Amor de Cima, Dor de Baixo: A História de Vítor e a Vizinha do 102

“Vítor, pelo amor de Deus, só fica com eles até eu voltar do postinho!” O pedido da minha irmã, Viola, veio entre soluços e o barulho da chaleira apitando. Eu já estava de saída, mala pronta, passagem comprada, Liza me esperando no Uber. Mas como dizer não para a Viola? Ela, com o rosto inchado de choro, o termômetro na mão e as crianças tossindo no sofá. “Prometo que volto logo, é só pegar o remédio da Luísa.”

Suspirei, larguei a mala no canto e mandei mensagem para a Liza: “Aconteceu um imprevisto. Me espera?” O visto azulzinho demorou a aparecer. O relógio marcava 7h40 da manhã e o prédio inteiro parecia acordar junto com o caos da minha vida. O cheiro de café queimado, o som da televisão alta vindo do 104, e, claro, a vizinha do 102, Dona Marlene, reclamando do barulho das crianças. “Vítor, não dá pra controlar esses meninos? Tem gente que trabalha de noite!”

“Desculpa, Dona Marlene, hoje tá difícil.”

Ela bufou, bateu a porta e eu me sentei no chão, entre a mochila da escola do Lucas e o cobertor da Luísa. O celular vibrou: “Vítor, não sei se vou conseguir esperar. O Uber já tá aqui.” Era a Liza. Senti o estômago revirar. Tantos meses planejando essa viagem, só nós dois, longe de tudo. Mas como abandonar minha irmã? Depois que o marido dela sumiu, Viola só tinha a mim. E eu, mesmo cansado, não conseguia virar as costas.

As crianças tossiam, Luísa com febre, Lucas pedindo pão de queijo. Liguei a TV para distraí-los, mas logo o interfone tocou. Era a síndica, Dona Célia: “Vítor, precisamos conversar sobre o barulho. Tem vizinho ameaçando chamar a polícia.”

“Dona Célia, minha sobrinha tá doente, minha irmã saiu buscar remédio. Eu tô tentando…”

“Eu entendo, mas o prédio tem regras. E a Dona Marlene tá nervosa.”

Desliguei, sentindo o peso do prédio inteiro nas minhas costas. Olhei para o corredor, vi Dona Marlene espiando pela porta entreaberta. Ela sempre foi assim, amarga desde que o marido morreu. Dizem que ela nunca mais desceu para o pátio, nunca mais sorriu. Às vezes, penso que ela só quer companhia, mas não sabe pedir.

O tempo passou devagar. Liza mandou outra mensagem: “Não posso perder o voo. Me avisa se conseguir vir.” Senti vontade de chorar. Olhei para Luísa, suando, e para Lucas, com os olhos arregalados de medo. “Vai dar tudo certo, tá bom?”

Viola voltou quase duas horas depois, exausta, mas aliviada. “Obrigada, mano. Você é tudo que eu tenho.”

Peguei a mala, desci as escadas correndo, mas o Uber já tinha ido. Liza não respondeu mais. Sentei no degrau, cabeça entre as mãos. O cheiro de feijão vindo do 101 me fez lembrar da infância, quando minha mãe ainda estava viva e tudo parecia mais simples. Agora, tudo era peso, responsabilidade, escolhas impossíveis.

A porta do 102 se abriu. Dona Marlene apareceu, segurando uma xícara de café. “Quer um pouco? Parece que você precisa.”

Aceitei, sem forças para recusar. Sentamos no banco do corredor, em silêncio. Ela olhou para mim, olhos vermelhos, voz baixa: “Sabe, Vítor, às vezes a gente só quer alguém pra escutar. Eu reclamo, mas é porque não tenho mais ninguém.”

Fiquei sem palavras. Pensei em Liza, na viagem perdida, na minha irmã, nas crianças. Pensei em Dona Marlene, sozinha, esperando alguém bater na porta. Pensei em mim, sempre tentando agradar todo mundo, sempre ficando para trás.

“Você já amou alguém, Dona Marlene?”

Ela sorriu triste. “Já. Mas o amor, às vezes, é só silêncio. E saudade.”

Ficamos ali, dois estranhos unidos pela solidão. O prédio, tão cheio de gente, parecia vazio. O som das crianças brincando no apartamento de cima, o cheiro de comida, o barulho do trânsito lá fora. Tudo continuava igual, mas dentro de mim, algo tinha mudado.

Voltei para casa, mandei mensagem para Liza: “Desculpa. Não consegui ir.” Ela respondeu horas depois: “Eu entendo. Mas não sei se consigo esperar por você sempre.”

Deitei na cama, ouvindo o som do prédio, sentindo o peso das escolhas. Será que algum dia vou conseguir viver para mim? Ou estou condenado a ser sempre o apoio dos outros, o ombro amigo, o irmão responsável, o vizinho compreensivo?

Às vezes, me pergunto: até quando a gente aguenta ser o alicerce de todo mundo sem desmoronar por dentro? Será que um dia alguém vai cuidar de mim como eu cuido dos outros?