Quem Sou Eu de Verdade?

— Rafael! — sussurrei, cutucando seu ombro com força. — Você tá ouvindo isso? De novo essa gritaria, já são três da manhã!

Ele resmungou, virando o rosto para o outro lado. — Deixa pra lá, Luana. Amanhã eu acordo cedo, você sabe. Eles já vão parar, sempre param.

Mas eu sabia que não iam. Não naquela noite. O som das risadas, da música alta, dos copos tilintando, parecia ecoar dentro do meu peito. Eu me levantei, sentindo o chão gelado sob meus pés, e fui até a janela. Lá em cima, luzes piscavam, sombras dançavam. Era a terceira vez naquela semana. Eu não aguentava mais.

Voltei para o quarto, sentindo o coração disparado. — Rafael, você não vai fazer nada? — insisti, já quase chorando. — Eu trabalho cedo também, sabia? Não sou só eu que tenho que aguentar tudo nessa casa!

Ele se sentou na cama, esfregando os olhos. — Luana, por favor, não começa. Eu tô cansado. Vai lá você, se tá tão incomodada.

Fiquei parada, olhando para ele, sentindo uma mistura de raiva e tristeza. Era sempre assim. Eu resolvia tudo: as contas, as compras, as brigas com os vizinhos. Rafael só queria paz, mas a paz dele era construída em cima do meu silêncio.

Peguei o roupão e saí pelo corredor. O elevador estava parado no andar de cima. Subi as escadas, cada degrau aumentando minha indignação. Quando cheguei na porta do 804, respirei fundo e bati com força.

A porta se abriu quase imediatamente. Era a Camila, de shortinho e copo na mão, sorriso largo no rosto. — Oi, vizinha! Vem curtir com a gente?

— Camila, já são três da manhã. Vocês podem, por favor, baixar o som? Eu trabalho cedo, meu marido também. Não é a primeira vez que isso acontece.

Ela riu, jogando o cabelo para trás. — Relaxa, Luana! É só hoje, prometo. A gente já tá acabando.

Atrás dela, vi o namorado, Vinícius, e mais uns cinco amigos. Todos rindo, dançando, como se o mundo lá fora não existisse. Senti uma pontada de inveja. Quando foi que eu perdi aquela leveza? Quando foi que tudo virou peso?

— Por favor, Camila. Eu realmente preciso dormir. — Minha voz saiu mais baixa do que eu queria.

Ela revirou os olhos, mas fechou um pouco a porta. — Tá bom, tá bom. Vou pedir pro Vini baixar o som. Boa noite, vizinha!

Desci as escadas sentindo um nó na garganta. Quando entrei em casa, Rafael já estava roncando de novo. Sentei na beira da cama, olhando para o teto. O barulho diminuiu, mas dentro de mim o tumulto só aumentava.

No dia seguinte, acordei com o despertador tocando. Rafael já tinha saído. Na mesa, um bilhete: “Bom dia, Lu. Não esquece de pagar a conta de luz. Te amo.”

Suspirei. Fui para o trabalho no metrô lotado, sentindo o peso das olheiras e do cansaço. No escritório, ninguém percebeu. Eu era invisível. A secretária eficiente, a colega que nunca reclama. Mas por dentro, eu gritava.

Na hora do almoço, liguei para minha mãe. — Mãe, você já passou por isso? Sentir que ninguém te escuta? Que tudo depende de você?

Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Filha, casamento é assim mesmo. A gente aprende a engolir uns sapos. Mas não deixa de ser você, viu? Não se perde.

Desliguei sentindo um vazio ainda maior. Quem eu era, afinal? A esposa dedicada, a funcionária exemplar, a vizinha chata? Ou aquela menina que sonhava em viajar, em dançar até de manhã, em ser feliz sem pedir desculpas?

Naquela noite, Rafael chegou tarde. Trazia cheiro de cerveja e cansaço. — Oi, amor. Como foi seu dia?

— Igual a todos os outros — respondi, tentando não chorar. — Você já pensou em como a gente tá vivendo? Só trabalho, contas, reclamações. Quando foi a última vez que a gente fez algo juntos?

Ele me olhou, surpreso. — Ué, mas a vida é assim, Luana. Não tem muito o que fazer. A gente trabalha, paga as contas, dorme. O que mais você quer?

— Eu quero viver, Rafael! Quero sentir que eu existo, que eu sou mais do que isso aqui. — Minha voz saiu trêmula, mas firme.

Ele ficou em silêncio, olhando para a televisão. — Você tá cansada, só isso. Vai passar.

Mas não passou. Nos dias seguintes, o barulho dos vizinhos continuou. As contas se acumulavam. Rafael cada vez mais distante. Eu me sentia presa, sufocada, como se minha vida estivesse passando diante dos meus olhos e eu não conseguisse segurar nada.

Uma noite, depois de mais uma discussão, saí de casa sem rumo. Andei pelas ruas do bairro, sentindo o vento frio no rosto. Passei por um barzinho, ouvi uma música que gostava. Entrei. Sentei no balcão, pedi uma cerveja.

Ao meu lado, uma mulher sorria para mim. — Primeira vez aqui? — perguntou.

— É. Só precisava sair um pouco de casa.

Ela assentiu, como se entendesse tudo. — Às vezes, a gente precisa se lembrar de quem é. Eu me chamo Patrícia.

Conversamos por horas. Ela me contou sobre o divórcio, sobre recomeçar do zero, sobre não ter medo de ser julgada. Pela primeira vez em muito tempo, senti que alguém me via de verdade.

Voltei para casa de madrugada, leve. Rafael estava acordado, me esperando. — Onde você estava?

— Eu precisava respirar. Precisava lembrar quem eu sou.

Ele não entendeu. Talvez nunca entendesse. Mas naquele momento, eu sabia: não podia mais viver no automático. Não podia mais ser só o que esperavam de mim.

No dia seguinte, procurei um terapeuta. Comecei a escrever, a dançar sozinha na sala, a dizer não quando precisava. Os vizinhos continuaram fazendo festas, mas eu aprendi a colocar limites. Aprendi a me ouvir.

Hoje, olhando para trás, vejo que aquela noite foi um divisor de águas. Não foi fácil. Ainda não é. Mas, pela primeira vez, sinto que estou vivendo de verdade.

E você? Já se perguntou quem é de verdade, por trás de todas as máscaras? Será que vale a pena viver só para agradar os outros, ou chegou a hora de se ouvir também?