Purê de Batata, Frango e Um Divórcio Que Não Aconteceu em São Paulo
— Você não vai nem perguntar como foi meu dia? — minha voz saiu mais amarga do que eu queria, mas era impossível segurar. O cheiro do purê de batata misturado ao frango assado invadia a cozinha do nosso pequeno apartamento na Vila Mariana, mas não conseguia aquecer meu peito. Rafael, de costas pra mim, mexia a panela como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo.
— Achei que você estivesse cansada demais pra conversar — ele respondeu, sem olhar pra mim. O silêncio que se seguiu foi tão denso que quase dava pra cortar com a faca.
Eu larguei a bolsa na cadeira e me sentei à mesa, sentindo o corpo inteiro doer depois de dez horas em pé no caixa do supermercado. Meus olhos ardiam, mas era o coração que pesava mais. Olhei para Rafael, tentando lembrar quando foi que a gente começou a se perder. Talvez tenha sido quando ele perdeu o emprego na gráfica e passou a ficar em casa, ou quando eu comecei a fazer hora extra pra pagar as contas. Ou talvez tenha sido antes disso, quando os sonhos ficaram pequenos demais pra caber na nossa rotina.
Ele colocou um prato na minha frente. Purê de batata, frango assado e um pouco de salada. Tudo arrumado com um cuidado que me deu raiva. Como se comida pudesse consertar o que estava quebrado entre nós.
— Obrigada — murmurei, sem conseguir encará-lo.
Comemos em silêncio. Só o barulho dos talheres e o vento frio entrando pela janela mal fechada. Eu queria gritar, perguntar por que ele não procurava emprego com mais vontade, por que não me abraçava mais à noite, por que parecia tão distante mesmo estando tão perto. Mas tudo ficou preso na garganta.
Depois do jantar, fui direto pro banho. A água quente escorria pelo meu corpo, levando embora a sujeira do dia, mas não o cansaço da alma. Apoiei a testa na parede de azulejos e chorei baixinho, pra ninguém ouvir. Chorei por mim, por ele, pelo casamento que parecia estar desmoronando devagarzinho.
Quando saí do banheiro, Rafael estava sentado no sofá, olhando pro nada. A TV ligada em algum programa qualquer. Sentei ao lado dele, sentindo o abismo entre nós.
— A gente precisa conversar — falei, finalmente.
Ele desligou a TV e me olhou nos olhos pela primeira vez em semanas.
— Eu sei — respondeu baixo. — Eu também tô cansado disso tudo, Marina.
Meu nome saiu da boca dele como um pedido de desculpas. Senti vontade de abraçá-lo, mas fiquei imóvel.
— Você não sente mais nada por mim? — perguntei, com medo da resposta.
Ele suspirou fundo.
— Sinto… mas é diferente agora. Parece que a vida engoliu a gente. Eu me sinto inútil aqui em casa, você chega sempre exausta… Eu tentei fazer o jantar pra te agradar, mas nem isso parece ajudar.
As lágrimas voltaram sem aviso.
— Eu só queria que você lutasse por nós — sussurrei. — Que mostrasse que ainda vale a pena.
Ele passou a mão no rosto, nervoso.
— Eu não sei mais como fazer isso, Marina. Eu mando currículo todo dia, mas ninguém responde. Me sinto um peso pra você. E você… parece que já desistiu da gente faz tempo.
Ficamos ali, encarando nossas próprias dores. O relógio marcava quase meia-noite quando ele falou:
— Você quer se separar?
A pergunta ficou pairando no ar. Pensei em tudo: nos anos juntos, nas brigas, nos momentos bons que pareciam tão distantes agora. Pensei na minha mãe dizendo que casamento é assim mesmo, cheio de altos e baixos. Pensei no medo de ficar sozinha num mundo tão difícil.
— Eu não sei — respondi honestamente. — Só sei que não aguento mais viver desse jeito.
Naquela noite, dormimos em camas separadas pela primeira vez desde que nos casamos. O silêncio era ensurdecedor.
No dia seguinte, acordei antes do sol nascer. Fui pra cozinha fazer café e encontrei Rafael sentado à mesa com uma folha de papel na mão.
— Escrevi uma carta pra você — disse ele, sem levantar os olhos.
Peguei a carta com as mãos trêmulas e comecei a ler:
“Marina,
Eu sei que falhei com você de muitas formas. Sei que deixei o peso da vida cair todo sobre seus ombros e me escondi atrás das minhas frustrações. Mas eu ainda te amo. Não sei se isso é suficiente pra consertar tudo, mas quero tentar. Se você quiser tentar também… me diz o que eu preciso mudar. Me ensina de novo como te fazer feliz.”
As palavras dele me desmontaram. Sentei ao lado dele e chorei de novo, dessa vez sem vergonha.
— Eu também quero tentar — falei baixinho.
Nos abraçamos ali mesmo, entre o cheiro de café e pão torrado. Não era um final feliz de novela das oito. Era só o começo de uma tentativa nova, cheia de incertezas e medo, mas também de esperança.
Naquela noite fria de outono em São Paulo, percebi que às vezes o amor não acaba — ele só se esconde atrás das dores do dia a dia. E talvez tudo o que a gente precise seja coragem pra olhar um no outro e dizer: “Vamos tentar mais uma vez?”
Será que todo casamento passa por isso? Ou será que tem horas em que é melhor mesmo cada um seguir seu caminho? O que vocês acham?