, tudo parecia puxar a gente pra baixo.
Depois do jantar, fui até o quintal sozinho. Sentei no degrau da varanda, olhando pro céu estrelado. Senti uma presença atrás de mim. Era a Júlia. — Marek, me conta. O que aconteceu aqui? — Ela sentou ao meu lado, o olhar suave. — Eu lembro do seu pai. Ele era tão alegre… — Eu respirei fundo. — Ele era. Até aquele dia.
Fiquei em silêncio por um tempo, ouvindo os grilos. — Meu pai… ele se matou aqui. — A frase saiu antes que eu pudesse segurar. Senti o corpo dela estremecer. — Ele se jogou no poço. Minha mãe nunca superou. Por isso ela nunca mais quis voltar. — As lágrimas vieram, quentes, silenciosas. — Eu achei que trazer vocês aqui ia me ajudar a fazer as pazes com o passado. Mas acho que só abriu a ferida de novo.
Ela me abraçou, forte. — Você não tá sozinho, Marek. A gente tá aqui. — Eu queria acreditar. Mas era difícil. O silêncio da casa parecia gritar.
Quando voltamos pra dentro, os outros perceberam que algo tinha mudado. O Felipe, mais sensível do que parecia, colocou a mão no meu ombro. — Desculpa pelas brincadeiras, cara. A gente não sabia. — Eu balancei a cabeça, sem conseguir falar.
Naquela noite, ninguém dormiu direito. Cada um ficou perdido nos próprios pensamentos. Eu fiquei olhando pro teto, ouvindo o vento batendo nas janelas, pensando em tudo o que tinha perdido. E em tudo o que ainda podia recuperar.
No dia seguinte, antes de irem embora, meus amigos me ajudaram a limpar um pouco a casa. Cortamos o mato, varremos a varanda, jogamos fora coisas velhas. Foi um gesto pequeno, mas significou muito pra mim. Pela primeira vez em anos, senti que talvez fosse possível recomeçar.
Quando eles foram embora, fiquei sozinho na casa. Sentei na varanda, olhando pro poço. Senti uma paz estranha, como se meu pai estivesse ali comigo. Talvez, finalmente, eu pudesse perdoar. A mim mesmo, à minha mãe, ao passado.
Será que a gente consegue mesmo deixar o passado pra trás? Ou será que ele sempre volta, de um jeito ou de outro? O que vocês acham?