Ciúmes de um Gato? A História de Como Minha Vida Virou de Cabeça para Baixo
— Você prefere mesmo esses gatos a mim? — a voz da minha mãe ecoou pelo telefone, carregada de mágoa e incredulidade. Eu estava sentado no sofá da sala, com a Mel, minha gata rajada, enrolada no meu colo, ronronando sem saber que era o centro de uma tempestade.
Tudo começou dois dias antes, quando tentei ligar para minha mãe, Dona Célia, como fazia religiosamente todas as manhãs e noites. O telefone só chamava, ou então ela rejeitava a ligação. No começo, achei que fosse algum problema de sinal lá no bairro dela, na Zona Norte de São Paulo. Mas, depois de tantas tentativas frustradas, comecei a sentir aquele aperto no peito, um medo irracional de que algo tivesse acontecido. Minha mãe sempre foi meu porto seguro, desde que meu pai nos deixou, quando eu tinha só dez anos. Ela era a pessoa que me ensinou a cozinhar arroz, a passar roupa, a cuidar de mim mesmo. E agora, de repente, silêncio.
Na manhã do terceiro dia, decidi ir até a casa dela. Peguei o metrô lotado, sentindo o suor escorrer pelas costas, o coração acelerado. Cheguei e bati na porta, mas ninguém respondeu. Liguei de novo, e nada. Fiquei ali, parado, olhando para a janela do apartamento dela, tentando enxergar algum movimento. Foi quando a vizinha, Dona Lourdes, apareceu no corredor.
— Ô, Rafael, sua mãe tá aí sim. Vi ela ontem na feira, mas parecia meio abatida, sabe? — disse, com aquele jeito curioso de quem quer ajudar, mas também quer saber da fofoca.
Meu coração disparou. Toquei a campainha mais uma vez, e finalmente ouvi passos arrastados. A porta se abriu devagar, e lá estava minha mãe, com os olhos inchados e a expressão fechada.
— O que você quer? — ela perguntou, sem nem me convidar para entrar.
— Mãe, o que aconteceu? Tô tentando falar com você há dias! — respondi, sentindo a voz embargar.
Ela me olhou de cima a baixo, como se eu fosse um estranho. — Agora você lembra que tem mãe, né? Porque pra cuidar de gato, você tem tempo. Pra mim, não.
Fiquei sem reação. — Como assim, mãe? O que os gatos têm a ver com isso?
Ela bufou, cruzando os braços. — Desde que você pegou esses bichos, só fala deles. Só posta foto deles. Quando vem aqui, fica olhando vídeo de gato no celular. Eu fico falando, falando, e você nem escuta. Parece que eu virei invisível.
Senti um nó na garganta. Era verdade que eu amava meus gatos, Mel e Chico. Eles me faziam companhia, especialmente depois que terminei com a Camila, minha ex-namorada, há seis meses. Mas nunca imaginei que isso pudesse magoar minha mãe desse jeito.
— Mãe, não é assim… Eu te amo, você sabe disso. Os gatos são só… companhia. Você sabe como foi difícil depois do término. Eles me ajudaram a não enlouquecer.
Ela balançou a cabeça, lágrimas começando a escorrer. — Eu sei, filho. Mas eu também sinto falta de companhia. Desde que você saiu de casa, minha vida ficou tão vazia… E agora, parece que até o pouco que eu tinha de você, perdi para esses bichos.
Fiquei ali, parado, sem saber o que dizer. Queria abraçá-la, mas ela se afastou, enxugando as lágrimas com as costas da mão.
— Vai embora, Rafael. Preciso ficar sozinha.
Saí do apartamento com o coração em pedaços. No metrô de volta, fiquei olhando para o reflexo no vidro, tentando entender como tudo tinha chegado àquele ponto. Será que eu realmente estava negligenciando minha mãe? Será que meu amor pelos gatos tinha se tornado uma barreira entre nós?
Naquela noite, sentei no chão da sala, com Mel e Chico ao meu redor. Peguei o celular e comecei a olhar as fotos: eu com eles no sofá, eles dormindo na cama, brincando com novelos de lã. Em quase todas, eu estava sorrindo. Mas, de repente, percebi que fazia tempo que não tirava uma foto com minha mãe. Fazia tempo que não a convidava para jantar, ou para passear no parque, como fazíamos antes.
No dia seguinte, comprei flores e fui até a casa dela de novo. Toquei a campainha, o coração na mão. Ela abriu a porta, ainda com o rosto cansado, mas me deixou entrar.
— Mãe, me desculpa. Eu não percebi que estava te deixando de lado. Eu… eu só queria fugir da solidão, mas acabei te deixando mais sozinha ainda.
Ela me abraçou forte, chorando baixinho. — Eu só queria meu filho de volta, Rafael. Só isso.
Ficamos ali, abraçados, por um tempo que pareceu infinito. Depois, sentei com ela na cozinha, fiz café, e conversamos como há muito não fazíamos. Contei sobre o trabalho, sobre as dificuldades de morar sozinho, sobre a saudade que sentia dela. Ela falou sobre as dores nas costas, sobre a solidão, sobre o medo de envelhecer sozinha.
— Por que você não passa o fim de semana lá em casa? — sugeri, tentando sorrir. — Mel e Chico vão adorar te ver.
Ela hesitou, mas acabou aceitando. No sábado, preparei um almoço especial, com direito a lasanha, que ela adorava. Vê-la brincando com os gatos, rindo das travessuras deles, me fez perceber como pequenas atitudes podem mudar tudo.
Mas, mesmo assim, a ferida ficou. Minha mãe passou a me ligar mais vezes, às vezes só para perguntar se os gatos estavam bem. Outras vezes, para reclamar de alguma coisa, como fazia antes. Eu passei a visitá-la mais, a convidá-la para sair, a tentar equilibrar meu tempo entre ela, os gatos, o trabalho e os amigos. Mas sempre ficava aquela dúvida: será que um dia ela vai realmente acreditar que não foi substituída por dois gatos?
Às vezes, deito na cama e fico pensando: quantas mães, quantos pais, quantos avós não se sentem assim, trocados por animais, por celulares, por rotinas corridas? Será que a gente percebe quando está deixando quem mais ama de lado? Ou só percebe quando é tarde demais?
E você, já deixou alguém importante se sentir sozinho por causa de algo que parecia inofensivo? Até onde vai o ciúme, e onde começa a solidão?