Entre o Amor e o Destino: Escolhas de Ewa
— Você nunca vai ser ninguém se continuar pensando pequeno, Ewa! — gritou minha mãe, batendo a porta do quarto com tanta força que os quadros quase caíram da parede. Eu ainda sentia o cheiro do café requentado e do suor do meu pai, que dormia no sofá depois de mais uma noite de cachaça. Olhei para o espelho rachado e repeti baixinho: “Eu vou sair daqui. Eu vou ser alguém.”
No primeiro dia na Universidade Federal de Minas Gerais, tudo parecia um sonho distante da poeira vermelha da minha cidadezinha, São José do Paraíso. O campus era enorme, as pessoas andavam apressadas, e eu me sentia invisível — até cruzar com Camila no corredor do prédio de Letras. Ela tinha um sorriso aberto, cabelo cacheado preso num coque desleixado e olhos que pareciam enxergar além da superfície.
— Você é caloura também? — perguntou, me tirando do transe.
Assenti, tentando esconder o sotaque forte do interior. Ela riu, me puxou pelo braço e disse: — Vem comigo, vou te mostrar onde o pessoal se reúne pra tomar café.
A partir daquele momento, éramos inseparáveis. Estudávamos juntas, dividíamos marmita no bandejão, ríamos das piadas internas sobre os professores e chorávamos as saudades de casa. Camila vinha de Belo Horizonte, filha única de uma professora universitária e de um advogado. Tudo nela parecia fácil: a fala, o jeito de se vestir, até a forma como enfrentava o mundo.
Eu, por outro lado, carregava o peso de cada centavo gasto com passagem, cada ligação da minha mãe cobrando notas altas e cada olhar torto dos colegas quando eu dizia que era filha de pedreiro. Mas com Camila eu me sentia livre, como se pudesse ser quem eu quisesse.
Foi numa noite chuvosa, depois de uma festa no Diretório Acadêmico, que tudo mudou. Voltávamos para o alojamento quando ela segurou minha mão. Meu coração disparou.
— Ewa… você já pensou que talvez… a gente seja mais do que amigas? — sussurrou.
Fiquei muda. O medo tomou conta. Na minha cidade, duas mulheres juntas era motivo de escândalo. Lembrei dos olhares atravessados na missa, das piadas dos meninos na praça.
— Eu… não sei — respondi, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos.
Camila me abraçou forte. — Não precisa ter medo comigo.
Naquela noite, dormimos juntas pela primeira vez. O mundo parecia caber dentro daquele quarto apertado e úmido do alojamento. Mas a felicidade durou pouco.
No mês seguinte, minha mãe apareceu sem avisar em Belo Horizonte. Encontrou minhas roupas misturadas às de Camila e não demorou para perceber o que estava acontecendo.
— Você tá envergonhando nossa família! — gritou, chorando na rodoviária. — Seu pai vai morrer se souber disso!
Tentei explicar que era amor, que eu não tinha escolhido sentir aquilo. Mas ela só enxergava vergonha e pecado.
Os telefonemas em casa viraram ameaças veladas:
— Se continuar com isso, não precisa mais voltar pra cá!
Camila tentou me consolar:
— Você não deve nada pra ninguém. Sua vida é sua!
Mas eu sentia o peso da culpa esmagando meu peito. As notas começaram a cair. Faltava às aulas para evitar comentários maldosos dos colegas que descobriram sobre nós pelas redes sociais. Até os professores pareciam me olhar diferente.
Uma noite, depois de uma briga feia com Camila — ela queria assumir nosso namoro para todos; eu só queria desaparecer — saí andando sem rumo pelo campus. Sentei num banco perto do lago e chorei como nunca.
Lembrei do meu pai bêbado dizendo que mulher tinha que casar com homem trabalhador. Lembrei da minha mãe rezando para “Deus tirar o demônio” de mim quando descobriu sobre Camila.
No semestre seguinte, tranquei a faculdade sem avisar ninguém. Voltei para São José do Paraíso com uma mala pequena e um coração despedaçado.
Minha mãe fingiu que nada tinha acontecido. Meu pai nem olhou na minha cara durante semanas. Arrumei um emprego como caixa no supermercado da cidade. Todo dia era igual: acordar cedo, aguentar piadinhas dos colegas sobre minha “fase universitária”, ouvir minha mãe reclamar das contas e ver meu pai afundar cada vez mais na bebida.
Às vezes sonhava com Camila. Imaginava ela seguindo a vida em BH, conhecendo outras pessoas, talvez até esquecendo de mim.
Um ano se passou assim até que recebi uma carta dela:
“Ewa,
Eu tentei te esquecer, mas não consigo. Sei que você tem medo, mas não podemos viver escondidas para sempre. Se quiser tentar de novo, estarei te esperando na rodoviária de BH no próximo sábado às 15h.
Com amor,
Camila”
Passei dias olhando para aquela carta. Minha mãe percebeu meu silêncio e perguntou:
— Vai ficar infeliz pra sempre só pra agradar os outros?
Pela primeira vez vi compaixão nos olhos dela. Talvez ela também tivesse sonhos que nunca realizou por medo do que os outros iam pensar.
No sábado acordei cedo, arrumei minha mala e fui até a rodoviária. Meu pai estava sentado na varanda com uma garrafa na mão.
— Vai fugir de novo? — perguntou sem olhar pra mim.
— Não tô fugindo, pai. Tô indo atrás da minha felicidade.
Ele ficou em silêncio por um tempo e então disse:
— Só volta se for pra ser feliz de verdade.
Peguei o ônibus com o coração acelerado. Quando cheguei em BH, Camila estava lá me esperando com aquele sorriso aberto que sempre me fez sentir em casa.
Nos abraçamos forte, chorando no meio da rodoviária lotada.
Hoje moro em Belo Horizonte com Camila. Voltei a estudar e trabalho para pagar as contas enquanto sonho em ser professora um dia. Ainda sinto medo às vezes — do preconceito, da rejeição da minha família, do futuro incerto — mas aprendi que viver escondida dói muito mais do que enfrentar o mundo de cabeça erguida.
Às vezes me pergunto: quantas pessoas ainda vivem presas ao medo de serem quem realmente são? Será que vale a pena sacrificar a própria felicidade só para caber nas expectativas dos outros?