Remédio para o Vazio: A História de Ludmila e Wagner

— Wagner, o que a gente vai fazer agora? — minha voz saiu trêmula, quase um sussurro, enquanto eu olhava para o teste de farmácia em cima da pia do banheiro do nosso minúsculo quarto no alojamento da UFRJ. O resultado era inegável: duas linhas vermelhas, tão fortes quanto o medo que me apertava o peito.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o chão. O barulho dos ônibus passando na Avenida Brasil parecia zombar da nossa angústia. — Não sei, Ludmila. Não sei mesmo. — Ele passou as mãos no rosto, como se quisesse acordar de um pesadelo.

Eu queria gritar, correr, sumir. Mas tudo que consegui foi sentar no chão frio e chorar. Chorei por mim, por ele, pelos nossos pais que tinham orgulho dos filhos universitários, pelo futuro que parecia tão promissor até ontem. Chorei porque sabia que nada seria igual.

Wagner se ajoelhou ao meu lado e me abraçou. — A gente vai dar um jeito. Eu prometo.

Mas promessas não pagam aluguel nem compram fraldas.

No dia seguinte, liguei para minha mãe em Belo Horizonte. Ela atendeu animada, perguntando das provas finais. Quando contei, o silêncio do outro lado foi ensurdecedor.

— Ludmila, minha filha… — a voz dela falhou. — Você sabe o quanto a vida é difícil. Como vocês vão se virar?

Eu não sabia responder. Só conseguia pensar no olhar decepcionado do meu pai quando soubesse.

Wagner também teve que encarar os pais dele em Nova Iguaçu. A mãe dele chorou, o pai ficou furioso. — Você não tem juízo, rapaz? Mal consegue pagar a passagem pra faculdade! Vai sustentar uma família como?

A partir daquele dia, tudo mudou. Os amigos começaram a se afastar, as festas ficaram para trás. Eu sentia inveja das colegas que só se preocupavam com TCC e estágios. Meu corpo mudava rápido demais; minha cabeça, mais ainda.

As brigas entre mim e Wagner ficaram frequentes. Ele arrumou um bico numa lanchonete perto da Central do Brasil, mas o dinheiro mal dava para o básico. Eu tentei continuar indo às aulas, mas os enjoos e o cansaço me venciam.

Uma noite, depois de uma discussão feia sobre dinheiro, Wagner saiu batendo a porta. Fiquei sozinha no quarto escuro, ouvindo os gritos de outros estudantes no corredor e sentindo uma solidão esmagadora.

No mês seguinte, fomos despejados do alojamento porque não pagamos a taxa de manutenção. Dormimos duas noites na casa de uma amiga minha, depois fomos para a casa dos pais dele. A mãe nos recebeu com carinho, mas o pai fazia questão de lembrar todos os dias que estávamos ali de favor.

O tempo foi passando devagar. Cada ultrassom era uma mistura de alegria e medo: alegria por ouvir o coraçãozinho batendo forte; medo do futuro incerto.

No oitavo mês de gravidez, Wagner perdeu o emprego na lanchonete. Eu já não conseguia sair da cama direito. Minha mãe veio do interior para ajudar no parto e trouxe um pouco de comida e roupas de bebê feitas à mão.

O parto foi difícil. Fiquei horas em trabalho de parto no hospital público lotado de Madureira. Quando finalmente ouvi o choro da minha filha, Letícia, senti uma onda de amor e desespero ao mesmo tempo.

Os primeiros meses foram os mais duros da minha vida. Letícia chorava muito; eu chorava mais ainda. Wagner tentava bicos aqui e ali, mas nada era fixo. As contas se acumulavam na mesa da cozinha improvisada.

Minha sogra ajudava como podia, mas o sogro fazia questão de jogar na cara cada pacote de fralda comprado. Minha mãe voltou para Minas chorando por me deixar naquela situação.

Comecei a sentir uma tristeza profunda, um vazio que não passava nem com o sorriso da minha filha. Às vezes pensava em sumir, desaparecer no mundo sem deixar rastros.

Um dia, Wagner chegou em casa cansado e me encontrou chorando no banheiro com Letícia no colo.

— Ludmila… você precisa de ajuda — ele disse baixinho.

Eu só balancei a cabeça.

No posto de saúde do bairro, a enfermeira percebeu meu estado e me encaminhou para um grupo de apoio a mães jovens com depressão pós-parto. Lá conheci outras meninas como eu: Ana Paula, que largou o ensino médio; Jéssica, que foi expulsa de casa; Camila, que perdeu o namorado num acidente de moto.

Aos poucos fui entendendo que não estava sozinha. Que aquela tristeza tinha nome e tratamento. Comecei a tomar remédio e fazer terapia comunitária no posto.

Wagner também mudou. Parou de reclamar tanto e passou a dividir mais as tarefas com Letícia. Às vezes ele chegava tarde do trabalho com um pão doce só para me ver sorrir.

Com o tempo, consegui terminar a faculdade à distância graças ao apoio das colegas que gravavam as aulas pra mim. Wagner arrumou um emprego melhor numa oficina mecânica.

Letícia cresceu saudável e esperta. Aprendi a amar minha nova vida — não porque era perfeita ou fácil, mas porque era real e minha.

Hoje olho para trás e vejo quanto amadureci na marra. Sinto orgulho da mulher que me tornei mesmo quando tudo parecia perdido.

Às vezes me pergunto: quantas meninas como eu existem agora mesmo sentindo esse vazio? Quantas têm coragem ou apoio para pedir ajuda? Será que algum dia vamos aprender a acolher em vez de julgar?