Apenas Queria Ser Feliz: A História de Alina

— Por que você não tenta dormir, Alina? — a voz cansada da minha mãe ecoou do quarto ao lado, atravessando a parede fina do nosso pequeno apartamento em Osasco. Eu queria responder, mas não tinha forças. Virei de lado, sentindo o lençol úmido grudando na pele, e encarei o teto, onde as sombras dançavam ao ritmo dos faróis que passavam na rua.

Eu só queria ser feliz. Só isso. Não era pedir muito, era? Mas desde que meu pai foi embora, há quase três anos, a felicidade parecia um luxo distante, reservado para outras pessoas, outras famílias. Ele saiu numa noite chuvosa, depois de uma briga feia com minha mãe. Lembro do grito dela, do barulho da porta batendo, da minha irmãzinha, Camila, chorando baixinho no quarto. Desde então, tudo ficou mais difícil. Minha mãe começou a trabalhar em dois empregos, eu precisei cuidar da Camila, e a casa ficou silenciosa, pesada, como se o ar tivesse engrossado.

Na escola, eu fingia que estava tudo bem. Sorria para as amigas, ria das piadas, mas por dentro sentia um vazio que não sabia explicar. Às vezes, invejava as colegas que reclamavam dos pais pegando no pé, das mães controlando o horário de chegar em casa. Eu daria tudo para ter alguém me esperando na porta, perguntando se comi direito, se fiz a lição. Mas minha mãe só chegava tarde, exausta, e Camila dormia cedo. O silêncio era meu único companheiro.

Numa dessas noites, sentei na janela do quarto, olhando a rua quase deserta. Um carro passou devagar, os faróis iluminando o asfalto molhado. Fiquei imaginando quem dirigia. Será que estava voltando para casa, para alguém que o esperava com um abraço? Ou fugia de alguma coisa, como meu pai fugiu de nós? O pensamento me apertou o peito. Senti raiva dele, mas também saudade. Tantas vezes sonhei que ele voltava, batia na porta, pedia desculpas, e tudo voltava a ser como antes. Mas era só sonho.

Minha mãe tentava ser forte, mas eu via o cansaço nos olhos dela. Às vezes, ela chorava baixinho no banheiro, achando que ninguém ouvia. Uma noite, depois de um dia especialmente difícil, sentei ao lado dela no sofá. Ela olhou para mim, os olhos vermelhos, e disse:

— Desculpa, filha. Eu queria te dar uma vida melhor. Queria que você fosse feliz.

Eu segurei a mão dela, apertando forte, e respondi:

— Eu só quero que a gente fique bem, mãe. Só isso.

Mas nem sempre era fácil. No colégio, começaram a surgir boatos. Diziam que meu pai tinha outra família, que nunca mais ia voltar. Alguns meninos riam, faziam piadas cruéis. Eu fingia não ligar, mas cada palavra era como uma facada. Um dia, não aguentei e respondi:

— Vocês não sabem de nada! — gritei, e saí correndo para o banheiro, onde chorei até não ter mais lágrimas.

Camila, minha irmã, era pequena demais para entender tudo. Às vezes, perguntava do papai, e eu inventava histórias. Dizia que ele estava viajando a trabalho, que logo voltaria. Era mentira, mas era melhor do que ver o olhar triste dela. Uma noite, ela me perguntou:

— Mana, por que o papai não liga mais pra gente?

Engoli o choro e abracei forte:

— Ele deve estar ocupado, Cami. Mas ele ama a gente, tá bom?

Ela sorriu, acreditando em mim. Senti culpa, mas também alívio. Eu só queria proteger ela do mundo, das dores que eu já conhecia tão bem.

O tempo foi passando, e a vida seguiu. Minha mãe conseguiu um emprego melhor, e as coisas começaram a melhorar um pouco. Mas a ausência do meu pai era uma sombra constante. Nos aniversários, nos natais, sempre faltava alguma coisa. Eu tentava ser forte, mas às vezes, à noite, chorava baixinho, para ninguém ouvir.

Um dia, recebi uma mensagem inesperada. Era do meu pai. O número era desconhecido, mas eu reconheci o jeito de escrever. Ele dizia que sentia saudade, que queria me ver. Meu coração disparou. Mostrei a mensagem para minha mãe, que ficou pálida. Ela não disse nada, só saiu do quarto e bateu a porta.

Fiquei dias pensando se devia responder. Queria vê-lo, queria entender por que ele foi embora. Mas também tinha medo. Medo de me machucar de novo, de ouvir verdades que não estava pronta para encarar. Conversei com minha melhor amiga, Juliana, que me aconselhou:

— Se você não for, vai passar a vida toda se perguntando o que teria acontecido. Vai lá, Alina. Pelo menos você vai saber.

Criei coragem e marquei de encontrar meu pai num café perto da estação de trem. Quando cheguei, ele já estava lá, mais velho, mais magro, mas ainda com o mesmo olhar triste. Sentamos em silêncio por alguns minutos, até que ele falou:

— Me desculpa, filha. Eu errei muito. Não consegui ser o pai que você merecia.

Eu queria gritar, queria chorar, mas só consegui perguntar:

— Por quê?

Ele suspirou, olhando para as mãos:

— Eu estava perdido, Alina. Não sabia como lidar com tudo. Achei que fugir era mais fácil. Mas me arrependo todos os dias.

Conversamos por horas. Ele contou sobre a nova vida, sobre os erros, sobre a saudade. Eu ouvi, tentando entender, tentando perdoar. Não foi fácil. Quando voltei para casa, minha mãe me esperava na sala. Sentei ao lado dela e contei tudo. Ela chorou, eu chorei, e pela primeira vez em muito tempo, senti que um peso tinha saído do meu peito.

A vida não ficou perfeita depois disso. Meu pai não voltou para casa, mas passou a ligar, a tentar se fazer presente. Minha mãe e eu continuamos lutando, cuidando uma da outra, cuidando da Camila. Aprendi que felicidade não é ausência de problemas, mas a coragem de seguir em frente, mesmo quando tudo parece difícil.

Hoje, ainda tenho noites em que o sono não vem, em que os pensamentos me assombram. Mas também tenho esperança. Espero que um dia, a dor vire só lembrança, e que eu consiga ser feliz, do meu jeito, com o que tenho.

Será que um dia a gente aprende a perdoar de verdade? Será que a felicidade é mesmo possível, mesmo com tantas cicatrizes?