Como Vim Parar Aqui?

— Dona Maria, a senhora vai tomar o remédio agora ou depois do almoço? — a voz da enfermeira ecoou pelo quarto, cortando meus pensamentos como faca afiada. Olhei para ela, uma moça jovem, cansada, com olheiras profundas e um sorriso forçado. Não respondi de imediato. Meus dedos tremiam enquanto apertavam o tecido do roupão, aquele mesmo que usei por tantos anos para tomar café na varanda, olhando o movimento da rua em Osasco, ouvindo o barulho dos ônibus e o grito das crianças indo pra escola.

Agora, tudo que escuto são gemidos, tosses e o arrastar de chinelos no corredor. O cheiro de repolho cozido se mistura ao de remédios baratos e àquele odor agridoce de velhice, que parece grudar na pele. Sinto falta do cheiro do café fresco, do pão quentinho que eu mesma fazia, do perfume de lavanda que minha neta, Ana Clara, adorava sentir quando me abraçava. Onde foi parar minha família?

Lembro do dia em que minha filha, Patrícia, veio me visitar com o genro, Marcelo. Ela entrou apressada, falando no celular, mal me olhou nos olhos. — Mãe, a senhora precisa entender, não dá mais pra ficar sozinha. O médico falou que é perigoso, a senhora já caiu duas vezes. — Eu tentei argumentar, dizer que só tropecei porque o tapete estava enrolado, mas ela não quis ouvir. — A gente não tem tempo, mãe. Eu trabalho, o Marcelo também. A Ana Clara tá cheia de coisa da faculdade. — Senti um nó na garganta, mas engoli o choro. Não queria dar trabalho, nunca quis.

No dia da mudança, Patrícia chorou. Mas era um choro apressado, de quem já estava pensando no próximo compromisso. — A senhora vai ficar bem aqui, mãe. Tem gente pra cuidar, comida, tudo certinho. — Ela me abraçou rápido, como quem tem medo de se apegar demais. Ana Clara nem veio. Mandou mensagem: “Vó, desculpa, tô cheia de prova. Te amo!”. Fiquei olhando para a tela do celular até a bateria acabar.

No asilo, tudo é rotina. Café às seis, banho às sete, remédio às oito. Almoço às onze, cochilo à uma, lanche às três. Jantar às seis, novela às sete. Depois, silêncio. Um silêncio pesado, cortado só pelo choro de dona Zuleide, que perdeu o filho pra violência do bairro, ou pelos gritos de seu Antônio, que chama pela esposa morta há dez anos. Aqui, cada um carrega sua dor como pode.

Às vezes, me pego conversando sozinha. — Maria, como foi que você chegou aqui? — pergunto para o espelho rachado do banheiro. Vejo uma mulher de cabelos brancos, rosto enrugado, olhos cansados. Não reconheço mais aquela moça cheia de sonhos que veio do interior pra tentar a vida em São Paulo. Lembro do meu marido, José, que morreu cedo demais, vítima de um AVC. Fiquei sozinha com Patrícia, lutei tanto pra dar tudo pra ela. Trabalhei de diarista, lavando roupa pra fora, cozinhando pra vizinha. Nunca reclamei. E agora, sou um peso?

No domingo, algumas famílias vêm visitar os velhos. Trazem bolo, refrigerante, tiram fotos pra postar no Instagram. Eu fico esperando, arrumo o cabelo, passo um batonzinho velho que achei na bolsa. Mas Patrícia quase nunca vem. — Mãe, tá difícil, a gasolina tá cara, a Ana Clara tá estudando, o Marcelo tá trabalhando de fim de semana. — Sempre tem uma desculpa. No começo, eu chorava. Agora, só sinto um vazio.

Outro dia, Ana Clara me ligou por vídeo. — Vó, olha só, tirei 9,5 na prova de Direito! — Ela parecia feliz, mas apressada. — Que bom, minha filha. Quando vem me ver? — Ela desviou o olhar. — Assim que der, vó. Tô cheia de coisa. — A ligação caiu. Fiquei olhando pro teto, tentando lembrar do cheiro do cabelo dela quando era criança.

Aqui dentro, as histórias se repetem. Dona Zuleide fala do filho que prometeu buscá-la no Natal. Seu Antônio mostra a foto da esposa, já amarelada pelo tempo. Dona Cida reza o terço todos os dias, pedindo pra Deus levar logo. Eu tento me agarrar às lembranças boas, mas elas doem. Sinto falta do barulho da panela de pressão, do cheiro de feijão, do calor da casa cheia nos domingos. Sinto falta de ser necessária, de ser amada.

Às vezes, escuto as funcionárias conversando no corredor. — Coitada da dona Maria, a família largou ela aqui. — Fico com raiva. Não quero piedade. Só queria um pouco de atenção, um telefonema, um abraço. Será pedir demais?

Outro dia, uma briga estourou no refeitório. Seu Antônio não queria tomar o remédio, jogou o prato no chão. Dona Cida começou a chorar, dizendo que queria ir embora. Eu fiquei quieta, olhando pela janela, tentando lembrar do cheiro da chuva na terra do sítio onde cresci. Sinto falta até das brigas com Patrícia, das reclamações do José, do barulho da Ana Clara correndo pela casa.

No Natal, ganhei um panetone da prefeitura. As funcionárias fizeram uma festinha, com música brega e refrigerante quente. Patrícia mandou uma mensagem: “Feliz Natal, mãe. Deus te abençoe.” Não ligou, não veio. Chorei escondida no banheiro, pra ninguém ver. Senti uma dor tão grande que achei que ia morrer ali mesmo, abraçada ao roupão velho.

No Ano Novo, fiz uma promessa: se sobreviver mais um ano, vou tentar perdoar. Perdoar Patrícia, por não saber lidar com a velhice da mãe. Perdoar Ana Clara, por estar ocupada demais pra lembrar de mim. Perdoar a mim mesma, por ter criado uma família que não sabe mais o que é amor de verdade.

Hoje, acordei cedo. O sol entrou pela janela, iluminando o quarto pequeno. Olhei pro espelho e vi uma mulher cansada, mas ainda viva. — Maria, você ainda está aqui. Ainda pode sentir, ainda pode amar. — Me abracei, tentando encontrar algum consolo.

Será que um dia minha família vai entender o que é solidão? Será que alguém aí fora sabe o que é ser esquecido por quem mais se ama? Se você já sentiu isso, me conta: como faz pra seguir em frente sem perder a esperança?