Em Busca da Felicidade nas Férias: Areias de Ilhéus
— Você nunca me escuta, Rafael! — gritou Mariana, a voz dela se perdendo no barulho das ondas de Ilhéus. Eu estava parado na varanda da pousada, olhando o mar que ela tanto sonhou conhecer, mas sentindo um peso no peito que não me deixava respirar direito.
Era para ser nossa viagem dos sonhos. Passamos o ano inteiro planejando cada detalhe: o hotel de frente para a praia, os passeios de barco, até o restaurante onde comeríamos moqueca baiana. Mariana queria fugir do caos de São Paulo, esquecer o trabalho, as contas, a rotina sufocante. Eu só queria vê-la sorrir de novo, como no começo do nosso casamento.
Mas desde o primeiro dia tudo parecia dar errado. O voo atrasou, perdemos a reserva do carro, e Mariana ficou horas reclamando do calor e do cheiro de maresia. No segundo dia, ela chorou porque a água do chuveiro era fria. Eu tentei abraçá-la, mas ela se afastou.
— Você não entende! — ela disse, os olhos vermelhos. — Eu só queria uns dias de paz, Rafael. Só isso.
Eu também queria paz. Mas como explicar que eu estava exausto? Que meu chefe me ligou três vezes só naquela manhã, cobrando relatórios? Que eu sentia um medo absurdo de perder o emprego e não conseguir pagar nem essa viagem?
Naquela noite, saímos para jantar num restaurante à beira-mar. Mariana ficou em silêncio quase o tempo todo. Quando o garçom trouxe a comida, ela olhou para mim e disse:
— Você lembra quando a gente sonhava em viajar pelo Brasil inteiro? Quando a gente fazia planos para ter filhos?
Eu lembrei. Lembrei das promessas feitas na varanda do nosso primeiro apartamento alugado, das noites em claro conversando sobre o futuro. Mas agora tudo parecia tão distante.
— Lembro sim — respondi, tentando sorrir. — Mas a vida ficou complicada, né?
Ela largou os talheres e olhou para mim com uma tristeza que me cortou por dentro.
— Não era pra ser assim, Rafael. Não era pra gente se sentir tão sozinho mesmo estando juntos.
Na volta para a pousada, caminhamos em silêncio pela areia fria. O céu estava cheio de estrelas, mas eu só conseguia pensar em como tudo tinha dado errado.
No terceiro dia, Mariana acordou cedo e saiu sozinha para caminhar na praia. Quando voltou, parecia diferente. Sentou-se ao meu lado na cama e segurou minha mão.
— Rafael, eu preciso te contar uma coisa.
Meu coração disparou. Pensei em mil possibilidades: uma doença, uma traição, um segredo antigo vindo à tona.
— O que foi?
Ela respirou fundo.
— Eu não sei mais se estou feliz ao seu lado.
O mundo parou por um instante. Senti vontade de gritar, de chorar, de pedir desculpas por tudo que eu não sabia que tinha feito de errado.
— Por quê? — consegui perguntar.
Ela olhou para o chão.
— Porque a gente parou de tentar. Porque você só pensa no trabalho e eu só penso no que poderia ter sido. Porque a gente esqueceu como é ser feliz junto.
Fiquei em silêncio. Não sabia o que dizer. Só sentia um vazio enorme dentro de mim.
Naquele dia, não saímos do quarto. Ficamos ali, cada um perdido nos próprios pensamentos. À noite, Mariana sugeriu que fôssemos até o centro histórico de Ilhéus. Caminhamos entre casarões antigos e igrejas iluminadas. Ela comprou um sorvete de cacau e me ofereceu um pouco.
— Sabe — ela disse — talvez a gente precise aprender a ser feliz com o que tem agora, não com o que sonhou lá atrás.
Eu concordei com a cabeça, mas por dentro ainda doía demais.
No penúltimo dia da viagem, choveu forte. Ficamos assistindo TV na pousada enquanto a tempestade caía lá fora. Mariana encostou a cabeça no meu ombro e sussurrou:
— Eu ainda te amo, Rafael. Só não sei se isso é suficiente.
Eu segurei sua mão com força.
— Eu também te amo. E quero tentar de novo…
Ela sorriu triste.
— Então vamos tentar ser felizes aqui e agora? Nem que seja só por hoje?
Saímos correndo na chuva como dois adolescentes. Rimos até doer a barriga. Pela primeira vez em meses, senti um pouco de leveza.
No último dia em Ilhéus, sentamos na areia molhada e vimos o sol nascer juntos. Mariana encostou a cabeça no meu ombro e ficou em silêncio por um tempo.
— Você acha que dá pra recomeçar mesmo depois de tanto tempo juntos? Ou será que tem coisas que não voltam mais?
Fiquei olhando o mar imenso à nossa frente e pensei em tudo que vivemos ali: as brigas, as lágrimas, os pequenos momentos de alegria no meio do caos.
Talvez felicidade não seja um destino ou uma praia perfeita no litoral baiano. Talvez seja só isso: tentar de novo todos os dias, mesmo quando parece impossível.
E você? Já sentiu que procurava felicidade em lugares errados? Será que vale a pena insistir ou é melhor deixar ir?